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O homem e seu tempo

Exposição que celebra o centenário do ator, compositor e dramaturgo carioca Mário Lago, morto em 2002, chega hoje a Brasília. Mostra tem entrada franca e vai até 1º de junho

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postado em 03/04/2014 17:00

Gabriel de Sá

 (Arte/CB/D. A Press) 


“Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo. Nem ele me persegue, nem eu fujo dele”. O carioca Mário Lago partiu em 2002, aos 90 anos, e soube como poucos aproveitar a longa vida que lhe fora destinada. A frase, de autoria dele, revela a leveza com que tratava o tema. O tempo, amigo, possibilitou que o artista se manifestasse das mais variadas maneiras: compôs três centenas de canções, atuou, fez poesia e escreveu para rádio, teatro e cinema. E ainda era boêmio e militante de esquerda, além de advogado e dedicado pai de cinco filhos.

“Ele foi um dos primeiros artistas multimídia do país”, garante Mário Lago Filho, curador da exposição Eu Lago Sou — Mário Lago, um homem do século 20, que chega hoje a Brasília e permanece no Museu Nacional dos Correios, com entrada franca, até o dia 1º de junho. “Um homem que passou por tantos meios de comunicação e conseguiu se reinventar, foram poucos que conseguiram isso”, comenta o rebento, de 57 anos. “Talvez, só o Chico Anysio”, completa.

A mostra idealizada por Mário Lago Filho, e com coordenação de Mariana Marinho, mergulha, a partir de fotos, manuscritos e citações marcantes, nos principais aspectos da vida do artista. Um deles é o afetivo. Objetos familiares, imagens de pais, avós e filhos, com textos do próprio autor, compõem o retrato do homem de família.

Outro aspecto retratado se refere à boemia. Autor das afamadas Nada além (parceria com Custódio Mesquita), Ai, que saudades da Amélia (com Ataulfo Alves) e Aurora (marchinha feita com Roberto Roberti), Mário Lago era frequentador assíduo das noites cariocas.

Em outra seção, uma enorme linha do tempo traça os principais acontecimentos do século 20, no Brasil e no mundo, entremeados por passagens fundamentais da vida de Lago. “Os 50 anos do golpe militar fizeram com que a gente quisesse focar muito na questão política dele. O ano de 1964 está bem retratado”, adianta o filho.

O golpe levou Mário Lago à prisão. Em 2 de abril de 1964, ele foi encarcerado, onde ficou por 58 dias. Lago nunca foi filiado ao Partido Comunista, mas militava pela causa e era extremamente atuante. “Papai fazia parte de alvos preferenciais dentro da classe artística. Ele já tinha até uma malinha pronta em casa para ocasiões do tipo”, lembra o curador, em tom de brincadeira.

Parcerias póstumas

Mario Lago Filho queria comemorar o centenário de nascimento do pai, em 2012, em grande estilo. Tinha nas mãos um vasto material inédito — poesias, na maioria. Acabou enviando os versos para artistas como Lenine, Joyce, Arnaldo Antunes e Frejat, que os musicaram e participaram de um álbum que permanece inédito.

O disco deve vir a público com outro projeto fonográfico, um CD de marchinhas, também já gravado. O pacote inclui o documentário Mário Lago (de Marco Abujamra e Markão Oliveira, 2013). “Minha preocupação sempre foi com a preservação e a divulgação do acervo dele”, diz Filho.

Conhecido pelas novas gerações por conta das novelas (ele foi funcionário da TV Globo por 50 anos), Mário Lago trabalhou também na Rádio Nacional, na qual seus programas e folhetins ficaram no topo por pelo menos três décadas. Banana da terra, filme de 1939, cujo roteiro foi escrito por ele e Braguinha, lançou o visual abaianado de Carmem Miranda.

Foram pelo menos 90 papéis no cinema (como em Terra em transe, de Glauber Rocha) e na tevê, em novelas como Dancing days e nas minisséries O tempo e o vento e Hilda Furacão. Há imagens das três produções na exposição. Para teatro, há cerca de 200 textos escritos por ele. “Foi bem difícil fazer essa seleção”, conta a coordenadora Mariana Marinho.

“Mário foi um comunicador de massa, gostava de falar ao povo. Mesmo sendo da Globo ou da Nacional, ele sempre se posicionou”, observa ela. A mostra, que estreou no Rio de Janeiro em 2012, segue para Recife e São Paulo depois da temporada brasiliense.


Saiba mais

» Mário Lago era filho do maestro Antônio Lago e tinha um tio italiano, flautista e anarquista, Giuseppe Croccia.

» Ele formou-se bacharel em direito em 1933, pela Universidade do Brasil. Nessa época, aderiu à ideologia marxista. Foi preso em sete ocasiões.

» Zeli, a mãe de seus cinco filhos, era filha do militante comunista Henrique Cordeiro. Um dos rebentos do casal recebeu o mesmo nome que o líder comunista Luís Carlos Prestes.

» O artista era torcedor do Fluminense.

» Foi homenageado com um prêmio pelo conjunto da obra no programa do Faustão, da Globo, em 2001. No ano seguinte, o troféu, concedido a nomes importantes da tevê, passou a levar o nome dele.

» No filme Noel — Poeta da Vila (2006), Mário Lago foi interpretado pelo cantor Supla.


300
Número de composições de Mário Lago, entre canções e obras para o teatro


EU LAGO SOU — MÁRIO LAGO, UM HOMEM DO SÉCULO 20

De hoje a 1º de junho, no Museu Nacional dos Correios (SCS, Quadra 4, Bloco A). Terças a sextas, das 10h às 19h. Sábados, domingos e feriados, das 12h às 18h. Entrada franca. Classificação indicativa livre. Informações: 3213-5076.
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