SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

CIÊNCIA

Naia, a peça-chave da colonização americana

Esqueleto de adolescente encontrado em caverna mexicana pode comprovar que os primeiros habitantes do continente chegaram em uma única onda migratória

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 16/05/2014 14:00

Paloma Oliveto

Mergulhadores seguram o crânio de Naia, que caiu na caverna há 12 mil ou 13 mil anos. O rosto da jovem será reconstituído no próximo mês  (Fotos: Paul Nicklen/National Geographic) 
Mergulhadores seguram o crânio de Naia, que caiu na caverna há 12 mil ou 13 mil anos. O rosto da jovem será reconstituído no próximo mês

Em algum momento entre 12 mil e 13 mil anos atrás, a adolescente Naia despencou para a morte em um lugar onde hoje é a Península de Yacután, no México. Provavelmente, a família da menina de 15 anos procurou, em vão, por ela. Seu corpo submergiu e só foi encontrado em 2007, quando três mergulhadores californianos exploravam o Buraco Negro, uma caverna de 60m de diâmetro, a 40m do nível do mar. Lá, eles se depararam com um crânio intacto, rodeado por ossos de animais — sinal de que o local em que a garota escorregou era bastante perigoso.

Passado tanto tempo na obscuridade, o fóssil de Naia — ninfa marinha, em grego — vai entrar para a história. Um grupo de 15 pesquisadores de 13 instituições acredita que ela faz a ligação definitiva entre os primeiros habitantes do continente e os nativo-americanos modernos. A análise do DNA mitocondrial da garota — material genético herdado da parte materna — está de acordo com a teoria segundo a qual os colonizadores da América chegaram em uma única onda migratória a partir da Beríngia, porção de terra que juntava o Alasca e a Sibéria. A outra hipótese sobre o povoamento do continente sustenta que houve vários fluxos separados, originados de diferentes lugares da Eurásia.

Em uma coletiva de imprensa, o arqueólogo e paleontólogo James Chatters, principal autor do estudo publicado na revista Science, lembrou que decifrar a ancestralidade dos nativos americanos tem sido um desafio. Graças a estudos genéticos recentes, acredita-se que eles descendem de um grupo de siberianos que saiu da Beríngia entre 26 mil e 18 mil anos atrás. Depois de alcançar o norte da América, esse povo se espalhou pelo restante do continente — inclusive para o Brasil.

Apesar de as evidências apontarem para esse lado, a questão ainda é debatida porque as características faciais dos esqueletos antigos não se assemelham às dos americanos modernos. Isso tem levado alguns cientistas a especularem que populações de diversos lugares foram responsáveis pela colonização da América. Outro problema é a falta de esqueletos bem preservados dos ancestrais. O crânio de Naia, segundo Chatters, vai ajudar a pôr fim ao mistério.

Cápsula do tempo
De acordo com ele, a câmara submarina em que o fóssil foi encontrado é uma verdadeira cápsula do tempo. Lá, os cientistas encontraram ossos de pelo menos 26 animais da era do gelo, como tigres-dente-de-sabre, preguiças gigantes e ursos. Financiados pela National Geographic Society, os pesquisadores exploraram esse tesouro oceânico, onde também estava o crânio com dentes preservados e o osso do quadril de Naia. Dessas partes do esqueleto, os pesquisadores retiraram material para análise de idade e de genoma.

Os depósitos minerais acumulados no osso do quadril da adolescente indicaram que ela tem pelo menos 12 mil anos, o que a coloca entre os seis humanos mais antigos encontrados até agora nas Américas. Já o DNA mitocondrial extraído do molar mostrou que ela pertence a uma linhagem encontrada em muitos povos americanos, incluindo os do sul do continente. “Descobrimos que a garota pertencia a uma linhagem que deriva de asiáticos, mas que só existe atualmente na América. Aproximadamente 11% dos nativo-americanos exibem essa linhagem genética que está bem espalhada pelo continente, sendo encontrada no norte, no centro e no sul da América”, explicou Deborah Bolnick, geneticista da Universidade do Texas em Austin, que fez a análise do DNA.

Segundo James Chatters, acredita-se que essa linhagem se desenvolveu na Beríngia, a faixa de terra que agora fica sob o mar, depois que os ocupantes da era do gelo se tornaram geneticamente isolados do resto da Ásia. “Então, Naia sugere que os paleoamericanos (os povos ancestrais) e os nativo-americanos descendem da mesma terra natal, na Beríngia”. Ele explicou que as diferenças na aparência se deram em decorrência de mudanças evolutivas ocorridas depois que os habitantes da Beríngia se divergiram dos ancestrais siberianos.

No próximo mês, a equipe fará uma reconstituição facial da garota. Por enquanto, o crânio revela que Naia tinha um rosto pequeno e anguloso, com olhos largos, testa proeminente, nariz achatado e dentes projetados. “De muitas formas, ela tinha um perfil não muito diferente de algumas pessoas da África, mas não estou dizendo que parecia com um africano, apenas que tinha algumas características semelhantes”, ressaltou Chatter. “Era uma pessoa com aparência bem diferente”, afirmou.

“Lugar incrível”
O mergulhador e arqueólogo Alberto Nava, que encontrou o fóssil de Naia, contou na coletiva de imprensa que, no momento em que entrou na câmara submarina, sabia que estava em um “lugar incrível”. “O chão desapareceu sob nossos pés e não podíamos ver o outro lado. Tudo o que víamos era a escuridão”, narrou. Alguns meses depois, ele voltou ao local e alcançou a área onde o esqueleto jazia.

“Quando meus olhos se acostumaram ao ambiente, comecei a perceber que havia grandes ossos de animais. O primeiro que encontramos foi um fêmur. Em todas as direções, havia fósseis”, recordou Nava. Então, um dos mergulhadores apontou para um crânio humano. “Era um pequeno crânio com um conjunto perfeito de dentes com os buracos pretos dos olhos nos encarando. À medida que caminhamos para perto dos restos mortais, batizamos o esqueleto de Naia. Tivemos muita sorte de descobrir um lugar tão fenomenal”, disse.


Tags:

publicidade

publicidade