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CIÊNCIA

O lado genético do esquecimento

Pesquisa alemã encontra relação entre uma parte do DNA e lapsos de memória frequentes. O aspecto biológico, contudo, não é a única causa da falta de lembrança, ressaltam os autores do estudo

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postado em 14/04/2014 20:00

Paloma Oliveto

Às vezes, o molho de chaves parece criar vida própria. O mesmo acontece com os óculos, que insistem em sumir quando mais se precisa deles. Não se lembrar, eventualmente, de onde foram colocados objetos usados no dia a dia, nomes ou datas importantes acontece com todo mundo. Algumas pessoas, contudo, têm lapsos mais frequentemente que outras, um problema que pode ser genético. Pesquisadores da Universidade de Bona, na Alemanha, descobriram que a variante de uma proteína, a DRD2, está associada à desagradável sensação de estar sempre se esquecendo de alguma coisa.

Sebastian Markett, pesquisador que participou do estudo, diz que a ideia de os lapsos serem genéticos surgiu da constatação de que, em algumas famílias, essa característica parece ser herdada. Com outros colegas da universidade alemã, ele fez um teste genético na amostra da saliva de 500 homens e mulheres que aceitaram participar do estudo. De acordo com Markett, já se desconfiava que o gene DRD2, um receptor da substância dopamina nos lobos frontais, influenciava o esquecimento de alguma maneira porque, entre outras funções, o neurotransmissor está associado à memória.

Esse gene pode ocorrer em duas versões diferentes: formado pela base citosina ou pela timina. Algumas pessoas exibem apenas uma das variantes, enquanto outras possuem um mix do DRD2 no DNA. Na amostra do estudo, 25% dos participantes apresentavam o gene constituído apenas por citosina, enquanto o restante tinha também pelo menos uma base de timina. Martin Reuter, pesquisador do Departamento de Psicologia Biológica da universidade e principal autor do estudo, conta que o objetivo era descobrir se essa diferença poderia influenciar o comportamento das pessoas: “Além da amostra de saliva, pedimos que os participantes preenchessem um questionário, com perguntas sobre comportamentos impulsivos, distração e concentração”.

Conexão forte

Métodos estatísticos computadorizados fizeram a associação entre os sintomas de esquecimento relatado pelos voluntários e as variantes do DRD2. “O resultado mostrou que funções como atenção e memória são menos claramente expressadas nas pessoas que têm a variante timina. É uma conexão bastante forte. Para nós, os lapsos podem ser parcialmente atribuídos a essa variante genética”, observa Sebastian Markett.

O psicólogo diz que não está nos planos da equipe que fez a descoberta desenvolver tratamentos para os lapsos de memória com base na terapia gênica. Contudo, ele também não descarta a possibilidade de, no futuro, essa informação ser útil para formular medicamentos que melhorem a atenção.

Até que isso aconteça, Markett lembra que não vale descontar nos genes a culpa de todo esquecimento e, assim, deixar de se esforçar para incrementar a memória. “Há muitas coisas que podemos fazer para compensar essa tendência natural de se esquecer. Escreva notas para você mesmo, esforce-se para deixar as chaves do carro em um lugar específico, não saia largando as coisas por aí. Quem desenvolve esse tipo de estratégia lida melhor com a deficiência de memória”, garante.
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