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Aedes pode transmitir vírus da chikungunya

Pesquisa inédita do Instituto Oswaldo Cruz comprova que o mosquito é possível vetor da doença, que exibe sintomas semelhantes aos da dengue e já causou epidemias na Ásia, na África e na Europa. Ministério da Saúde tem plano para frear o contágio no país

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postado em 11/04/2014 15:00

Bruna Sensêve


Pacientes com a febre da chikungunya são atendidos em hospital na Índia: transmissão da doença é mais rápida que a da dengue (Ajit Solanki/AFP - 17/1/2008) 
Pacientes com a febre da chikungunya são atendidos em hospital na Índia: transmissão da doença é mais rápida que a da dengue


Aedes aegypti: Brasil vulnerável à doença, que já chegou às Américas (Carlos Vieira/CB/D.A Press - 9/4/2013) 
Aedes aegypti: Brasil vulnerável à doença, que já chegou às Américas


A dengue e a febre amarela não são as únicas ameaças carregadas pelo Aedes aegypti. Um dos vetores mais temidos nos países tropicais, o mosquito também pode transmitir o vírus da chikungunya, febre que tem sintomas similares aos das outras doenças e já causou graves epidemias na Ásia, na África, na Europa e no Caribe. É o que mostra um estudo coordenado por cientistas nacionais e publicado na última edição do Journal of Virology. Isso significa que o risco de o novo micro-organismo se espalhar pelas Américas e, especialmente pelo Brasil, é bastante alto, uma vez que, após diversos experimentos, os pesquisadores constataram que os insetos existentes no continente são extremamente vulneráveis a diferentes tipos do vírus.

Uma equipe do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), no Rio de Janeiro, em parceria com o Instituto Pasteur, em Paris, avaliou a capacidade de os mosquitos americanos — dos Estados Unidos ao Uruguai — transmitirem o agente causador da chikungunya. “Nós pegamos 35 amostras de mosquitos de vários lugares do continente, tanto do tipo Aedes aegypti quanto do Aedes albopictus e desafiamos esses insetos com três amostras diferentes do vírus: uma africana, uma do Oceano Índico e outra asiática”, detalha Ricardo Lourenço, pesquisador do Laboratório de Hematozoários do IOC e coordenador do estudo.

Os diversos experimentos confirmaram a eficiência desses vetores para a transmissão da febre. Segundo Lourenço, isso confirma que o Brasil é receptível e vulnerável ao patógeno. A situação se agrava com a proximidade física de países que enfrentaram epidemias recentemente, como o Caribe e a Guiana Francesa, e a realização da Copa do Mundo, que proporcionará um grande trânsito de turistas. O pesquisador ressalta, porém, que o Ministério da Saúde e a Secretaria de Vigilância em Saúde já estão atentos à possibilidade de entrada do vírus no país. “Desde 2009, documentos foram produzidos para capacitar médicos. Centros de diagnósticos estão sendo preparados para detectar precocemente os casos.”

A ideia é preparar um bloqueio de transmissão. Os resultados recolhidos por Lourenço e colegas ajudarão a intensificar esse trabalho. “A população não deve ficar alarmada. Os profissionais foram capacitados para lidar com a situação o mais rapidamente possível, evitando maiores danos”, garante o especialista. Em 2010, dois casos da doença foram diagnosticados no país, mas não se espalharam. Os dois pacientes diagnosticados tiveram contato com o micro-organismo em outros continentes e chegaram ao Brasil já infectados.

Mais rápido
O vírus da chikungunya se espalha de maneira mais rápida que o causador da dengue. Uma das principais diferenças entre os micro-organismos é a duração do ciclo de transmissão a partir do momento que o mosquito pica alguém infectado. Quando o Aedes aegypti e se infecta com a dengue, ele demora cerca de duas semanas para poder transmitir o vírus. No caso do chikungunya, esse intervalo é de dois ou três dias. “Isso acelera muito a capacidade de multiplicação dos casos se, em uma localidade, aparecer uma pessoa contaminada”, explica Lourenço.

Os sintomas dos males, no entanto, são parecidos, com exceção da dor nas articulações. “As pessoas ficam com dor nas juntas, especialmente nas dos ossos pequenos, como na mão e no joelho. Essa dor é um diferencial. A dengue gera uma dor no corpo, mas não nas juntas”, esclarece o especialista. Essa sensação também é precoce e vem com os primeiros sintomas e a febre.

Não há remédio ou vacina para a infecção, e o tratamento se restringe ao controle da febre e das dores. Como toda doença, quando as pessoas têm problemas de base — como alergia, diabetes, serem mais velhas ou crianças — tendem a surgir complicações.

São conhecidos no mundo mais de 500 tipos de arbovírus, isto é, transmitidos por insetos. Parte deles é patogênica para o homem, mas ainda circula somente entre animais silvestres. Em algum momento, no entanto, esses micro-organismos podem emergir e sair de um ciclo silvestre para o perímetro urbano, como foi o caso da dengue e da febre amarela décadas atrás. O vírus da chikungunya emergiu assim na África há cerca de 10 anos e levou a repetidas ondas epidêmicas. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), desde 2004, a febre chikungunya alcançou proporções epidêmicas, com morbidade e sofrimento consideráveis. Ela se espalhou por meio do Oceano Índico para a Ásia até chegar à Europa. Em 2007, a transmissão da doença foi relatada pela primeira vez em um surto localizado no nordeste da Itália.

No entanto, embora o vírus esteja circulando em várias partes do mundo com pessoas infectadas, nenhum caso de transmissão havia sido registrado nas Américas até dezembro do ano passado. Na ocasião, foi relatada uma epidemia da chikungunya no continente americano, mais especificamente na Ilha de San Martin, no Mar do Caribe. Depois disso, o mal chegou à Martinica, a Guadalupe, a San Bartolomeu e à Guiana Francesa, que faz fronteira com o Amapá. De acordo com os últimos dados epidemiológicos, no Brasil não foi notificado qualquer caso de transmissão autóctone, isto é, ocorrida dentro do país.
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