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CIÊNCIA

Fotografia a partir do DNA

Tecnologia criada com colaboração de brasileiro recria a fisionomia de pessoas com base no material genético. O método poderá ajudar a identificar suspeitos de crimes

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postado em 07/04/2014 17:30 / atualizado em 07/04/2014 13:03

Durante uma investigação, policiais obtêm amostras de DNA de um criminoso. O material segue para análise, mas o banco de dados não contém nenhuma pessoa compatível. Também não há testemunhas. Se, pelo menos, houvesse alguma tecnologia que transformasse as informações genéticas em um retrato falado... Pois, em breve, haverá. Técnica criada por uma equipe internacional, com a colaboração de um brasileiro, se mostrou capaz de gerar modelos tridimensionais da face de uma pessoa a partir dos genes. Além de ter o potencial de ajudar na solução de crimes, a pesquisa pode ajudar a reconstruir fisionomias de ancestrais do homem, entre outros usos.

Liderado por Mark Shriver, da Universidade Estadual da Pensilvânia (EUA), e Peter Claes, da Universidade Católica de Leuven (Bélgica), o estudo se baseou na análise do DNA e de fotografias em alta resolução da face de 592 descendentes de africanos e europeus dos Estados Unidos, do Brasil e de Cabo Verde. Rinaldo Wellerson Pereira, professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), coordenou o projeto responsável pela coleta das imagens e do material genético de 100 pessoas no Distrito Federal.

“Os brasileiros estudados têm o genoma mais africano. Mas temos uma amostra muito maior que ainda não foi analisada. O próximo passo é explorar, dentro desse grupo, se a ancestralidade ameríndia tem os mesmos marcadores, ou se são diferentes”, conta Pereira, que é diretor do Programa de pós-Graduação em ciências genômicas e biotecnologia da UCB.

Pessoas com ascendência europeia e africana tendem a ter rostos com formatos muito distintos, o que permitiu aos cientistas encontrar variantes genéticas expressivas entre as populações. "Eu tenho estudado os traços faciais há 15 anos. O Brasil é o futuro genético da nossa espécie, com uma mistura maior que a de qualquer outro lugar no mundo. Isso nos ajuda muito quando estamos à procura de genes que evoluíram recentemente", diz Mark Shriver.

As imagens colhidas nos três países foram usadas para criar modelos em 3D, nos quais foram mapeados mais de 7 mil pontos nos rostos digitais. A equipe também desenvolveu um modelo estatístico que considerou como os genes, o gênero e a ascendência étnica afetam a posição de cada um deles.

Em seguida, os autores compararam os genomas dos voluntários para identificar seções em que o DNA difere em uma única base, situação chamada polimorfismo de nucleotídeo único (SNP). Para restringir a pesquisa, eles se concentraram em genes envolvidos na formação da face, como os que moldam o formato do crânio no desenvolvimento embrionário. Foi calculada, então, a probabilidade estatística de um determinado SNP estar envolvido na formação de uma característica facial particular.

O grupo de pesquisa analisou 76 variantes nesses genes, chegando a 24 SNPs. Um programa de computador desenvolvido pela equipe modulou a sequência de DNA de um indivíduo desconhecido para criar um modelo facial 3D preditivo. O próximo passo é tentar integrar mais pessoas e genes — alcançando 20 mil amostras — e considerar características mais detalhadas, como a textura do cabelo.

Testes
Reconstruções com base nessas variantes ainda não fazem parte da rotina nos laboratórios forenses. Contudo, Shriver já estabeleceu uma parceria com a polícia da Pensilvânia para testar o método a partir de dois casos de estupro. Peter Claes acredita que, daqui a uma década, será possível utilizar a tecnologia com maior precisão.

É importante ressaltar, contudo, que, mesmo o método se tornando popular, dificilmente as imagens geradas servirão como provas nos tribunais. Elas deverão ser úteis, na realidade, para indicar um suspeito, do qual uma mostra de DNA poderá ser colhida para comparar à encontrada na cena de um crime ou em uma vítima. Pereira, da UCB, lembra que o método não garante a cópia exata de um rosto, mas características importantes dele. Isso porque a formação da face é influenciada por uma série de fatores além dos genéticos, como os hormonais e os ambientais.

O pesquisador belga ressalta que a técnica poderá ter outras aplicações interessantes, funcionando inclusive como estímulo para mudanças no estilo de vida. “Por exemplo, pessoas que estão em um programa de emagrecimento podem ter mais sucesso se conseguirem se enxergar 10kg ou 15kg mais magras a partir de uma recriação virtual de seus rostos”, afirma Claes.

Outra possibilidade é reconstruir faces de parentes extintos do homem, como os neandertais e outros hominídeos, dando aos paleoantropólogos uma imagem melhor das espécies primitivas. Claes diz que, embora as amostragens adicionais ajudarão bastante, muito trabalho precisará ser feito para aprimorar a metodologia. “É preciso ter uma ideia melhor do quão útil essas imagens podem ser. Quais falhas elas apresentam, por exemplo? Ainda não sabemos”, ressalta.


Dados brasileiros
Em maio de 2012, a presidente Dilma Rousseff sancionou a lei 12.654, que torna obrigatória a inclusão do DNA de condenados por crimes violentos em um banco de dados. Todos que cometerem crimes hediondos ou violentos contra a pessoa deverão ser submetidos à identificação do perfil genético. Para acessar os dados, a polícia precisará de autorizaçnao judicial. Os brasileiros foram treinados pelo FBI americano, que também instalou e configurou os computadores do sistema de dois módulos. Um servirá para gerenciar os dados coletados em cenas de crimes, enquanto o outro manterá informações de pessoas desaparecidas.

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