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Um inimigo desconhecido

Pesquisa feita em 10 capitais brasileiras revela que mais da metade das entrevistadas desconhecem a endometriose, doença que atinge 170 milhões de mulheres no mundo e 6 milhões no país

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postado em 14/04/2014 18:00 / atualizado em 14/04/2014 11:30

Augusto Pio


Segundo a médica Rivia Mara, a incidência de endometriose na população feminina é variável: em muitas mulheres, os sintomas não aparecem (Leandro Couri/EM/D.A Press) 
Segundo a médica Rivia Mara, a incidência de endometriose na população feminina é variável: em muitas mulheres, os sintomas não aparecem


Belo Horizonte — A endometriose afeta mais de 170 milhões de mulheres em todo o mundo. Causa dor, sangramento irregular e é também uma das principais causas da infertilidade e perda de qualidade de vida entre a população feminina. No Brasil, são cerca de 6 milhões de mulheres sofrendo com a endometriose — dessas, 53% desconhecem a enfermidade. A informação consta em uma pesquisa realizada recentemente pela Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva (SBE). Foram entrevistadas 10 mil mulheres, com mais de 18 anos, em Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador.

A pesquisa revelou que, em Porto Alegre, 68% das mulheres não sabem o que é a endometriose, percentual que, em Manaus, chegou a 82%. Em São Paulo e Brasília, 52% disseram nunca ter ouvido falar da doença. Na capital pernambucana, 72% das mulheres afirmaram ter ouvido falar sobre o assunto; em Curitiba e Salvador, o percentual de conhecimento foi de 64%, e no Rio de Janeiro, de 54%. O levantamento, feito com apoio da Bayer, reforça também que as mulheres ainda não estão bem informadas sobre a endometriose, o que acaba dificultando a detecção e o tratamento da doença. Na capital mineira, 27% das mulheres abordadas responderam que conhecem a doença.

O ginecologista Benito Ceccato, professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, explica que o endométrio é a membrana que reveste a cavidade uterina, cuja função é receber o ovo fecundado. “A placenta vai ser formada no endométrio e será a conexão do bebê com a mãe, fornecendo os nutrientes necessários para o desenvolvimento fetal. Todo mês, o endométrio prepara-se para receber o óvulo fecundado e, caso não ocorra a gravidez, ele descama com sangue (menstruação)”, esclarece. “Assim, a endometriose é a presença de tecido similar ao endométrio fora da cavidade uterina, que também responde às variações hormonais, podendo descamar e sangrar durante o período menstrual”, assinala Ceccato.

Segundo o especialista, a endometriose pode ocorrer teoricamente em qualquer parte do organismo, sendo descritos casos raros de localização, por exemplo, na cicatriz umbilical, septo nasal e na pleura. “As localizações mais comuns são a cavidade peritoneal (peritônio é a membrana que recobre os órgãos do abdômen), os ovários, os ligamentos uterinos e intestinos. Os tipos, portanto, estão relacionados com sua localização: peritoneal, ovariana, profunda (quando acomete os ligamentos uterinos e o intestino terminal) e de outras localizações. Ressalte-se que a endometriose pode aparecer em mais uma localização na mesma paciente.”

Ceccato ressalta que as causas definitivas da endometriose ainda são pouco definidas. “Fatores genéticos e imunológicos estão relacionados com a gênese da doença. É sabido também que mulheres que postergam a gravidez, com perfil empreendedor, tem maior propensão à doença. Os sintomas estão mais relacionados com o período menstrual. O mais clássico é a dismenorreia (desconforto e cólicas menstruais) intensas e progressiva (pioram com o passar do tempo)”. Quando a doença surge em órgãos como a bexiga, pode haver sangramento ao urinar (hematúria), e quando a endometriose atinge o septo nasal, sangramento nessa região (epistaxe).

O médico salienta que os sintomas intensos da endometriose pioram muito a qualidade de vida das mulheres acometidas pela doença, que sofrem durante o período menstrual, não apenas as cólicas e o desconforto, mas sintomas psicológicos associados, que podem comprometer o relacionamento familiar e social. “As mulheres no período reprodutivo estão propensas à doença. Há fatores genéticos e imunológicos bem definidos que predispõem o desenvolvimento da doença, assim como fatores comportamentais, como a postergação da gravidez.”
Um mal assintomático
 
Presidente do Comitê de Reprodução Humana da Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais, a médica Rivia Mara Lamaita afirma que a incidência de endometriose na população feminina é variável, devido ao fato de que uma significativa porcentagem de mulheres são assintomáticas, bem como a limitações dos exames de imagem para evidenciar um diagnóstico preciso da doença. “É uma afecção ginecológica comum, presente na mulher principalmente durante seu período reprodutivo, e que pode ser encontrada também entre adolescentes. As estimativas da doença dependem da população que está sendo avaliada.”

Segundo a médica, observa-se uma prevalência da doença em achados acidentais cirúrgicos em torno de 1,6 casos por 1 mil pacientes. “Em mulheres assintomáticas, o problema está presente entre 2% e 22% delas, entre 20% e 50% em pacientes que não conseguem engravidar espontaneamente; e nas naquelas com dor pélvica, a prevalência fica entre 40% e 50%.”

Rivia Mara esclarece que a principal consequência da doença é a dismenorreia incapacitante, caracterizada por dores muito fortes, que às vezes acabam afastando as mulheres das atividades diárias, como trabalho, vida social e academia. O problema frequentemente leva a paciente ao uso excessivo de analgésicos para controle do quadro ou ao pronto atendimento para medicações intravenosas. E impedem a gravidez. “A dor pélvica cíclica ou acíclica, associada ao quadro de dispareunia (dor que aparece nos órgãos genitais durante ou logo após as relações sexuais), à mudança do hábito intestinal ou à dor ao evacuar, limitam e atrapalham a qualidade de vida da mulher, que se depara com restrições sociais durante esse período. Muitas vezes, há uma demora no diagnóstico da endometriose e a paciente vai experimentando um estresse enorme frente à falta de controle do quadro. A progressão da doença também pode alterar o funcionamento de outros órgãos e até obstruções quando comprometem o intestino ou a bexiga.”
 
Terapia individual
 Rivia ressalta que não há uma terapia curativa para a endometriose. O tratamento deve ser individualizado e voltado para as queixas relevantes de cada paciente. “Os sintomas de dor pélvica são tratados com analgésicos potentes e anti-inflamatórios. E a supressão hormonal na mulher auxilia muito no controle da endometriose. Podem ser usados contraceptivos combinados ou somente com progestágenos. Em casos mais graves, até bloqueios mais intensos com análogos do GnRH (hormônio estimulante de gonadotrofinas). Há casos que somente se beneficiarão com intervenções cirúrgicas.”

O inventário da cavidade pélvica, um exame bem minucioso feito por videolaparoscopia, é um dos mais eficazes para se alcançar um diagnóstico preciso em relação à endometriose. “Durante essa intervenção, ao mesmo tempo que é feito o diagnóstico, pode-se realizar a retirada dos focos comprometedores da endometriose e, assim, amenizar a doença e melhorar seus sintomas. Depois desse tratamento, as pacientes inférteis sem comprometimento tubário e sem outros fatores de infertilidade associados podem melhorar a chance de engravidar, tanto de forma espontânea como com auxílio de um especialista.”
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