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Correio Braziliense

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CIÊNCIA

Talento para escapar

Pesquisadores americanos monitoram as moscas da fruta e constatam por que é tão difícil acertá-las: quando ameaçadas, aumentam a velocidade do voo e fazem manobras similares às de um avião a jato

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postado em 11/04/2014 17:00 / atualizado em 11/04/2014 11:08

Roberta Machado

“O homem que pega uma mosca com esses palitos realiza qualquer coisa”, ensina o senhor Miyagi ao aprendiz Daniel-san, no clássico de 1986 Karate Kid 2. E agora a ciência confirma o que já dizia o sábio mestre de artes marciais (e o que você também já sabia): acertar esses bichinhos voadores é uma tarefa quase impossível. Depois de observar dezenas desses insetos sob uma câmera de alta velocidade, pesquisadores norte-americanos apontam que provavelmente não há no mundo animal com tanto talento para a fuga quanto a pequena mosca da fruta. Quando se sente ameaçada, a drosófila faz uma complexa manobra como a de um avião a jato, despistando o predador e fugindo em alta velocidade.

Para entender como as moscas parecem se desintegrar em pleno ar, os pesquisadores criaram um tipo de arena projetada especialmente para aterrorizar e flagrar os animais. No espaço circular, coberto de luzes LED e que recebeu sensores a laser invisíveis, foram colocadas cerca de 50 espécimes do tipo Drosophila hydei. Sempre que os insetos passavam na mira das três câmeras especiais instaladas na gaiola, o sistema apagava as luzes em um rápido padrão crescente, assustando os bichos e obrigando-os a escapar. Todo o processo era filmado.

Os pesquisadores notaram um padrão surpreendente no movimento dos insetos, que mudavam de direção de forma tão brusca que pareciam até perder o controle do voo. Quando surpreendidas pelo piscar das luzes, as moscas jogavam o corpo para a direção contrária da ameaça em um ângulo de 90º, às vezes chegando a voar quase de cabeça para baixo. Depois, as moscas alinhavam novamente os corpos, tentando retomar a posição correta e ganhar velocidade. Essa manobra é feita com nada mais que três ou quatro batidas de asas, em um centésimo de segundo. Isso é 50 vezes mais rápido do que um piscar de olhos.

A maior surpresa, de acordo com os autores do trabalho, foi como as moscas da fruta conseguem executar a veloz manobra de fuga, mesmo com poucos movimentos. “Apesar da resposta rápida, elas são muitos hábeis em se distanciar do estímulo”, ressalta Michael Dickinson, engenheiro aeroespacial que estuda o voo das moscas há mais de duas décadas, e que assina o artigo publicado hoje na revista Science. “Nossa melhor evidência é que se trata de um comportamento instintivo que as moscas não aprendem”, especula o pesquisador da Universidade de Washington.

Foi necessária uma câmera capaz de filmar 7,5 mil frames por segundo para registrar os detalhes do voo da Drosophila, que tem a velocidade acelerada em até cinco vezes durante uma escapada. Todas as 3.566 batidas de asas registradas em 92 fugas diferentes foram digitalizadas por um computador, que criou simulações tridimensionais dos movimentos dos bichos. A técnica de voo também foi testada em robôs alados, onde os pesquisadores mediram a força usada pelos insetos na hora do aperto. As máquinas (bem maiores que uma mosca real) eram colocadas em uma imersão de óleo mineral, na qual a aerodinâmica da fuga reproduzida ficou mais visível.

Reação
Baseados nesses resultados, os pesquisadores acreditam que as moscas da fruta tenham um conjunto especializado de sensores e ferramentas motoras projetados especialmente para escapar de predadores em uma fração de segundo. Moscas são equipadas com grandes olhos compostos que enxergam ameaças com rapidez, também contam com um tipo de giroscópio chamado balancins, que ajudam nas manobras praticamente suicidas que elas realizam.

Embora não seja maior que um grão de sal, o cérebro desses insetos é capaz de fazer cálculos sofisticados em uma fração de segundo e decidir como evitar uma situação perigosa. “Há um alto grau de biologia conservada entre moscas e homens”, ensina Hermione Bicudo, bióloga que usa as Drosophilas em experimentos de genética e evolução. Mas, diferentemente dos humanos, que pensam em uma situação de perigo, a mente das moscas está preparada somente para reagir a ameaças, em uma forma quase automática. “Ambos (humanos e moscas) realizam as mesmas reações químicas em seus organismos, que nas moscas as reações são mais simples”, compara a professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Rio Preto.

Os cientistas norte-americanos ainda não sabem como os minúsculos bichos executam manobras tão rápidas e precisas, mas adiantam que devem continuar estudando a arte da fuga desse inseto. Infelizmente, os autores da pesquisa também não souberam dizer como um simples humano poderia fazer para surpreender esses fugitivos profissionais — o que quer dizer que os frustrados golpes desperdiçados em moscas fujonas devem continuar sendo uma fonte de irritação para as pessoas que são incomodadas por esses bichos. “Tudo se resume na verdade em ser rápido. É uma batalha de velocidade contra agilidade”, lamenta Dickinson.

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