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CIÊNCIA

A busca por vida continua

Nasa inicia projeto que enviará nova sonda a Europa, lua de Júpiter que pode abrigar organismos em um imenso oceano subterrâneo

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postado em 20/05/2014 10:39 / atualizado em 20/05/2014 10:56

A agência espacial norte-americana tem planos de continuar investindo nas expedições lunares nos próximos anos. Mas o satélite natural que está na mira dos pesquisadores não é o terrestre, visitado pelos humanos há 45 anos. A Nasa está de olho em Europa, um dos 67 objetos que orbitam Júpiter. A instituição publicou recentemente um chamado para que cientistas e engenheiros apresentem sugestões para uma missão à lua jupiteriana e divulgou o orçamento planejado para a construção e a manutenção da sonda: US$ 1 bilhão. Datas e detalhes planejados para a viagem da espaçonave ainda não foram revelados, mas está claro que o objetivo é estudar as condições que o corpo celeste oferecem para a existência de vida.

Descoberta por Galileu Galilei em 1610, Europa ganhou popularidade recentemente depois que observações feitas a distância comprovaram que ela tem um vasto estoque subterrâneo de água. Desde os anos 1990, pesquisadores acreditam que o líquido é tão abundante que literalmente jorra da superfície do satélite. Mas foi no ano passado que dados do telescópio espacial Hubble mostraram que a lua expele jatos de vapor d’água de até 200m de altura. A descoberta parece ser a prova que a Nasa esperava para fazer uma investigação mais detalhada.

Os cientistas acreditam que os gases são apenas uma mostra de um oceano salgado protegido por um grosso escudo de gelo. De acordo com os cálculos baseados nas observações feitas do espaço, supõe-se que o satélite — que é um pouco menor do que a nossa Lua — tenha mais água líquida do que todos os oceanos da Terra combinados.

“Europa é um dos locais mais interessantes no Sistema Solar para a busca de vida fora da Terra. A vontade de explorá-la tem estimulado não somente o interesse científico, mas também o talento de engenheiros e pesquisadores com conceitos inovadores”, declarou, em um comunicado, John Grunsfeld, administrador da Diretoria de Missão Científica da Nasa em Washington. “Essa é uma oportunidade de ouvir os grupos criativos que têm ideias para realizar a ciência a um custo mínimo”, ressaltou Grunsfeld.

Desafio
O chamamento publicado pela Nasa lista cinco objetivos para entender a habitabilidade de Europa. Além de estudar o ambiente espacial que rodeia a lua, a espaçonave terá de investigar a estrutura em busca de potenciais lugares para uma exploração mais detalhada. Os instrumentos também devem analisar as composições da superfície e caracterizar a camada exterior de gelo. A prioridade da agência será o estudo do oceano submerso, para entender quão grande ele é e como ele se relaciona com o interior do satélite.

Especialistas acreditam que Europa é um dos melhores candidatos do Sistema Solar para revelar os primeiros sinais de vida fora da Terra. “A superfície certamente não é um bom lugar para a vida, pois recebe bombardeamentos de partículas carregadas. Ela também está em vácuo, não tem atmosfera, e as temperaturas são baixas”, esclarece Douglas Galante, do Núcleo de Pesquisa em Astrobiologia (AstroLab) da Universidade de São Paulo (USP). “Mas, debaixo da capa de gelo, existe um oceano, e ele deve ter condições bem razoáveis para a vida. Ele é líquido e, provavelmente, salgado, muito parecido com os nossos oceanos”, acrescenta.

O congresso dos Estados Unidos liberou US$ 80 milhões para o desenvolvimento de novas tecnologias para o estudo, e mais US$ 15 milhões podem ser concedidos no ano que vem. O veículo enviado para Marte em 2012 custou US$ 2,5 bilhões à Nasa, mas o equipamento que será enviado para a vizinhança de Júpiter deve ser muito mais modesto que o rover Curiosity, mesmo porque não pousará em Europa — as análises devem ser feitas a distância, com a ajuda de avançadas tecnologias de sensoramento. A verba total de US$ 1 bilhão exclui os gastos com o lançamento da espaçonave.

Até o momento, Europa só foi observada de longe por equipamentos capazes de analisar a composição do ar e de gerar imagens na discreta resolução de 70km por pixel. A descoberta dos gêiseres expelidos da superfície do planeta, por exemplo, foi feita por meio de dados colhidos pelo telescópio Hubble, que registrou os níveis de hidrogênio e de oxigênio nas regiões observadas. “Estudar as composições com observações remotas e encontrar traços de emissões de certos elementos é um desafio”, ressalta Lorenz Roth, pesquisador do Southwest Research Institute e autor do trabalho que descreveu as emissões de Europa no ano passado.

Medições
Roth acredita que a sonda possa usar esses jatos de vapor d’água para estudar a lua sem ter de pousar, mas seriam necessários instrumentos que medissem as partículas das plumas expelidas por Europa enquanto a espaçonave passasse por ela. “No entanto, é necessário saber exatamente onde a espaçonave precisa estar, e em que momento”, ressalta o especialista, enfatizando que uma análise feita na superfície da lua forneceria melhores dados para entender a habitabilidade do corpo celeste. “No entanto, medições diretas das partículas com um espectrômetro permitiria um aprofundamento mais exato da composição”, especula Lorenz Roth.

Se pousasse diretamente no corpo celeste, a sonda poderia procurar por grânulos de gelo, partículas de gás e outros elementos que fossem expelidos pelos gêiseres lunares. Análises anteriores também mostraram que a superfície de gelo é contaminada por material do ambiente, como dióxido de carbono, sódio e potássio. Mas a Nasa deixa claro que buscará garantir que nenhum organismo terrestre seja levado por acidente pela sonda para a superfície da lua jupiteriana. O projeto da sonda também deve levar em conta a altíssima radiação que é bombardeada sobre Europa e que pode prejudicar os instrumentos ou alterar as leituras científicas. Isso significa que a espaçonave deve contar com uma proteção capaz de manter o equipamento a salvo da deterioração radioativa.

A agência já considera há alguns anos um conceito de missão que enviaria uma espaçonave para a orbitar Júpiter e investigar Europa de perto. O veículo resistente à radiação faria uma longa órbita em torno do planeta para realizar um número estimado de 45 passagens próximas à lua gelada. Entre os instrumentos considerados para o trabalho, estão um radar capaz de enxergar através da cobertura de gelo do satélite, uma câmera topográfica de alta resolução, um espectrômetro de massa para analisar a atmosfera e um espectrômetro infravermelho para investigar a composição da superfície.

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