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Artigo:O futuro da mobilidade sustentável

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postado em 04/04/2014 18:00 / atualizado em 04/04/2014 10:48

ROBERT CERVERO
Professor de planejamento regional e de cidades e Ph.D. em planejamento urbano pela Universidade de Califórnia,
Los Angeles, é diretor do Institute of Urban and Regional Development (IURD) e do University of California Transportation Center (UCTC)

 


 


Nas próximas décadas, cerca de 90% do crescimento da população urbana mundial ocorrerá no hemisfério sul. Se os países em desenvolvimento prosseguirem na mesma trajetória da década passada — taxas anuais de crescimento populacional de 2,5% e queda de 1,5% na taxa de densidade construtiva —, a área mundial acumulada de superfícies impermeáveis dobrará em 17 anos e triplicará em 27.

Em longo prazo, as consequências ambientais da transformação de habitats naturais e espaços abertos em áreas destinadas a funções urbanas podem ser devastadoras: redução do abastecimento de água, aumento das emissões de carbono, surgimento de ilhas de calor e escassez de terras aráveis.

Em todo o mundo, cidades estão sendo projetadas e modificadas para reduzir o uso de veículos particulares. Uma série de estratégias deve ser posta em prática, caso se pretenda tornar as cidades mais sustentáveis no século 21. Isso inclui:

1. Bairros tradicionais — Como eram antes do advento do carro, com a maioria dos destinos (lojas, restaurantes, escolas) a uma distância de cinco minutos a pé de qualquer residência. Estudos nos Estados Unidos indicam que esses lugares podem reduzir em mais de 40% os quilômetros percorridos diariamente em veículos.

2. Crescimento com ênfase no sistema de transporte público — do inglês Transit-Oriented Development (TOD), que incentiva moradores e trabalhadores a usar o transporte público para destinos fora do bairro e a caminhar ou andar de bicicleta para rotas curtas dentro da comunidade.

3. Corredores exclusivos — Curitiba possui corredores lineares e ônibus biarticulados que transportam 16 mil passageiros por hora, número comparável àquele que transportam sistemas muito mais caros de metrô e trem.

4. Projetos de tráfego restrito — Comunidades mais recentes, como Houten, na Holanda, foram concebidas de modo a incentivar o uso da bicicleta e dos trajetos a pé, e mais da metade dos itinerários são feitos assim. Corredores verdes interligam Houten, fornecendo conexões diretas entre bairros e o centro servido por trens. O uso do carro é 25% menor do que em cidades holandesas do mesmo tamanho, e os acidentes de trânsito equivalem a um terço da média do país.

5. Recuperação urbana — Algumas cidades estão descartando a construção em novas áreas para recuperar antigas zonas industriais e comerciais. No início da década passada, um programa em Seul, na Coreia do Sul, incluiu a retomada de espaços ocupados por ruas e rodovias. A derrubada de uma avenida elevada de 6km de extensão e sua substituição por um calçadão rodeado por canteiros provocaram uma transformação radical da cidade, incluindo a conversão de edificações deterioradas em prédios modernos de porte médio.

Para auxiliar na criação desse novo modelo de cidade, é essencial adotar políticas que visem à redução do uso do automóvel e à promoção da mobilidade sustentável. Após um ano da introdução do pedágio urbano em Londres, em 2003, o número de carros no centro caiu 30%. Quase uma década depois, o total da quilometragem percorrida em carros caiu 21%, enquanto o total em bicicletas aumentou 67%; em ônibus, 60%; e em metrô, 42%.

Caronas solidárias e compartilhamento de bicicletas são comuns em muitos bairros de organização concentrada e uso misto, próximos a estações de trem e corredores de ônibus na Europa. Pesquisas demonstram que, na Suíça, participantes de grupos de carona reduzem em média 72% dos trajetos em automóveis após cinco anos. Isso acontece porque as pessoas deixam de usar carros, uma vez que morar perto de uma estação de trem torna o resto da cidade mais acessível.

A construção de infraestrutura para alicerçar formas mais sustentáveis de mobilidade também contribui nesse processo. Com 344km, Bogotá tem a maior rede de ciclovias da América Latina. Na última década, a participação da bicicleta como transporte saltou de menos de 2% para mais de 6%.

Pensar de forma sustentável é essencial para que haja “planejamento sustentável”, aquele que leva a “políticas sustentáveis” e resulta em “ações sustentáveis”. O processo deveria ter início nos primeiros anos da educação formal, acompanhando os indivíduos ao longo da vida. Autoridades e instituições deveriam vestir a camisa da mobilidade sustentável. Essa cultura deve embasar todas as políticas de transporte urbano e ser articulada tanto no planejamento quanto na prática, em todos os níveis de governo. Isso nos levará adiante no caminho para traçar — e garantir — o futuro da mobilidade sustentável.

 

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