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TECNOLOGIA

Ousadia tridimensional

Arquitetos holandeses iniciam em Amsterdã a construção da primeira casa totalmente produzida a partir de uma impressora 3D. Com 13 cômodos, a habitação, feita com blocos de plástico, deve ficar pronta em três anos

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postado em 14/04/2014 17:30 / atualizado em 14/04/2014 11:28

Roberta Machado


Projeção feita pelos arquitetos holandeses de como ficará a casa: módulos gigantes (Dus Architects/Divulgação) 
Projeção feita pelos arquitetos holandeses de como ficará a casa: módulos gigantes

 
À beira de um canal em Amsterdã, um canteiro de obras passa desapercebido. Em vez de enormes gruas e caminhões de cimento, a construção conta somente com um imenso contêiner espelhado do qual saem misteriosos blocos de plástico pretos. Os módulos são como peças de Lego gigantes, que, aos poucos, vão tomando a forma de um canto de parede coberta por uma textura retrô de cubos. Essa é a etapa inicial de construção do que promete ser a primeira casa produzida inteiramente a partir de uma impressora 3D, um ambicioso projeto de três anos que servirá de teste para o que pode ser a nova tendência da engenharia personalizada.

 A ideia dos profissionais da firma holandesa Dus Architects é bastante simples: fazer uma casa de 13 cômodos com a mesma técnica que hoje é usada para prototipagem e para a produção de objetos como capas de celulares e brinquedos. E para isso, os arquitetos precisavam de uma ferramenta de trabalho à altura. Eles, então, adaptaram um contêiner para criar uma das maiores impressoras 3D já feitas, a Kamer Maker (fabricante de cômodos, na tradução).

O projeto começou a ser colocado em prática no início do mês, e já conta com uma fração de uma parede de três metros de altura. Quem quiser, pode visitar a construção, ver o processo de impressão de perto e conhecer uma exposição com maquetes e desenhos que mostram como a casa de plástico deve ficar depois de pronta. A obra já recebeu inclusive a visita do presidente norte-americano, Barack Obama, que conheceu o projeto durante a visita que fez a Amsterdã no último dia 24.

“Os cômodos são primeiro testados em impressoras pequenas. E, quando estão finalizados, nós os enviamos para a impressora grande”, explica em um vídeo Martine De Wit, cofundadora da Dus Architects. “Como a técnica é a mesma na impressora pequena e na grande, podemos usar os mesmos planos. Então, a inovação não é só na técnica, é também no design”, afirma. Por enquanto, a equipe holandesa trabalha com o mesmo plástico usado em impressoras 3D comuns. Mas eles já estão desenvolvendo um novo material, mais sustentável e adaptado para o uso na arquitetura.

Em um único bloco, a máquina imprime fachada, estrutura interna e ornamentos, sem necessidade de acabamentos. Cada peça de 180kg leva cerca de uma semana para ficar pronta. A ideia é imprimir, montar, desmontar e refazer cada um dos cômodos até completar toda a estrutura. No fim, os blocos ocos devem se preenchidos com uma espuma, que vai endurecer como concreto e unir as peças de plástico. O projeto, ressaltam os idealizadores, é um experimento que servirá de base para o desenvolvimento de novas máquinas e métodos que atendam às necessidades desse tipo de trabalho.

Para especialistas, é inevitável que o método de impressão 3D seja usado em breve no campo da construção civil. Mas nenhum deles deve reinventar a roda: o mais provável é que eles integrem a técnica aos modelos de casas que já existem. “É como um automóvel: altera uma série de coisas, mas sempre vai ter a mesma estrutura, com pneu, motor, porta e janela”, compara Mauro Lacerda, professor de engenharia civil e arquitetura na Universidade Federal do Paraná (UFPR). “É simplesmente uma tecnologia adicional que, por ser de escultura, permite formas mais elegantes que as retangulares do pré-moldado”, aponta o especialista.

Facilidade

A Dus Architects acredita que montar uma casa no futuro não será muito diferente de pedir uma pizza pela internet. Qualquer um poderia acessar os projetos on-line e escolher os cômodos de seu lar dos sonhos. Depois de montada a planta da residência, bastaria escolher detalhes como o material e a cor, e mandar a máquina imprimir os módulos arquitetônicos. Essa dinâmica praticamente elimina os custos de transporte e dá um fim aos resíduos da obra, já que todo o processo é feito sob medida. A impressora também poderia ser usada para substituir cômodos inteiros sem a dor de cabeça de uma reforma, permitindo que os moradores praticamente desmontem a casa para fazer uma nova.
O conceito de impressão 3D é uma fonte inesgotável de ideias para a arquitetura. “Você pode fazer o que você quiser, literalmente. Com areia, argila, cerâmica, e, inclusive, com tecidos vivos”, ressalta Rodrigo Krug, diretor da empresa brasileira de impressão 3D Cliever Tecnologia. Assim que a técnica se tornar economicamente viável, designers e arquitetos poderão trabalhar com essa ferramenta em aspectos que vão desde a fundação até os elementos decorativos de um projeto. “A parte pequena, com detalhes, é a mais difícil. Uma construção grande e robusta é só questão de escala”, acredita Krug.
São incontáveis as vantagens esperadas para essa nova tecnologia, e por isso mesmo os arquitetos holandeses não são os únicos que estão interessados no título de impressores de edifícios. Várias pessoas já estão na corrida pela casa 3D e pretendem encontrar uma forma de transformar esse sonho futurista em realidade. Um dos projetos mais famosos é a Landscape House, uma casa conceito em forma de fita de Möebius que se alonga por dois andares. O arquiteto responsável pelo projeto anunciou uma parceria com Enrico Dini, que ficou famoso por construir cavernas de areia feitas com a técnica de impressão 3D, e já chegou a expressar seu desejo de instalar a casa impressa aqui no Brasil.

Moradia a jato
O pesquisador Behrokh Khoshnevis também trabalha há quase uma década em um projeto chamado Countour Crafting, que consiste em uma grande máquina capaz de construir casas de concreto sólido. Ele já montou um protótipo da invenção, que lembra uma impressora 3D, mas que trabalha de uma forma um pouco diferente. A construtora deposita uma grossa camada de cimento de secagem rápida, e depois retorna aplicando uma estrutura interna de sustentação.

O piso e o telhado seriam feitos de placas pré-moldadas, desenroladas sobre a casa como um grande tapete. Máquinas também ficariam responsáveis pela instalação de estruturas elétricas e hidráulicas, pela aplicação de azulejos e inclusive da pintura, aplicada por uma grande impressora a jato de tinta.

O método não tem o mesmo potencial artístico usado na casa de Amsterdã, mas Khoshnevis acredita que sua pesquisa seja útil em uma área diferente: construções em série de residências a baixo custo, para populações carentes. O criador da técnica estima que uma residência média fique pronta em 20 horas (a estimativa para uma obra comum é de sete meses). O pesquisador também já trabalha diretamente com a agência espacial norte-americana (Nasa) em um projeto que estuda a possibilidade de usar a técnica para a fabricação de bases na Lua ou em Marte.

Projeto em Minas

O arquiteto holandês Janjaap Rujissenaars (o mesmo responsável pela criação da cama flutuante magnética de US$ 1,6 milhão) revelou no ano passado que uma empresa brasileira manifestou interesse em abrigar a Landscape House 3D em um terreno ao lado do parque nacional de Minas Gerais. Mas Rujissenaars ainda afirmou que também existe a possibilidade de o grupo usar o projeto em uma casa particular nos Estados Unidos.
 
 
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