Tão inteligentes quanto o homem

Arqueóloga italiana reúne em estudo evidências de que o neandertal não deixava nada a dever ao Homo sapiens do ponto de vista cognitivo

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postado em 01/05/2014 15:11

Paloma Oliveto

Nikola Solic/Reuters - 25/2/2010
É difícil pensar no neandertal sem evocar a imagem do homem barbudo e musculoso, cuja sofisticação fonética máxima resumia-se a um “uga-uga”. Por mais de um século, os próprios cientistas disseminaram a ideia de que essa espécie do gênero humano extinta era inferior. Descoberto em uma caverna da Alemanha em 1848, o Homo neanderthalensis tem sido, contudo, reabilitado nos últimos anos. Investigações arqueológicas estão indicando que, embora desaparecido do mapa por motivos ainda não esclarecidos, ele não era diferente dos humanos modernos do ponto de vista cognitivo.

Depois de rever essas pesquisas, a arqueóloga italiana Paola Villa, da Universidade da Califórnia em Boulder (EUA), teve certeza de que não há qualquer evidência que deponha contra a inteligência do neandertal. Mais forte que o Homo sapiens e preparado para enfrentar o frio das eras glaciais, ele viveu entre 350 mil e 40 mil anos atrás na Europa. Além dele, recentemente descobriu-se a existência de outra espécie humana, os denisovanos, na porção mais oriental do continente e na Ásia, que coexistiu com o homem.

“O neandertal pode ter sido extinto por muitos motivos, mas nenhum deles relacionado a uma possível inferioridade em termos de inteligência, tecnologia, comunicação ou dieta”, argumenta Villa, que publicou um artigo sobre o tema na revista Plos One. A arqueóloga admite que a questão é complexa. Ela aposta em descobertas recentes sobre o genoma do neandertal. Graças ao sequenciamento quase total de seu DNA, constatou-se que o cruzamento do Homo neanderthalensis com o Homo sapiens deu origem a crianças do sexo masculino com fertilidade reduzida. Além disso, eles viviam em pequenos grupos, o que pode ter contribuído para o declínio populacional.

Há até pouco tempo, as principais teorias da extinção neandertal baseavam-se em um pseudo potencial reduzido de adaptação, comunicação e inovação desse povo. Embora poucos, ainda há cientistas que defendem a ideia — se não a de que eles eram o protótipo dos homens da caverna, pelo menos a de que eram pouco resilientes a mudanças, principalmente, as climáticas. Para o antropólogo francês Julien Riel-Salvatore, da Universidade de Colorado em Denver, contudo, isso não faz sentido. Há mais de uma década, ele se dedica a pesquisas sobre o primo próximo do homem moderno e já publicou diversos trabalhos científicos a respeito das características da raça.

Com base em análises de sítios arqueológicos da França, Riel-Salvatore descobriu que o neandertal projetava munições, ferramentas e ornamentos, entre outros. Ele localizou pontas de lanças, machados de ossos e instrumentos de pesca e caça, evidenciando um sofisticado aparato tecnológico. “Essas inovações não eram, tradicionalmente, associadas aos neandertais. Mas são um forte indicativo de que eles eram, sim, capazes de se adaptar a mudanças no seu hábitat — incluindo climáticas. Eles criavam, inventavam objetos que os ajudavam a sobreviver. Não existe por que pensar, portanto, que não conseguiriam se adaptar a alterações no clima. Eles tinham ferramentas para isso”, defende.

Caça
Os instrumentos tecnológicos eram usados no dia a dia com diversos propósitos, incluindo a caça. Já se sugeriu, anteriormente, que a extinção dos neandertais estaria ligada a uma possível falta de habilidade na tarefa de conseguir alimentos, outra questão refutada pela italiana Paola Villa. “Pelo contrário, os neandertais tinham um sistema muito inteligente e cooperativo de obter alimentos. Eles caçavam juntos, acuavam o animal com suas lanças, até conseguir que caíssem em armadilhas montadas no solo”, diz.

Trata-se de valas para onde bisontes e os extintos mamutes e rinocerontes-lanudos eram empurrados, até morrerem. No sudeste da França, um sítio arqueológico onde viveram neandertais preserva a ossada de mais de 20 dessas feras, justamente dentro de um buraco artificialmente cavado. “Além de saber caçar, isso evidencia que eles se comunicavam muito bem, pois essa era uma atividade realizada em grupo”, sustenta Villa. A antropóloga cita outras pesquisas a respeito da alimentação da espécie. Ao contrário do que se acreditava, análises da dentição e de restos de comida encontrados em antigos agrupamentos de Homo neanderthalensis comprovaram que o cardápio era diverso. Eles consumiam ervilhas, grãos, sementes, nozes e azeitonas selvagens, de acordo com a disponibilidade local. Uma alimentação variada, explica Paola Villa, é fator-chave para o desenvolvimento das espécies.

Ela reconhece que não é possível dizer como um povo com habilidades cognitivas iguais às do Homo sapiens simplesmente desapareceu. “Não tenho resposta para isso, embora acredite que a genética fornecerá essa explicação em breve. O que posso dizer é que a extinção neandertal não está ligada a uma suposta superioridade do homem moderno”, destaca. Para Villa, uma das razões que levaram os cientistas a subestimar os neandertais foi que, por muito tempo, em vez de comparar esses humanos aos contemporâneos, eles fizeram paralelos com o homem de hoje. “Seria como comparar a performance de um Ford do início do século passado à de uma Ferrari atual e concluir que Henry Ford era congitivamente inferior a Enzo Ferrari.”

Para saber mais
Nikola Solic/Reuters - 1/3/2010

Musculosos e destros
Os fósseis de neandertais descobertos até agora dão boas dicas sobre quem eram os mais próximos primos do Homo sapiens. Segundo Trenton Holliday, paleantropólogo da Universidade de Tulane, em Nova Orleans, eles tinham membros curtos, estruturados por profundas e largas costelas. A anatomia particular ajudava a reter calor, já que os neandertais viveram justamente na Era do Gelo.

Musculoso, o neandertal usava lanças muito finas e pesadas para caçar e provavelmente fazia os ataques com a mão direita, já que o estudo da ossatura da espécie revelou que esse lado do corpo era muito mais forte do que o esquerdo. Mais carnívoro que o Homo sapiens, ele utilizava métodos simples durante a caça. Escondido na floresta, esperava a presa se aproximar e, então, a golpeava. O fato de não se aventurar em emboscadas mais emocionantes não significa, porém, que era menos inteligente.

Um estudo realizado pelo especialista em crânios antigos Ralph Holoway, da Universidade de Columbia em Nova York, mostrou que o cérebro do neandertal era cerca de 20% maior que o do humano moderno, e anatomicamente idêntico. Holoway concorda que a espécie era destra e afirma que as áreas cerebrais responsáveis pelos pensamentos complexos eram tão avançadas quanto às do Homo sapiens. Isso significa que os neandertais tinham a mesma capacidade de pensar que seus primos próximos.

Os neandertais também eram capazes de falar. Nos filmes e desenhos que retratam o homem das cavernas, eles apenas vocalizam. Mas, ao analisar o crânio de um indivíduo da espécie, o professor Bob Franciscus, da Universidade de Iowa, notou que o trato vocal dos neandertais era e mais largo e curto que o de um homem moderno, características que não impediam a fala. “Crucialmente, a anatomia do trato vocal é suficientemente próxima à nossa, indicando que não havia razão para que ele não produzisse uma complexa extensão de sons necessários para a fala”, escreveu.(PO)
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