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Drongo, o esperto

Biólogo descobre que pássaro africano imita o sinal de perigo de outras aves para afugentá-las e, assim, roubar sua comida

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postado em 02/05/2014 16:30 / atualizado em 02/05/2014 14:52

Isabela de Oliveira /

Thomas Flower/Divulgação - 28/8/10
Sobreviver na natureza depende da habilidade de conseguir comida sem ser comido. Muitos animais alcançam esse objetivo batalhando com força e destreza pelo alimento diário. No entanto, algumas espécies escolhem uma forma menos arriscada — e, talvez, mais “esperta” — de ganhar a vida. Um estudo publicado na edição de hoje da revista Science descreve como age um dos maiores “golpistas” do deserto do Kalahari, na África do Sul: o drongo-de-cauda-forcada (Dicrurus adsimilis).

O pássaro possui a capacidade de enganar espécies como os suricatos ao emitir falsos alertas de perigo. Ao ouvirem os sinal, as aves fogem, deixando para trás os alimentos colhidos, que logo viram banquete para o drongo. Passado um tempo, as vítimas percebem o golpe e passam a desconsiderar as mentiras. Porém, o espertinho, especialista em imitações, as engana novamente, reproduzindo avisos de perigo produzidos por outras espécies.

Após seis anos de observação, o biólogo Thomas Flower, pesquisador do Instituto Fitzpatrick de Ornitologia Africana, na Universidade da Cidade do Cabo, descobriu que as vítimas do drongo voam ou correm para se esconder dos supostos predadores. Muito assustadas, acabam deixando o alimento para trás. Os drongos associam-se aos seus alvos durante várias horas ao dia, o que garante 23% de sua alimentação. Cada pássaro possui um reportório individual de nove a 32 alertas diferentes.

“Muitas aves imitam o som de outras espécies, mas ainda não sabemos o que as leva a fazer isso. Na verdade, pode ser que o mimetismo ocorra acidentalmente quando os pássaros jovens estão aprendendo os sons próprios de suas espécies. Drongos parecem ter encontrado um uso benéfico para isso”, afirma Flower.

Durante o estudo, o cientista sul-africano treinou alguns pássaros para que eles atendessem ao seu chamado. Se Flower queria encontrar o drongo chamado Dave, bastava adentrar o território da ave e chamá-la. A obediência era recompensada com alimento. Apesar do agrado, os pássaros voltavam ao comportamento normal rapidamente, caçando moscas ou enganando suricatos e pássaros zaragateiros. No total, o líder do estudo testemunhou 688 tentativas de roubo durante 847 horas de convivência com 64 drongos e descobriu que os falso alarmes correspondiam a 42% dos sons produzidos por eles.
Arquivo/Pessoal

Maior sucesso
As vítimas se habituavam à repetição de uma mesma chamada, passando a ignorá-las, após três alertas iguais e consecutivos. Apesar disso, os animais voltavam a levar os alarmes a sério quando o drongo passava a imitar sons de espécies diferentes. Os resultados sugerem que a variação dos sinais enganosos permite que os pássaros tenham maior sucesso em suas operações. “Tais benefícios são análogos aos vistos nas variações antigênicas, em que organismos infecciosos variam o ataque às proteínas da superfície celular para escapar às respostas imunes do hospedeiro”, compara o autor.

Ricardo Feio, professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e curador do Museu de Zoologia João Moojen, também da UFV, considera os resultados interessantes porque, embora simples, mostram que os drongos possuem uma estratégia de sobrevivência complexa. “Isso não é visto apenas em aves. A cobra coral falsa, por exemplo, engana seus predadores com a aparência”, observa. “Os drongos não possuem coloração para enganar, mas se comportam assim. Porém, não sabemos se isso é uma coisa voluntária ou pensada”, diz o especialista, que não participou do estudo.

Essa curiosidade, de certa forma, é um dos pontos interessantes do estudo de Flower. Afinal, o drongo se pauta nas respostas de seus concorrentes para determinar seu comportamento. Essa constatação levanta a possibilidade de essas aves possuírem algum grau de cognição. Entretanto, Flower alerta que é perigoso conferir aspectos antropomórficos a esses animais. “O drongo provavelmente não tem noção de que está manipulando a mente de outros animais com seus sinais falsos. Ele só sabe que o barulho resulta em comida”, considera.

“Esses mecanismos intuitivos (as enganações) podem ser feitos por outros animais, porém com mecanismos diferentes. Os humanos, que fazem isso conscientemente, devem se perguntar, na realidade, qual foi o aspecto da nossa história ecológica que resultou na seleção dessas propriedades mentais complexas”, questiona o autor. A capacidade mental dos drongos, diz Flower, é assunto para a próxima etapa do estudo. O biólogo deseja descobrir como as aves mais jovens utilizam as táticas de fraude e como esse tipo de conhecimento é repassado e aprendido pela gerações. “Também queremos investigar se há atributos cognitivos mais sofisticados por trás desse comportamento”, acrescenta o autor.
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