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TECNOLOGIA

A mesa está viva

Pesquisadores norte-americanos criam plataforma que muda de forma de acordo com os movimentos executados próximo a ela. O equipamento é um primeiro passo rumo a móveis inteligentes que se adaptam aos gestos do usuário

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postado em 23/04/2014 16:00 / atualizado em 23/04/2014 11:28

Roberta Machado

Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) desenvolveram uma mesa que responde às mudanças do ambiente como se fosse viva. Transform, como é chamado o projeto, consiste em um novo tipo de mobília, capaz de mudar de forma conforme os movimentos do usuário. A mesa é formada por mais de mil pinos que sobem e descem de forma coordenada, executando movimentos que lembram uma onda marítima. O móvel dinâmico também pode ser programado para se fixar em posições determinadas, criando figuras tridimensionais em uma superfície que antes era plana. A invenção foi divulgada na exibição Lexus Design Amazing, em Milão (Itália).

O projeto é uma variação de um estudo anterior chamado inFORM, que buscava proporcionar a interação entre pessoas e objetos remotamente. Nesse caso, a proposta era transmitir movimentos reais por meio da mesa que mudava de forma. Em um ambiente, a pessoa tinha os movimentos mapeados por um sensor do tipo Kinect. Esses, por sua vez, eram imitados por um conjunto de pinos, dando a impressão de que era o próprio braço do usuário, por exemplo, que empurrava as peças, com se estivesse sob a mesa. Basicamente, a ideia tentava possibilitar que um indivíduo apertasse a mão de outro por meio do computador.

Para a exposição na Itália, realizada entre os dias 8 e 13, o Grupo de Mídia Tangível do MIT adaptou o conceito para construir uma mesa com três displays de forma dinâmica que respondem a gestos em tempo real. Basta aproximar a mão do equipamento para ele reagir, como se estivesse atraído por ela. A superfície se ergue, formando uma onda, que segue e imita os movimentos da pessoa. “Normalmente, um móvel é um objeto estático. Mas nós queríamos dar a ele algum tipo de movimento, alguma forma de vida. Nós exploramos a relação entre o efeito recíproco e a dinâmica com esses pinos que reagem a você, mas também podem exibir conteúdo”, explica, em um vídeo, Phillipp Schoessler, designer de movimento do projeto.

Cada um dos pinos é controlado por um atuador, que desloca as peças no sentido vertical. Esse conjunto de motores obedece às ordens recebidas por um computador que interpreta as formas tridimensionais para determinar quais pinos precisam se deslocar e a que altura cada um deles precisa subir. As posições são detectadas pelo sensor Kinect, que monitora os movimentos feitos ali mesmo, perto da mesa dinâmica, ou transmitir os gestos de uma pessoa pela internet. Dessa forma, a mesa pode imitar os movimentos de quem está perto dela ou a quilômetros de distância.

Aplicações

“É uma máquina muito complexa. Temos mais de mil motores controlados com precisão por meio de um computador. Para nós, o maior desafio era, em vez de tentar esconder uma máquina complexa, fazê-la desaparecer na beleza do movimento”, descreve Daniel Leithinger, engenheiro que também trabalhou no projeto. Outra proposta da equipe é usar o equipamento como um tipo de display 3D, no qual gráficos, maquetes ou outras representações físicas de projetos virtuais são materializados. Para isso, um projetor colocado sobre a mesa joga luzes sobre os pinos, dando uma textura colorida às formas tridimensionais.

A partir desse conceito, a equipe norte-americana acredita que seja possível criar mobílias inteligentes que responderão ao movimento e até mesmo ao pensamento do usuário. “Uma aplicação direta e imediata dessa tecnologia com certeza é com relação aos cegos, permitindo que eles recebam dados e informações de uma forma nunca antes experimentada, atualmente obtida somente pelo uso de impressoras Braile”, especula Marcus Vinicius Lamar, professor do Departamento de Ciências da Computação da Universidade de Brasília (UnB), que também vê usos para essa tecnologia nos campos da arte, da ciência, das telecomunicações e do entretenimento.

Ao menos por enquanto, contudo, Lamar acredita que algumas limitações impedem a aplicação em produtos comerciais. Além do alto preço estimado de produção, a interface criada pelo MIT tem uma resolução relativamente baixa, o que limita a precisão das formas geradas pelo número de pinos. “Podemos comparar o estado atual de desenvolvimento da interface com 60 anos atrás, quando a informação visual começou a ser gerada pelos computadores e apresentada em monitores monocromáticos de muito baixa resolução”, ressalta o professor. A solução estaria no desenvolvimento da nanotecnologia, com a substituição dos grandes pinos da mesa 3D por nanodispositivos de dimensão invisível ao olho humano.

Pixels concretos


Os pinos da mesa Transform são como pixels em uma tela que representam formas concretas, não somente visuais. Essa dinâmica é um passo intermediário para o que os pesquisadores do MIT chamam de átomos radicais, um futuro em que toda informação digital tenha uma manifestação física. Enquanto a tela do seu computador conta somente com pixels luminosos, a mesa polimorfa permite que a interface interaja fisicamente com o usuário, usando bits tangíveis (os pinos que podem ser vistos e tocados pelo usuário). O próximo passo, teoricamente, seria o desenvolvimento de um material que possa mudar de forma por meio de um computador, de acordo com as necessidades do usuário.

O especialista em sistemas colaborativos híbridos Hugo Fuks acredita que, embora o sonho de uma cadeira que muda de forma ainda esteja longe, o trabalho do MIT é um passo importante em direção a objetos capazes de entender as necessidades do ser humano e responder a elas. “Cada vez mais, ter um ambiente fixo numa determinada configuração não vai fazer sentido”, ressalta o professor do Departamento de Informática da PUC-Rio. “O ambiente vai conseguir ler você. E, ao juntar isso com a aprendizagem de máquina, à medida que o equipamento reconhece a postura e a atividade, posso reconfigurar (os objetos) para dar suporte”, descreve.

Na avaliação de Fuks, o projeto do MIT é um exemplo prático de como funciona a internet das coisas (IoT, em inglês), que transforma objetos em máquinas inteligentes com a combinação de sensores, computadores e sistemas automotores integrados. Ele ainda não acredita que os pinos serão a forma de construir uma cadeira que se adapte de acordo com o usuário, mas admite que a mesa tridimensional deve servir de inspiração para a engenharia encontrar soluções mais práticas para esse problema. “Eles não estão só respondendo, estão fazendo perguntas. Eles nos fizeram pensar e mostraram que é tudo factível.”

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