SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

SAÚDE »

Olhos protegidos

Proteína já testada no combate ao câncer pode ajudar no tratamento de um dos tipos de degeneração macular, problema que leva à perda de visão, indica estudo irlandês feito em camundongos

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 03/04/2014 16:00 / atualizado em 03/04/2014 11:05

Bruna Sensêve

A degeneração macular relacionada à idade (DMRI) está entre as cinco principais causas para a cegueira no Brasil e é a segunda mais incidente entre os idosos, ficando atrás somente da catarata. Uma diferença fundamental, contudo, é que a última tem tratamento e cura. Já a DMRI não é reversível e, em alguns casos, pode levar à perda de visão quase imediatamente. Estudos buscam novas formas de reverter ou mesmo estacionar o quadro. Entre os trabalhos mais promissores, está o de um grupo de cientistas da Escola de Medicina da Universidade de Trinity, na Irlanda, que criou uma terapia a partir de uma proteína que vem sendo testada para o tratamento do câncer.

A pesquisa, coordenada pela professora de imunologia Sarah Doyle, foi publicada na edição de hoje da Science Translational Medicine. A principal propriedade da proteína interleucina-18 (IL-18) é a capacidade de suprimir a produção de vasos sanguíneos anormais atrás da retina, no fundo do olho, conforme ficou demonstrado com injeções aplicadas em camundongos.

A produção descontrolada de vasos acontece no tipo úmido da degeneração macular, a que pode provocar cegueira imediata. Nela, a barreira que impede o avanço dos pequenos vasos para a retina começa a sofrer uma degeneração. Dessa forma, os vasos já anormais começam a invadir outras regiões oculares.

“Esses vasos não funcionam corretamente. Eles são frágeis e extravasam líquido. Não são competentes e podem liberar sangue para dentro da retina”, explica o oftalmologista Eduardo Novais, especialista em retina pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo que não participou do estudo. Esse processo acontece justamente na região mais nobre da retina, conhecida como mácula. Os novos vasos (neovasos) que formam a membrana neovascular levam a defeitos e a uma baixa visual muito rapidamente.

Não invasiva
Para essa forma de DMRI, o tratamento atual é feito com o uso de medicações que inibem a atividade de uma molécula chamada fator de crescimento vascular endotelial (VEGF, na sigla em inglês), que estimula o crescimento de novos vasos sanguíneos. Substâncias anti-VEGF são injetadas diretamente no olho do paciente para absorverem o excesso do fator de crescimento, prevenindo os vasos anômalos de sangrarem. A nova técnica testada por Sarah Doyle é uma associação dessa terapia com as injeções de IL-18. O efeito conjunto mostrou-se mais duradouro. Além disso, em modelos pré-clínicos, constatou-se que a proteína pode ser administrada de uma forma não invasiva. Os pesquisadores consideram que esse fator, em específico, representa uma grande melhora sobre as opções terapêuticas atuais.

O oftalmologista Eduardo Novais considera que os resultados são muito promissores. “Eles frisam que estão propondo um tratamento combinado com a terapia que já existe. O medicamento isolado tem efeito, mas, junto, levou a melhores resultados.” Trabalhos anteriores da equipe irlandesa mostravam que a falta de IL-18 agrava a DMRI úmida, e os novos experimentos confirmaram a eficácia da proteína pode controlar a produção de vasos sanguíneos.

“Temíamos, inicialmente, que a IL-18 causasse danos às células sensíveis da retina, porque a substância normalmente está associada à inflamação. Mas, surpreendentemente, vimos que baixas doses não tiveram efeitos adversos sobre a retina e ainda suprimiram o crescimento anormal de vasos”, comemora Doyle. Segundo Novais, como ainda não são conhecidos todos os mecanismos que levam à degeneração macular, a cada momento surge uma estratégia terapêutica para uma parte diferente do processo. “É uma doença multifatorial, com várias causas. Então, a cada hora, há uma investigação sobre um dos mecanismos.”

Tratamento difícil
A degeneração macular envolve uma perda de visão central de tal forma que as pessoas em estágios avançados são incapazes de ler, ver televisão, conduzir ou utilizar computadores. Renato Neves, diretor do Hospital de Olhos de São Paulo, conta que a enfermidade tem um tratamento complicado e, somente há cerca de três anos, surgiram novas drogas capazes de secar a membrana neovascular. “Esse é o mesmo objetivo que tem o tratamento com a interleucina-18. Mas vale ressaltar que o estudo de Doyle ainda é básico, feito com camundongos para testar sua efetividade”, diz. O oftalmologista, fundador e presidente da Fundação Eye Care, garante que a principal busca da pesquisa no campo gira em torno de uma nova alternativa para a regressão dos vasos e a preservação da visão.

A interleucina é uma substância que existe dentro do próprio organismo, capaz de reverter o quadro de degeneração que, para Neves, é tão importante quanto outras em teste para tratar a doença. A relação com substâncias anticancerígenas não é uma novidade para o especialista. “Existem hoje na clínica injeções de drogas que eram utilizadas antes em tratamento contra o câncer e que tratam esses vasinhos logo no começo da fase vascular. Uma injeção desse antiangiogênico consegue secar e prevenir que a pessoa perca a visão”, descreve.

Em casos mais leves, a injeção chega a resolver o problema permanentemente. Condições mais graves pedem três ou mais aplicações para o controle. “É como uma quimioterapia. Não tem um número limite. Você está fazendo um tratamento prolongado para reverter o processo. Tem gente que faz mais de doze, mas não é o normal.”

“Temíamos que a IL-18 causasse danos às células sensíveis da retina, mas vimos que baixas doses não tiveram efeitos adversos”
Sarah Doyle, coordenadora da pesquisa
Tags:

publicidade

publicidade