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CIÊNCIA

Produzir e preservar

Consultoria ambiental americana lança relatório com medidas que podem ajudar o mundo a aumentar a produção agrícola e, ao mesmo tempo, proteger a natureza

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postado em 28/04/2014 16:00 / atualizado em 28/04/2014 10:59

Isabela de Oliveira /

Criação de gado na fronteira com a Amazônia: a pecuária, ao lado do desmatamento, é a maior fonte de gases do efeito estufa no Brasil  (Paulo Whitaker/Reuters - 23/9/11) 
Criação de gado na fronteira com a Amazônia: a pecuária, ao lado do desmatamento, é a maior fonte de gases do efeito estufa no Brasil



É difícil imaginar uma meta mais importante do que garantir alimentos para toda a população mundial, projetada para ultrapassar os 9 bilhões de pessoas em 2050. O aumento no número de habitantes do planeta exigirá que a produção agrícola seja aproximadamente duas vezes maior que a atual. E o desafio fica ainda mais complicado quando se busca aliar a ampliação das lavouras com a preservação ambiental, outra medida fundamental para garantir a existência humana.

Propor formas de impulsionar o progresso nos campos sem destruir a natureza é o objetivo de um relatório recém-lançado pelo Climate Focus and California Environmental Associates, consultoria norte-americana na área ambiental. O documento destaca 12 estratégias-chaves (veja quadro) para garantir a segurança alimentar e a estabilidade econômica sem prejudicar os ecossistemas ou o clima — as medidas, dizem os especialistas, poderiam reduzir as emissões de gás carbônico em mais de 5t por ano até 2030.

A matemática não é simples porque, embora o desenvolvimento econômico seja acompanhado de poluição, ele é também seguido de redução da pobreza. Aproximadamente dois terços da demanda global de alimentos nas próximas décadas, por exemplo, virá da África Sub-Saariana e do sul asiático. Os países dessas regiões devem crescer até 70% nos próximos 36 anos, exigindo maior investimento em biocombustíveis e ração, artigos que impulsionam o avanço rápido das culturas de milho e cana-de-açúcar.

Movimentos como esse podem implicar o desmatamento de áreas verdes para dar lugar ao agronegócio, setor que, hoje, emprega 2,6 bilhões de pessoas no mundo e gera de 20% a 60% da receita bruta do produto interno de países em desenvolvimento. Mas o documento oferece uma fresta de esperança ao propor medidas como a redução do desperdício de alimentos, uma melhor gestão de nutrientes nas plantações e a diminuição do consumo de carne bovina.

Charlotte Streck, coautora do estudo, aponta que 96% da grama ingerida pelo gado é convertida em metano, enquanto apenas 4% vira carne. “As vacas são animais extremamente ineficientes porque acabam poluindo mais do que produzem. Devemos, então, investir em carne branca, como a de frango e a de peixe. Eu sei que essa alternativa é difícil para os brasileiros, porque vocês possuem uma cultura voltada para o consumo da carne vermelha, mas vale evitar esse tipo de proteína pelo menos três vezes na semana. Além de ajudar o meio ambiente, você melhora sua saúde”, prega.

Desafios

Ao contrário de setores energéticos e de transporte, que costumam receber mais investimento e atenção dos especialistas, a agricultura não registrou um crescimento significativo em inovações tecnológicas. E o Brasil é um dos países mais prejudicados pelo atraso. O gado brasileiro, por exemplo, demora até 36 meses para adquirir o peso de abate, enquanto nos EUA esse período é de 18 meses, aponta o texto. Não somente os pecuaristas, mas também os grandes agricultores podem fazer sua parte alterando o sistema produtivo.

O estudo aponta que é possível, por exemplo, reduzir o uso de fertilizantes de 30% a 60% sem prejudicar a produção. O material, além de exigir a queima do carvão para ser produzido em países como a China, estimula a produção de CO2 no solo, que acaba indo para a atmosfera e agravando o aquecimento global. Uma alternativa — que encontra sintonia com a realidade brasileira — é a técnica chamada de silvipastoril, uma combinação de plantação, floresta preservada e criação de animais em uma mesma propriedade.

O método aumenta a qualidade das gramíneas, uma forma natural de armazenar o carbono e garantir uma alimentação de maior qualidade ao gado. Isso reduz a necessidade de ampliar os pastos, o que significa mais floresta em pé. “O Brasil é um caso peculiar porque emite gases de efeito estufa tanto pelas atividades agropecuárias quanto pelo desmatamento das florestas. Isso só acontece aí. Estados Unidos e China poluem muito mais por causa da indústria. A Indonésia, por sua vez, emite gases derivados basicamente do desmatamento”, diz Strek.

Rafael Loyola, professor do Departamento de Ecologia da Universidade Federal de Goiás, acredita que o relatório tem potencial de influenciar a forma como as políticas públicas são pensadas nos países estudados. “O documento não foi produzido por apenas um autor, mas por uma série de especialistas. Eles têm condição de fazer um barulho capaz de chegar aos ouvidos das pessoas que tomam as decisões, principalmente no que tange à produção de gado”, avalia. “É um trabalho válido por mostrar uma realidade global, porém abordando cada país de uma forma diferente. Além disso, é isento, isto é, não é ligado a um nome político”, considera o professor.

Contra o tempo

A última parte do quinto relatório sobre o aquecimento global do IPCC, grupo de especialistas reunido pelas Nações Unidas, recomenda uma revolução energética urgente e investimentos anuais no valor de US$ 147 bilhões até 2029 para enfrentar os prejuízos nas mudanças climáticas. Os efeitos negativos só poderão ser evitados se as emissões de gases poluentes forem reduzidas de 40% a 70%, o que limitaria o aquecimento do planeta em até 2ºC, até 2050. Caso contrário, a temperatura aumentará de 3,7ºC a 4,8ºC antes de 2100.
 

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