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Eis uma questão de 450 anos

O aniversário de Shakespeare, celebrado hoje, consagra a força do escritor inglês como um dos principais nomes da dramaturgia mundial. Talvez, o maior

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postado em 23/04/2014 10:27 / atualizado em 23/04/2014 10:36

 (Jeff Barnard/AP Photo - 18/7/03) 


“Shakespeare trabalhou com clichês, mas nunca se aproximou da possibilidade de ser um. Sendo, talvez, o autor ocidental mais encenado nos últimos séculos, a data redonda é um fetiche para movimentações comerciais, turísticas e diplomáticas, mas também é um estimulante para eventos artísticos, científicos e filosóficos”, decretou, logo de cara, o professor Fernando Villar, o mais recorrente nome do Departamento de Artes Cênicas da Universidade de Brasília quando o assunto é William Shakespeare.

Assim, não há mal algum em celebrar o dia de nascimento (e, coincidentemente, de morte) do pai de Hamlet, Romeu e Julieta, MacBeth, e tantos outros. Na cidade natal, Stratford-upon-Avon, a festa começou há algumas semanas, mas a catarse da programação ficou para hoje, com leituras, cursos e disputadas peças.

Uma das anfitriãs será a badalada Royal Shakespeare Company (RSC), que figura entre as companhias mais conhecidas do mundo. Ao longo do ano, o grupo costuma entregar, pelo menos, 20 montagens baseadas nos textos do dramaturgo britânico. As produções envolvem cerca de 1.000 funcionários.

Em entrevista ao Correio, o produtor associado e diretor residente da RSC, Vik Sivalingam, lembrou os primeiros contatos com o escritor inglês: “Eu era mais um estudante que não compreendia Shakespeare. Achava a linguagem difícil e não conseguia acompanhar a leitura. Foi um professor que inverteu esse quadro”, recordou o artista, que conta com mais de 25 anos de experiência.

Segundo Sivalingam, que nasceu na Malásia e se mudou para a Inglaterra para estudar teatro, “são muitos os méritos de Shakespeare. Desde os achados literários, que renderam milhares de palavras para o idioma inglês, aos resultados no palco, que versam, com profunda autoridade, sobre temas tão contundentes”. Depois de rever a obra do dramaturgo sob nova ótica, Sivalingam percebeu que “não era importante compreender cada palavra”. De acordo com o diretor, um dos grandes equívocos da academia é colocar Shakespeare em um pedestal, “e, assim, torná-lo inacessível”.

Em Brasília

O acesso a Shakespeare é a principal razão de ser do trabalho do inglês Paul Heritage, a quem o Brasil deve a mais relevante troca cultural — em torno do nome do dramaturgo — entre nosso país e a Inglaterra. Desde 1991, Heritage trabalha em prol da disseminação das obras de Shakespeare pelo território nacional. E essa história começa em Brasília.

“Em 1991, desembarquei aqui pela primeira vez. Era uma simples palestra, mas chamou a atenção da UnB, que acabou me convidando para ministrar algumas aulas. Assim, tornei-me professor convidado da instituição”, lembrou Heritage. Mas, não foi essa a principal colaboração do artista na capital federal. “Entre 1992 e 1996, levei Shakespeare e o teatro para a Papuda, em um intenso trabalho com os presidiários. Montamos várias peças e debatíamos os temas”, contou.

A repercussão foi gigantesca e levou Heritage a desenvolver trabalho similar em presídios de diversos estados. Ao todo, mais de 50 instituições de correção conheceram Shakespeare por meio de Paul Heritage.

Paul Heritage no Morro do Vidigal (RJ). Em Brasília, ele levou Shakespeare à Papuda  (Ratão Diniz/Divulgação) 
Paul Heritage no Morro do Vidigal (RJ). Em Brasília, ele levou Shakespeare à Papuda


O apelo social não se limitou às prisões. A partir de 2005, o britânico passou a se dedicar ao intercâmbio entre os países e expandiu, ainda mais, o alcance do trabalho. Levou diversos grupos brasileiros de teatro a Londres e trouxe atores ingleses para cá. O pessoal do AfroReggae foi inúmeras vezes. Os mineiros do Galpão participaram de duas viagens. Os exemplos não terminam. “O meu interesse é na troca. E o brasileiro soube ensinar muita coisa — na arte da interpretação, da produção, da direção — aos meus conterrâneos. Mesmo quando o tema era Shakespeare”, contou.
Heritage estará em Brasília durante esta semana, quando participa do Fórum Shakespeare, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Uma bela oportunidade de público aplaudir a longa e exitosa empreitada. E, aproveitar a chance para cantar parabéns para um certo aniversariante. 



7,1 milhões
Número de vezes que o nome de Shakespeare é pesquisado na internet, a cada mês, sendo a oitava figura pública mais buscada na rede



Celebrando Shakespeare…

» Para conhecê-lo

Fórum Shakespeare
Mesas de debate, cursos (apenas para pré-selecionados) e instalação com vídeos e fotos. No CCBB (SCES, Trecho 2). As mesas abertas ao público ocorrem entre hoje e o dia 25, sempre às
19h (mediante retirada de senha). No dia 28, também às 19h, uma masterclass recebe o público em geral. A instalação fica até o dia 30. Entrada gratuita.

» Para assistir

Muito barulho por quase nada Teatro da Caixa (Setor Bancário Sul; Qd. 4, Lt. 3/4; 3206-9448
ou 3206-9449). Do Grupo Clowns de Shakespeare, direção de Fernando Yamamoto e Eduardo Moreira. Sexta e sábado, às 20h; e domingo, às 19h. Até 4 de maio. Ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).  Não recomendado para menores de 12 anos.

Cabeça sem Mente
Brasil 21 Cultural (SHS, q.6, ao lado da Torre de TV; telefones 3039- 9296 ou 8301-2905). Até 4 de maio (não haverá sessão dia 2 de maio), sexta e sábado, às 21h, e domingo, às 20h. Ingressos a R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). Não recomendado para menores de 14 anos.

» Para ler

 (Nossa Cultura/Divulgação) 

Quem escreveu Shakespeare?

de James Shapiro. Tradução de Liliana Negrello e Christian Schwartz. Editora Nossa Cultura. Páginas: 358. Preço: R$60.
O mestre fotografado


 (Ellie Kurttz/Royak Shakespeare Company) 


A imagem foi registrada pela brasileira Ellie Kurttz, durante o espetáculo Titus Andronicus, considerado como o mais violento de Shakespeare. Há 12 anos, a gaúcha Ellie Kurttz fotografa o mundo shakesperiano. Radicada em Londres, onde vive desde 1994, a brasileira se tornou um dos mais conhecidos nomes da fotografia artística por lá. “Registrei todas as montagens de Shakespeare. Mais de 150 trabalhos”, comentou Ellie, durante uma conversa com o Correio. Embora seja uma tarefa árdua, a artista consegue eleger uma obra favorita: “MacBeth. Fotografei mais de 10 versões”. Ironicamente, Ellie demorou duas décadas para expor no Brasil. A oportunidade veio somente este ano, à custa, claro, de Shakespeare. 
Memória


Há certa polêmica em torno da data de nascimento do escritor e dramaturgo. O dia de hoje, embora celebrado mundialmente, não encontra muitos subsídios históricos para se fundamentar. O primeiro documento irrevogável data de 26 de abril, quando o pequeno Shakespeare foi batizado. O dia da morte, também um 23 de abril, não costuma ser questionado. O inglês padeceu na cidade natal, aos 52 anos. No mesmo dia, na Espanha, morria Miguel de Cervantes, responsável por Dom Quixote e outros (alguns historiadores afirmam que Cervantes, na verdade, faleceu na noite anterior e teve a morte registrada no dia seguinte, 23). A data acabou se tornando um marco na literatura. Um esclarecimento cabe, no entanto: em 1616, o calendário gregoriano já era respeitado e obedecido em território espanhol, enquanto na Inglaterra prevalecia o juliano. Em termos práticos, Shakespeare morreu 10 dias antes que Cervantes. 

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