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Expressão ainda reprimida

Estudo da Faculdade de Saúde Pública da USP indica que revelar a orientação sexual continua sendo difícil para gays. Segundo o levantamento, 72% dos homossexuais homens que não guardam segredo já sofreram humilhações e xingamentos

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postado em 19/05/2014 14:00

Carolina Mansur

 
 
Belo Horizonte — Os tempos são outros, e as pessoas estão mais abertas aos assuntos relacionados à homossexualidade. Mas a revelação da orientação sexual para os amigos, a família, os colegas de escola e de trabalho ainda é tratada como tabu para grande parte da população homoafetiva, que continua sendo alvo de preconceito e, em alguns casos, de violência. Uma pesquisa desenvolvida na pós-graduação da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) mostra que a resistência do preconceito na sociedade continua causando problemas graves de saúde.

Apoiado nos relatos de 1,2 mil homens homossexuais, de 18 a 77 anos, colhidos em São Paulo, o psicólogo clínico Luiz Fábio Alves de Deus tentou compreender o processo de revelação da orientação sexual dessas pessoas e as consequências em diferentes contextos sociais. “A diversidade e o compartilhamento da não heterossexualidade ainda são produtores de violências e de marginalizarão e exclusão de pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transexuais (LGBT)”, detalha. A observação de Luiz Fábio foi de que o compartilhamento é mais frequente em alguns espaços do que em outros. “O processo de revelação tem início com algum amigo mais próximo e, à medida em que há espaço, a pessoa conta para a família, na maioria dos casos para a mãe primeiro, e pessoas de contextos sociais mais próximos e significativos”, comenta.

E a consequência, já conhecida pela maioria, é que, quanto maior a exposição da orientação sexual, maior é a chance de discriminação e agressão. As violências em relação à população LGBT, segundo o pesquisador, são contínuas e atravessam toda a trajetória de vida do homossexual, independentemente do gênero. “Não é pontual como em outras situações de violência, como num assalto, por exemplo. Estamos falando de pessoas que, em geral, já são alvo de comportamentos hostis e violências da infância à vida adulta, por não corresponderem ao que socialmente é esperado em termos de sexualidade.” Presente em todos os contextos sociais, as violências são tanto de caráter físico quanto moral e psicológico, indica o estudo, intitulado Contextos de revelação da orientação sexual: no final do arco-íris tem um pote de ouro?.

Gerenciamento

Na população estudada, 16% informaram já ter sofrido algum episódio de agressão verbal em razão da desconfiança com sua sexualidade. Quando o pesquisador observou o grupo em que a orientação sexual era amplamente conhecida, 72% informaram ter sido alvo de xingamentos ou humilhações públicas por causa da não heterossexualidade. Na violência física, do grupo em que a orientação sexual não era conhecida por ninguém, 4% disseram já ter sido alvo de algum episódio desse tipo de violência, e no grupo em que a orientação estava totalmente revelada, 21% afirmaram já ter sofrido agressão física.

Como a revelação da orientação está atrelada a perdas e ganhos em termos de prestígio, status social, afeto e amizades, há ainda um gerenciamento das informações a esse respeito, com a seleção das pessoas com as quais é possível compartilhar o ‘segredo’. “Revelar ou ocultar a orientação sexual, portanto, ainda é questão estruturante da vida homossexual”, diz o pesquisador. O estudo revela ainda que os homossexuais de pele branca estão entre os que mais optam pela revelação. Já os negros se expõem menos por já carregarem uma carga pesada de preconceito ligada à etnia. Os homossexuais jovens, com até 29 anos, também se revelaram mais que os com 30 anos ou mais. E 51% dos entrevistados informaram não serem praticantes de nenhuma religião.

No que diz respeito à aceitação familiar, a professora de psicologia do Centro Universitário Newton Paiva, em Belo Horizonte, Marina Reis Botelho lembra dois formatos de família: a tradicional, em que há aceitação com dificuldade e restrições (não querer conviver com o parceiro do filho, por exemplo); e as contemporâneas, que têm outras configurações e melhor entendimento.

Segundo a professora, genética e ambiente, que antes eram vistos de forma isolada na identificação do ser humano, agora não podem ser mais separados. “A orientação, heterossexual e homossexual, vem da associação genética com o ambiente. O ambiente inclui as histórias e as circunstâncias da vida que vão nos atingindo e isso tudo vai estabelecendo o nosso tipo de comportamento e personalidade”, explica Marina Botelho, que também é psicoterapeuta familiar, lembrando que a homossexualidade não pode ser confundida com patologia.

Ostracismo

A forte discriminação e a violência contra a população LGBT, muitas vezes acentuada com a revelação, afeta diretamente a saúde psíquica e física. Nos Estados Unidos, a Gay and Lesbian Medical Association and LGBT Health Experts compilou resultados de pesquisas que apontam sentimentos de autorrejeição, depressão e ansiedade nessa população durante diferentes fases da vida.

Em vários casos, o ato de contar a orientação sexual ainda submete lésbicas e gays ao mais completo ostracismo nos núcleos sociais de maior significância, como a família, a escola e o ambiente de trabalho. Esses cenários de hostilidades estão diretamente associados ao comprometimento da saúde mental, elevando o risco de suicídio e de consumo excessivo de cigarro e álcool.

Com as pessoas sendo convocadas a atender exigências e expectativas sociais e a marginalização da não heterossexualidade em diversos contextos, a decisão de assumir a orientação sexual fica ainda mais complicada. “A primeira tendência ao pensar acerca dos resultados da pesquisa é que as pessoas não devem se revelar para outros, mas o que queremos destacar é exatamente o contrário. As pessoas devem ser livres para viverem sua sexualidade com alguém do mesmo sexo ou do sexo oposto, porém esse direito não tem sido garantido e queremos chamar atenção para isso”, diz o psicólogo Luiz Fábio Alves de Deus.

Os resultados, segundo ele, demonstraram que ainda há muito a ser feito para a concretização da cidadania e o respeito para as pessoas não heterossexuais. Nesse sentido, o diálogo e a responsabilização dos diferentes contextos, bem como o desenvolvimento de políticas públicas e de ações que desconstruam as noções de que a homossexualidade é pecado, desvio de caráter e todo o leque de ideias que marginalizam essas pessoas, são peças-chave do processo de mudança.

Mobilização
O Conselho Federal de Psicologia tem mobilizado todos os profissionais pela rejeição do requerimento que propõe a realização de audiência pública para debater a Resolução CFP 01/99, que orienta os psicólogos a não exercerem qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, e/ou adotarem ação coercitiva que tenda a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.

 

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