CIÊNCIA

Batidas contagiantes

Estudo mostra que a possibilidade de prever o ritmo da música é um fator determinante para deixar as pessoas com vontade de dançar

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 23/04/2014 17:00

Vilhena Soares

Ensaio em casa de shows nos Estados Unidos: músicas com grau moderado de complexidade rítmica geram mais prazer e maior vontade de dançar (Stan Honda/AFP/27/6/11) 
Ensaio em casa de shows nos Estados Unidos: músicas com grau moderado de complexidade rítmica geram mais prazer e maior vontade de dançar


Dançar conforme a música. Poucos ditos populares são tão precisos, segundo pesquisadores ingleses e dinamarqueses que decidiram investigar o poder que os diferentes ritmos têm sobre o prazer do ouvinte e a vontade de mexer o corpo. Segundo eles, obras marcadas por batidas com um intervalo previsível e um grau moderado de complexidade são mais capazes de provocar movimentos corporais do que músicas em que a lógica do ritmo não é tão fácil de perceber. Dessa forma, afirmam, o hip-hop, o funk ou o eletrônico têm muito mais chances de fazer os quadris vibrarem do que uma peça de free jazz.

Coautora do estudo, a neurocientista Maria Witek reconhece que estudiosos da música já suspeitavam que a complexidade rítmica exerceria um efeito direto na vontade de dançar. Poucos estudos, contudo, haviam explorado a questão de maneira mais sistemática. “Pesquisas anteriores apontaram que os ouvintes preferem, de maneira geral, a média complexidade na música e que a estimulação das expectativas (previsibilidade) é uma possível fonte de emoção. No entanto , não ficou claro como a complexidade e o prazer estariam relacionados à música e como esses fatores seriam projetados para fazer as pessoas dançarem”, destaca.

Para investigar a questão, Witek e colegas realizaram um experimento on-line. Nele, 60 participantes de todo o mundo ouviram pela internet diferentes batidas classificadas pelos cientistas em três graus de complexidade: baixa, média e alta. Após ouvir os três ritmos, os voluntários respondiam um questionário que ajudava os pesquisadores a saberem o prazer que tinham sentido e o grau de motivação para dançar com cada amostra sonora. “Descobrimos que as batidas com arranjos de complexidade média provocaram mais prazer e maior vontade de se mover”, destaca Witek.

Segundo a pesquisadora, ritmos como hip-hop, funk e eletrônico podem ter um “equilíbrio perfeito de regularidade rítmica e complexidade”. São músicas nem entediantes, com batidas muito simples, nem impossíveis de prever. “O free jazz, por exemplo, tem muita complexidade para estimular o desejo de dançar. Ele pode, naturalmente, proporcionar prazer de outras formas, mas, em comparação com o funk, é menos provável que leve as pessoas para pista de dança”, destaca.

Sem surpresa

O grupo destaca a importância da previsibilidade do ritmo para que as pessoas acabem contagiadas e sintam vontade de “balançar o esqueleto”. Músicas com batidas calmas ou muito agitadas, menos fáceis de serem seguidas, também têm o potencial de esvaziar uma festa. “Com arranjo de complexidade média, os ouvintes podem sentir o ritmo. Acreditamos que o equilíbrio entre batidas permite que os ouvintes prevejam o ritmo e sintam-se inclinados a marcá-los fisicamente por meio da dança”, explica Witek.

Josep Marco-Pallarés, pesquisador do grupo de Cognição do Cérebro da Universidade de Barcelona, concorda que a previsibilidade da batida musical é um ponto crucial para entender por que ritmos específicos motivam mais as pessoas a dançarem. “Isso levanta outro ponto interessante na percepção da música: a expectativa. Sabemos que um dos aspectos mais importantes para alguém sentir prazer com a música é a capacidade de o ouvinte prever o que vai vir. No entanto, também precisamos de algum tipo de ‘quebra’ de regularidade para tornar a peça interessante, e essa é a razão pela qual obras com esses arranjos médios seriam os preferidos para dançar”, analisa o especialista, que não participou do estudo.

Ele também acredita que o trabalho contribua para a compreensão mais aprofundada da relação humana com a arte sonora. “Sabemos que a música agradável ativa o mesmo circuito de recompensa estimulado por reforçadores primários, tais como sexo e comida. No entanto, não conseguimos mostrar como essas experiências gratificantes estão associadas a diferentes aspectos da música, como o tom ou ritmo. Talvez possamos usar esse conhecimento sobre os ritmos preferidos para dançar e investigar se a experiência prazerosa associada ao ritmo ativa essas áreas de recompensa no cérebro”, especula.

Diferenças culturais

Guido Orgs, professor de psicologia da Faculdade de Ciências Sociais da Brunel University, em Londres, acredita que o estudo consegue justificar bem por que ritmos musicais diferentes influenciam de formas distintas a vontade de dançar. Contudo, ele acredita que a história de vida e os fatores culturais podem fazer com que as músicas tenham efeitos diferentes sobre as pessoas. “Essa pesquisa é interessante, porém penso que esses resultados vão depender fortemente do fundo cultural. Se você crescer ouvindo um monte de ritmos irregulares, como acontece na música turca ou oriental, as respostas podem variar. Acredito ser importante olhar com cuidado as origens culturais nesses trabalhos”, sugere.

Como próximo passo, Witek e colegas pretendem investigar melhor batidas de nacionalidades diferentes para conseguir uma gama maior de interpretações quanto aos efeitos da música. “Nós estamos interessados em olhar como as pessoas realmente dançam ritmos com vários graus de complexidade rítmica, como essa música afeta o cérebro e se existem diferenças culturais. Por exemplo, as pessoas no Brasil , um país com uma rica cultura musical rítmica e um amor pela dança, interpretam as batidas de forma diferente em comparação com pessoas de outras culturas?”, adianta.
Tags: