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Mudanças no clima afetam os peixes

Estudos desenvolvidos na Amazônia com tambaquis mostram que alterações na temperatura e na qualidade do ar impactam diretamente o metabolismo dos pescados, retardando o crescimento

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postado em 08/04/2014 15:23

Junia Oliveira

Belo Horizonte — As mudanças climáticas poderão afetar os peixes, uma das principais fontes de alimentação do brasileiro. Estudos feitos no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) com o tambaqui, espécie de enorme potencial econômico da região, mostram que o aumento da temperatura retarda o crescimento do animal. Além de alterações na biologia e na adaptação ao ambiente, há reflexos significativos para o homem. A relação do desenvolvim25ento dos pescados com a alteração do grau de calor também é objeto de avaliação de outro projeto, feito também com matrinxãs e focado na tolerância térmica deles nas águas doces de regiões tropicais.

Na primeira pesquisa, 400 tambaquis foram divididos em quatro ambientes — salas do microcosmos, com 25m2. Esses espaços fazem parte da estrutura do Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (Leem) do Inpa e simulam as mudanças do clima previstas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) para o ano de 2100. Para isso, as salas foram equipadas com sistema automatizado. Um sensor captava a quantidade de CO2 que, por sua vez, era decodificada por um programa de computador, apto a aumentar ou diminuir os níveis.

Na sala de controle, a primeira das quatro, foram reproduzidos a temperatura, o nível de CO2 e a umidade iguais aos do meio ambiente — cerca de 30º graus e 380 partes por milhão (ppm) de dióxido de carbono na atmosfera. As variações seguiram as condições naturais externas aos microcosmos, coletadas em tempo real por sensores especialmente instalados na floresta. O segundo ambiente refletiu um cenário brando, com temperatura elevada em 1,5 grau e 600ppm de CO2. Na terceira sala, foi adotado um parâmetro intermediário, com aumento de 2,5 graus e 800ppm. E na última, de nível extremo, foram simulados 4,5 graus e 1.250ppm a mais.

Foram montados, em cada sala, seis aquários para avaliar o crescimento e o metabolismo resultante das enzimas ômega 3 e 6, capazes de transformar gorduras saturadas em insaturadas (as mais saudáveis). Engenheira de pesca e doutoranda no Inpa, Alzira Miranda de Oliveira, responsável pelo trabalho, explica que, com o aquecimento global, a temperatura aumenta por causa dos crescentes níveis de dióxido de carbono na atmosfera, elevando o potencial do efeito estufa.

A avaliação, que durou 150 dias, detectou menor crescimento das espécies quando submetidas a temperaturas mais altas, nos níveis intermediário e extremo, principalmente no último. O resultado surpreendeu. “Quando a temperatura aumenta, sobe também o metabolismo e, como os peixes comem mais, eu esperava que eles crescessem mais. Mas ocorreu o inverso”, disse Alzira. “Eles começaram a comer menos, e o crescimento a diminuir. É uma situação tão desfavorável fisiologicamente que faz com que não reproduzam essa elevação do metabolismo no crescimento”, explicou.

Gordura
Daniel Jordano/Inpa

Nessas condições, a mudança climática afeta uma das principais enzimas que elevam a quantidade de ômega 3 no organismo do peixe. Embora haja um pico num primeiro momento, ela cai bruscamente depois. Por isso, pode-se ter peixes com mais gordura saturada. Quando submetidos ao cenário brando, as alterações se acomodam depois dos 30 primeiros dias, revertendo a tendência de não crescimento.

A doutoranda, que defenderá sua tese no início do mês que vem, lembra que o tambaqui é o principal peixe consumido na região amazônica e, embora não esteja esgotado, já foi bastante explorado. Hoje, para pescar peixes maiores, é preciso navegar quilômetros. Por isso, para adequar a oferta à demanda, o tambaqui começou a ser criado em cativeiro a partir da década de 1980. Nesse contexto, Alzira quis mostrar quais impactos podem ocorrer no ambiente aquático e o que isso representa para as espécies que são economicamente viáveis, se persistirem os altos níveis de emissão de CO2.

O próximo passo é avaliar os hormônios de crescimento. “Provei que a modificação no ambiente interfere no crescimento, mas e em outros fatores? Será que o peixe conseguirá se manter vivo? Ele e outras espécies não sumiriam do ecossistema? O que podemos fazer para reduzir a quantidade de CO2?”, indagou a pesquisadora. Embora se trate de uma pesquisa pontual para o Amazonas, prevendo um cenário para daqui a 100 anos, a engenheira ressalta que as emissões atuais permitem a elaboração de modelos com simulação de casos extremos. “Falo de futuras gerações, que nascerão num mundo completamente modificado e com recursos naturais diferentes. Pode causar impacto na economia e na sociedade”, ressaltou.

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