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Transplante de medula cada vez mais tarde

O procedimento, antes considerado muito arriscado para pessoas com mais de 55 anos, torna-se comum na terceira idade, graças a melhorias nos procedimentos preparatórios

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postado em 04/04/2014 17:00 / atualizado em 04/04/2014 11:16

Bruna Sensêve

Há apenas 10 anos, indivíduos com mais de 55 anos estavam excluídos de qualquer estratégia terapêutica que envolvesse o transplante de medula óssea devido a preocupações com relação à toxicidade do procedimento. Esse é só um dos fatores que trazia receio aos médicos no momento de escolher o melhor tratamento para essa faixa etária. Idosos também tendem a ter mais comorbidades, isto é, doenças crônicas além daquela que motiva o transplante, como diabetes, dificuldades respiratórias e hipertensão. Hoje, porém, um número cada vez maior de transplantes são realizados nesses pacientes para combater cânceres sanguíneos, como leucemia, linfoma e mieloma múltiplo, mais comuns a partir dos 65 anos. A eficácia da técnica para esse público foi o principal tema discutido no 40º Encontro Anual da Sociedade Europeia de Transplante de Medula Óssea, realizado nesta semana em Milão, na Itália.

Atualmente, entre 25% e 30% dos transplantes de medula óssea nos EUA são realizados em pacientes com mais de 65 anos, de acordo com o Programa Nacional de Doadores de Medula dos Estados Unidos. O dado mostra um aumento de pessoas beneficiadas com o tratamento graças à mudança do limite de idade para o procedimento.

Essa alteração foi motivada por avanços como a redução da intensidade da quimioterapia e a melhoria dos cuidados de apoio. De acordo com estudo publicado  na revista Biology of Blood and Marrow Transplantation, existem mais de 100 mil sobreviventes desse tipo de transplante nos Estados Unidos. A expectativa é de que esse número dobre em 2020 e chegue a 500 mil em 2030. “Ser capaz de expandir o uso da terapia de transplante na faixa etária que mais precisa dele é uma realização e um grande avanço para o nosso campo”, declarou o presidente da Sociedade Americana de Transplante de Medula Óssea (ASBMT), Fred LeMaistre.

Todas essas informações acompanham uma tendência também nacional. Contudo, lembra a presidente da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO), Lucia Silla, essa é uma ciência em evolução, com muitos aprimoramentos a serem feitos. “Estamos transplantando bem melhor, mas ainda há muitos caminhos para aprimorar. Um deles é a questão do indivíduo idoso. Algumas doenças, sobretudo a leucemia aguda, têm uma incidência muito maior em adultos depois dos 60 anos que é exatamente a idade em que existem várias questões que dificultam e comprometem o sucesso do transplante.” O procedimento seria, então, mais uma condição grave de saúde que o paciente precisaria enfrentar.

A cura pelo transplante de medula acontece principalmente por dois mecanismos. Primeiro, o paciente precisa estar com a menor quantidade possível de doença — no caso de linfomas e leucemias, as células doentes que circulam no sangue. Esse estado é chamado de doença mínima residual. Para chegar a ele, o doente recebe grandes doses de medicamentos.

Defesa
O segundo se refere ao sistema de defesa do organismo. “No transplante, o indivíduo recebe o sistema imunológico de outra pessoa”, explica Silla. Isso traz uma série de riscos, como a possibilidade de rejeição. “O transplante de medula óssea é complicado mesmo. Temos muitos pacientes curados, mas um terço faleceu por causa do procedimento”, acrescenta a médica.

Uma das chaves para aumentar as chances de sucesso é destruir o sistema imunológico do doente antes de ele receber um novo exército de defesa, uma fase muito delicada. “Em seguida, o sistema imunológico novo vai destruir aquela doença mínima residual”, esclarece a presidente da SBTMO.

Silla destaca que, nos últimos anos, foram traçadas estratégias de tratamento que tornam esse procedimento menos agressivo aos idosos. Protocolos têm se mostrado capazes de atacar a doença e o sistema imunológico e, ao mesmo tempo, preservar o restante do corpo. Essas estratégias não têm um potencial curativo tão alto quanto os tratamentos mais fortes, mas podem garantir uma sobrevida significativa ao paciente.

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