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Os dedos nos mínimos detalhes

Material que reage ao suor da pele permite a análise de impressões digitais em um nível mais profundo e com baixo custo. Em testes, a técnica se mostrou eficaz para reconhecer marcas deixadas em pedaços de papel e em dinheiro

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postado em 16/05/2014 13:00 / atualizado em 16/05/2014 10:42

Roberta Machado

Uma técnica de identificação desenvolvida por cientistas sul-coreanos leva a impressão digital a um novo nível: em vez da velha tinta escura usada para registrar as marcas dos dedos, os pesquisadores propõem o uso de um avançado material fluorescente. Em contato com a mão, o polímero muda de cor, revelando pontos antes invisíveis entre as linhas espiraladas dos dígitos. O segredo da substância é sua propriedade química supersensível à água. Quando tocada pelo suor, mesmo nas minúsculas quantidades produzidas pelos dedos, o material ganha nova aparência e revela a posição dos poros da pele. O método foi divulgado em uma edição recente da revista Nature Communications.

A substância usada pelos pesquisadores é o polidiacetileno PDA hidrocrômico, que há muitos anos tem suas propriedades cromáticas estudadas e usadas para a fabricação de materiais antifalsificação. O polímero pode ser impresso com uma simples impressora jato de tinta, formando um filme pronto para o registro de uma digital. A reação ao dedo é imediata e funciona com quantidades de água menores que o nanolitro, como as produzidas pelos poros da pele. A posição dos pontos úmidos que tocam o material azul fica registrada em sinais vermelhos e fluorescentes. O processo leva apenas 20 nanossegundos para acontecer.

“O PDA é conhecido por passar de uma mudança de cor do azul para o vermelho quando as correntes do polímero são torcidas, e isso afeta diretamente a propriedade de absorção. Nós unimos um elemento bastante absorvente, o íon de césio, ao PDA. Os íons de césio rapidamente absorvem a água e isso causa o aumento na distância dos polímeros, fazendo com que elas se torçam”, explica Jong-Man Kim, pesquisador da Universidade de Hanyang e principal autor da pesquisa. A olho nu, a digital registrada com a técnica parece ser uniforme. Mas um exame mais detalhado com um microscópio revela a posição exata dos poros que acusam a identidade da pessoa responsável pela marca.

A ideia de usar poros como base para o registro de digitais foi proposta há quase um século, como um nível avançado de identificação. O primeiro seria o padrão das elevações circulares da digital. A identidade também pode ser conferida no segundo nível da digital, que são as características visíveis entre essas  bordas da digital. Já as características de nível três incluem os poros dos dedos e os contornos das elevações, que não são visíveis sem a ajuda de equipamento especial.

Análises do terceiro nível podem aumentar a performance de combinação quando há relativamente poucas características de nível um ou dois, especialmente para a análise parcial de impressões digitais. Isso seria particularmente útil em investigações policiais, em que a impressão nem sempre é encontrada em boas condições. Acredita-se que o mapeamento de 20 a 40 poros seja o suficiente para certificar a identidade de uma pessoa, o equivalente a 2cm de linha papilar. Esses pontos, de menos de 200 nanômetros de diâmetro, também podem ser identificados de acordo com o número, a frequência, a posição e a forma.

Utilidades
As técnicas criadas para detectar esses pontos, porém, eram muito caras e lentas ou pouco confiáveis. Como os poros são sensíveis à condição da pele, ambientes mais úmidos ou secos podem influenciar no resultado da análise. Especialistas acreditam que o novo polímero cromático pode ser uma solução para esse problema. “Pelos exemplos mostrados no artigo, os autores foram capazes de obter impressões de alta qualidade. Portanto, essa poderia ser uma ferramenta eficiente para análises de nível três em impressões digitais”, avalia Anil Jain, especialista em biométrica da Universidade do Michigan, nos Estados Unidos.

No entanto, o novo método não foi criado para substituir a forma atual de verificação de impressões digitais. “Em vez disso, acreditamos que seria uma boa ajuda especialmente para a análise de imagens de pontos obtidos de substratos porosos”, ressalta o pesquisador Jong-Man Kim. A técnica já foi testada para a cópia de impressões deixadas em materiais como papéis ou dinheiro. O especialista norte-americano também faz a ressalva da aplicação limitada do método: “A técnica não pode ser usada para obter traços de nível um e dois, portanto o método proposto não pode ser um substituto para a impressão digital comum”, alerta Jain.

O polímero que muda de cor também pode ser usado para exames médicos. Como o material que muda de cor só responde ao suor, os pesquisadores acreditam que o polímero também seria capaz de distinguir os poros que funcionam dos inativos. Outro uso proposto é como matéria-prima de uma técnica de monitoramento de umidade. Atualmente, os sul-coreanos estão procurando por uma companhia que esteja interessada em comercializar o método cromático de registro de digitais.

Emond Locard
A poroscopia, isto é, a ciência de identificar pessoas por meio da localização dos poros dos seus dedos, foi inventada pelo cientista forense Emond Locard, conhecido como o Sherlock Holmes francês. Em 1912, ele publicou um artigo em que afirmava ser possível registrar e comparar os poros para confirmar a identidade do dono da digital. Os poros, segundo Locard, tinham as três características essenciais para a ciência da identificação: perenidade, imutabilidade e variedade.

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