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CIÊNCIA

Problema feminino e muito comum

Os miomas, nódulos que se formam no útero, não costumam representar grande risco para a mulher, mas podem causar dores e dificultar a gravidez. Tratamentos vão de medicamentos a cirurgia

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postado em 07/04/2014 19:30 / atualizado em 07/04/2014 12:46

Celina Aquino

Belo Horizonte — Estima-se que oito em cada 10 mulheres em idade reprodutiva descubram miomas no útero. O número é alto, mas há pouco motivo para preocupação. Os nódulos são tumores benignos que se formam a partir do músculo que reveste a parede uterina, chamado miométrio, e, na maioria dos casos, são assintomáticos. Não se sabe com certeza o que está relacionado ao surgimento das estruturas, mas suspeita-se da influência de fatores genéticos. Mulheres negras, com histórico familiar e sem filhos depois dos 30 anos estão mais propensas a desenvolver nódulos no útero.

O mais comum é que eles apareçam entre a primeira menstruação e a menopausa. “Os miomas nascem e crescem dependendo dos hormônios femininos, que são produzidos durante o período fértil. Quando o ovário para de produzir estrogênio e progesterona, o risco reduz a zero”, explica o ginecologista Michel Zelaquett, especialista em diagnóstico, acompanhamento e tratamento de mulheres com miomas uterinos.

Geralmente, as pacientes não sentem incômodo, e muitas desconhecem o nódulo até passar por exames de rotina ou engravidar. “É possível conviver normalmente com o mioma desde que ele não cause sintomas nem prejuízo para a qualidade de vida”, pontua Zelaquett, que é diretor do Centro de Mioma, no Rio de Janeiro. O sintoma mais frequente é o sangramento vaginal excessivo, principalmente durante a menstruação e, em geral, com saída de coágulos, o que pode provocar anemia. Quando os nódulos crescem muito, podem comprimir a bexiga e o intestino, levando à incontinência urinária e à constipação intestinal, respectivamente. Cólicas menstruais, dor durante o ato sexual e dores pélvica ou lombar também podem surgir.

Fertilidade

A principal preocupação das mulheres que descobrem um ou mais nódulos é perder o útero. “Mesmo as que já tiveram filhos têm resistência a retirar o útero, principalmente por achar que ele está relacionado com a feminilidade. Considerando que o mioma não oferece risco para a vida delas, não há motivo para não preservar o órgão”, defende o ginecologista. Já as pacientes que ainda não engravidaram buscam evitar o comprometimento da fertilidade.

De acordo com a ginecologista Rachel Silviano Lima, a retirada do útero não é a única alternativa para mulheres com mioma. “Antigamente, a tendência era realizar esse procedimento em mulheres que já eram mães. Existem hoje outras modalidades de tratamento mais conservadoras, e a paciente pode escolher o que é melhor para ela. A cirurgia vai ser indicada quando há muitos miomas, o que torna difícil tirar um por um, principalmente em mulheres que não querem mais ter filhos”, destaca Rachel, que preside o Comitê de Uroginecologia da Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig).

Abordagens

Alguns medicamentos podem ser usados, como pílulas de progesterona isolada e dispositivo intrauterino (DIU) com progesterona, ambos métodos contraceptivos. A vantagem deles é diminuir o sangramento e reduzir o tamanho do nódulo à medida que a dose do hormônio aumenta. Segundo Rachel Lima, o DIU pode não se encaixar no útero de pacientes com múltiplos nódulos porque a cavidade costuma ficar muito distorcida. Em pacientes jovens com miomas que precisam ser retirados, a ginecologista opta por prescrever injeções subcutâneas com análogos de GnRH, medicamentos que inibem a produção dos hormônios femininos, diminuindo o nódulo. “Os análogos de GnRH só podem ser usados, no máximo, por seis meses antes da cirurgia. Nesse período, a paciente vai entrar em menopausa e depois volta a menstruar. No futuro, ela pode engravidar normalmente”, esclarece.

Nos casos em que há a necessidade de retirar o mioma, o médico deve analisar a idade e o desejo da paciente, além da quantidade, do tamanho e da localização dos nódulos. A técnica mais moderna é conhecida como embolização das artérias uterinas, mesmo exame usado para avaliar as artérias do coração. Durante o procedimento, injeta-se um contraste para evidenciar a vascularização do nódulo e uma substância que bloqueia o fluxo sanguíneo na artéria que o nutre. “Isso é muito usado em pacientes jovens que querem engravidar e não precisam esperar o tempo de seis meses com os análogos de GnRH. Mas é um método caro, usado quando o mioma é único, e a paciente pode sentir dor no pós-operatório na hora em que o tumor começa a necrosar”, pondera a especialista.

Os nódulos no útero também podem ser retirados com outras técnicas sem necessidade de cortes, como a histeroscopia e a laparoscopia. Michel Zelaquett acrescenta que há um procedimento ainda mais recente que faz diminuir o tamanho do mioma por ondas de ultrassom. De acordo com ele, uma máquina está em fase de teste em São Paulo.
 
Gestação

Dependendo da localização, o mioma pode diminuir as chances de engravidar. Selmo Geber, ginecologista e obstetra do Centro de Medicina Reprodutiva Origen, em Belo Horizonte, acrescenta, porém, que a associação entre nódulo no útero e infertilidade não é clara. “Não existe uma estatística para provar o quanto a gravidez é prejudicada, mas, se o casal está tentando ter filho há mais de um ano, e encontro um mioma no útero da mulher, tenho que retirá-lo.” O especialista sugere o mesmo tratamento para pacientes com histórico de perdas, pois alguns miomas aumentam o risco de aborto nos três primeiros meses de gestação. Quando o nódulo é diagnosticado durante a gravidez, resta orientar repouso e realizar um cuidadoso acompanhamento para minimizar os riscos.

Existem situações raras em que a cirurgia passa a ser uma solução inviável: pacientes com múltiplos miomas que já foram submetidas a vários procedimentos malsucedidos. “A probabilidade de o embrião fixar no útero é muito pequena, por isso, indico o útero de substituição. A paciente faz fertilização in vitro e transfere o embrião para uma irmã ou a mãe”, esclarece Geber.

Depoimento

Após a cirurgia, uma filha

“Minha menstruação sempre foi muito dolorosa e, em 2008, descobri quatro miomas. Segui a vida normalmente, porém, logo em seguida, tive uma cólica muito forte, e a menstruação passou a ser um verdadeiro terror: eram quatro dias de muita cólica e fluxo intenso e volumoso. Passei a evitar sair de casa nesses períodos e fiquei com uma forte anemia. Para quem deseja ter filhos, o mioma é uma sombra. Não usava métodos preventivos e não engravidava. A cada novo ultrassom, esperava a notícia de que ele tinha reduzido ou pelo menos parado de crescer, mas só crescia. Conviver com a possibilidade de não poder ter filhos era muito difícil, apesar de todo o apoio do meu marido. Tinha muito medo de cirurgia, mas a minha médica me convenceu depois de quase dois anos de acompanhamento. Usar hormônio para interromper a menstruação também não foi uma decisão fácil porque há riscos de menopausa precoce. Em junho do ano passado, recebi a melhor das notícias: estava grávida. Foi uma gravidez tranquila, saudável e feliz. A única orientação era de que não poderia ter parto normal porque o útero não poderia se contrair. Com 38 semanas, Alice chegou e nos completou.”

Maria Thereza de Moura Vieira, 35 anos, administradora de empresas

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