18 passos e três chutes

O neurocientista Miguel Nicolelis anuncia que um dos pacientes paraplégicos do projeto Andar de Novo já conseguiu caminhar e dar pontapés usando um exoesqueleto controlado pela mente. O objetivo é demonstrar a tecnologia inédita na abertura da Copa do Mundo

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postado em 30/04/2014 20:00 / atualizado em 30/04/2014 15:53

Reprodução da internet/facebook
Edilson Rodrigues/CB/D.A Press
A pouco mais de um mês da Copa do Mundo, um paciente paraplégico fez um gol de placa: andou 18 passos e deu três chutes. Ele participa do Projeto Andar de Novo, liderado pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, que pretende demonstrar, na abertura do Mundial da Fifa, uma tecnologia inédita, que devolverá o movimento a pessoas há muito tempo impedidas de mexer os membros inferiores. Outros dois pacientes também fizeram uma pequena caminhada na segunda-feira, informou Nicolelis.

Em seu Twitter, o cientista comemorou o feito: “Ontem, dia 28/04/2014, os primeiros três pacientes do Projeto Andar de Novo realizaram as suas caminhadas inaugurais usando o BRA-Santos Dumont 1”, informou. No Facebook, ele postou outra mensagem: “Três pioneiros brasileiros emocionaram a todos nós com a sua coragem e determinação”, disse. O inventor e aviador brasileiro dá nome a uma veste, o exoesqueleto, de 1,8m e 70kg. Usando essa roupa futurista, os participantes conseguem movimentá-la a partir da atividade cerebral. Os sensores instalados no Santos Dumont “leem a mente” do paciente e obedecem a ordens como levantar e abaixar as pernas ou chutar uma bola.

Em entrevista ao site Portal da Copa, do governo federal, o cientista explicou que o peso da veste não é relevante porque ele não será sentido pelos usuários. “A máquina vai ser responsável pelo equilíbrio do paciente e por controlar o peso do exoesqueleto, enquanto o paciente determina o início dos movimentos, o término e, obviamente, o chute. Os sensores vão ficar na planta do pé e vão entregar esses sinais no braço da pessoa, que vai imaginar as pernas andando, se locomovendo e pisando no chão por meio desse feedback que recebe nos braços”, contou.

Desenvolvido em uma parceria entre a universidade americana de Duke, onde Nicolelis é pesquisador, e o Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra, o Andar de Novo também conta com a colaboração de cientistas da Alemanha, da Suíça e da França. No Brasil, a Agência Brasileira da Inovação (Finep) investiu R$ 33 milhões. Ao todo, oito paraplégicos foram selecionados na Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), de São Paulo, onde foi montado um laboratório de neurorobótica exclusivamente para a iniciativa. Todos os pacientes já experimentaram a sensação de ficar em pé com o exoesqueleto. Na abertura da Copa, um deles deverá se levantar da cadeira de rodas e caminhar 25m na Arena Corinthians até uma bola para dar início ao evento.

Extensão do corpo


O pontapé inicial do Mundial, contudo, não vai encerrar o projeto. Na realidade, é apenas o começo. Segundo Nicolelis, o trabalho será mantido após o mundial, até que se chegue a uma veste que permita a qualquer pessoa com lesão da medula espinal, inclusive tetraplégicos, se movimentar dentro dela. “Um certo dia, quando o paciente entrar no laboratório, vai falar: ‘Parece que é o meu corpo’. Vai ser como um estalo, porque o cérebro vai ter feito essa transição”, planeja o cientista. Ele explica que é preciso tempo para que ferramentas complexas como o exoesqueleto sejam incorporadas pelo cérebro como uma extensão do corpo. Por isso, os pacientes precisam se familiarizar aos poucos com a roupa futurista.

Embora muito feliz com os resultados obtidos até agora, Miguel Nicolelis lembra que há uma série de obstáculos que precisam ser vencidos na demonstração da abertura da Copa. O paciente estará ao ar livre, observado por 70 mil pessoas, filmado por redes do mundo todo e fotografado por milhares de celulares. O participante usará um modelo de exoesqueleto que inclui sensores acoplados de forma não invasiva ao couro cabeludo. Eles capturam ondas cerebrais globais e os sinais são transmitidos para o exoesqueleto, para controlar os diferentes movimentos gerados por ele. No futuro, microchips poderão ser implantados no cérebro para fazer essa leitura.

Ao Portal da Copa, Nicolelis demostrou satisfação com o andamento do projeto. “Os resultados estão muito acima do esperado. Não tínhamos a perspectiva de estar tão adiantados no ponto de vista clínico e ter resultados tão interessantes do ponto de vista neurocientífico da maneira que a gente teve nos últimos meses”, disse. O coordenador do projeto contou que ficou muito comovido com os passos dos paraplégicos. “É uma sensação única. Nenhum deles, antes do projeto, imaginou que teria essa oportunidade de novo na vida. Todos os pacientes já entraram no exoesqueleto, testaram e se sentiram fascinados. É uma máquina que não só é inovadora, como bonita, elegante. Eles disseram, inclusive, que querem a máquina assim mesmo, sem a cobertura que a gente imaginou inicialmente, porque eles acham mais emocionante ver toda a tecnologia envolvida”, revelou.
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