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CIÊNCIA

A história do beija-flor

Pesquisador faz a análise genética de 284 espécies e cria árvore genealógica do pássaro. Descendente das andorinhas, a ave surgiu na Eurásia há 42 milhões de anos e pôde se diversificar após alcançar a América do Sul

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postado em 14/04/2014 14:00

Espécime se aproxima de flor: esses pássaros costumam se alimentar de néctar e pequenos insetos (Fred Prouser/Reuters - 11/8/2009) 
Espécime se aproxima de flor: esses pássaros costumam se alimentar de néctar e pequenos insetos

Uma árvore genealógica publicada no jornal Current Biology reconstituiu a história de um grupo único de passarinhos originados na Europa, que também habitaram a Ásia e a América do Norte, até encontrarem seu jardim do Éden na América do Sul, há 22 milhões de anos: os beija-flores. Os ancestrais da delicada ave se espalharam rapidamente pelo continente, desenvolvendo as características cores iridescentes que arrancam suspiros de seus admiradores humanos. Daqui, o beija-flor se diversificou em mais de 140 tipos diferentes, subiu pelos Andes, invadiu o Caribe e a América no Norte, onde continua a gerar novas espécies.

“Nosso estudo fornece um quadro muito mais claro sobre como e quando o beija-flor se distribuiu para onde se encontra hoje”, disse o principal autor do estudo, Jimmy McGuire, professor de biologia integrativa da Universidade da Califórnia em Bekerley e um dos curadores do Museu de Zoologia Vertebrada da instituição de ensino. De acordo com ele, atualmente, existem 338 espécies de beija-flor reconhecidas, mas essa quantidade pode dobrar nos próximos milhões de anos. “Não estamos nem perto de chegar ao número máximo de espécies do Eutoxeres”, conta McGuire.

Durante mais de uma década, McGuire e outros pesquisadores coletaram dados de DNA de 451 exemplares de Eutoxeres provenientes de 284 espécies diferentes. Depois, os cientistas sequenciaram genes do núcleo e da mitocôndria das células do animal. As informações foram organizadas e, com o resultado, foi construída a árvore genealógica. O galho mais antigo indicou que o ancestral dos modernos beija-flores surgiram na Eurásia há 42 milhões de anos, quando eles se dividiram de seus primos próximos, as andorinhas. Isso provavelmente ocorreu na Europa ou na Ásia, onde se encontraram fósseis de aves semelhantes ao beija-flor datando entre 28 e 34 milhões de anos atrás.

De alguma forma, diz McGuire, o beija-flor encontrou seu caminho para a América do Sul — provavelmente via a Ásia e uma ponte de terra que unia o Estreito de Bering ao Alasca. Não ficaram sobreviventes nas terras ancestrais, mas, uma vez que pousaram no continente sul-americano, há cerca de 22 milhões de anos, os pássaros rapidamente expandiram para novos nichos ecológicos, evoluindo em novas espécies representadas por nove distintos grupos.

Por volta de 12 milhões de anos atrás, o ancestral comum de dois desses grupos voou para a América do Norte, que, naquela época, era separada da vizinha do sul por poucas centenas de quilômetros de água. Tempos depois, os primeiros pássaros imigrantes foram seguidos por outros grupos, que, por sua vez, evoluíram para outras espécies.

O Caribe foi conquistado pelos beija-flores há 5 milhões de anos e, desde então, houve pelo menos cinco “invasões” dessa região pelo pássaro. Um dos grupos, o beija-flor-abelha, originou-se na América do Norte, participou da colonização caribenha e, depois, voltou para a América do Sul, onde se instalou junto às linhagens pré-existentes. Esse grupo foi o que vivenciou as maiores taxas de diversificação —15 vezes mais alta do que os do tipo topázio, os que menos se diferenciaram.

Processo permanente
A análise genética mostra que a diversidade do beija-flor continua aumentando hoje, com uma taxa de origem de novas espécies excedendo à de extinção. Em alguns nichos ecológicos, há mais de 25 diferentes espécies convivendo e dividindo, pacificamente, o alimento primário dos Eutoxeres: néctar e minúsculos insetos.

Jimmy McGuire interessou-se pelo voo dos beija-flores acidentalmente, quando era estudante de graduação na Universidade do Texas em Austin. Lá, o pesquisador fazia parte da equipe de colaboradores de Robert Dudley, um especialista nessas aves que, hoje, é professor da Universidade da Califórnia em Berkerley (EUA). McGuire, Dudley e outro estudante, Doug Altshuler, atualmente pesquisador da Universidade de British Columbia, queriam entender como o beija-flor consegue viver em altitudes tão altas como as montanhas andinas apesar da reduzida densidade do ar, característica que dificulta o voo.

Um estudo como esse, porém, exigia conhecimento sobre a relação entre as várias espécies do grupo. McGuire, então, se ofereceu para fazer uma análise genética que permitisse a construção da árvore genealógica do beija-flor. O pesquisador espera continuar a estudar o pássaro, explorando como ele se adaptou a uma grande variedade de nichos ecológicos e, em particular, como toleram a baixa disponibilidade de oxigênio em altitudes muito altas. “Tudo sobre o beija-flor é extremo”, diz McGuire. “Ele tem esse incrível voo, com a frequência de batida da asa de 60 vezes por segundo, o que é louco, e tem a maior taxa metabólica de um vertebrado em relação a seu tamanho. É uma pequena máquina que funciona em altitudes elevadas. É incrível como a evolução leve um animal a tantos extremos”, observa.

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