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Espaço para os independentes

Brasil ganha primeiro site voltado à venda de games criados por estúdios pequenos. O portal deve incentivar a produção nacional

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postado em 21/05/2014 14:00 / atualizado em 21/05/2014 10:46

Roberta Machado

Alguns títulos se diferenciam no mercado com cenários e personagens brasileiros, como o jogo Cangaço, criado pela Sertão Games (Sertão Games/Divulgação) 
Alguns títulos se diferenciam no mercado com cenários e personagens brasileiros, como o jogo Cangaço, criado pela Sertão Games

Nessa loja de games, não há aventuras do Mario, do Pikachu ou da Lara Croft. Quem manda ali são cangaceiros, índios e outros personagens que podem parecer novos para muitos jogadores de longa data. Na SplitPlay, o primeiro marketplace de jogos independentes da América Latina, há mais de 20 títulos à venda com temáticas variadas. Enquanto alguns falam português e têm inspiração na cultura nacional, outros foram feitos com um visual e a língua típicos da terra do Tio Sam. Mas não se deixe enganar: todos foram criados aqui mesmo no Brasil.

A produção nacional de games tem se fortalecido nos últimos anos graças à multiplicação de pequenos estúdios por todo o território do país. São os chamados estúdios indies, grupos independentes, com orçamento modesto e que trabalham sem o apoio de grandes empresas. A maioria deles é composta por uma equipe com menos de 10 pessoas, armada com nada mais que um kit de desenvolvimento e criatividade.

Apesar do crescimento recente, os títulos produzidos nesse esquema de guerrilha davam de cara no muro da distribuição. Ou os desenvolvedores vendiam os jogos por conta própria pela internet ou tentavam a sorte em disputados catálogos como a loja virtual do Xbox ou o site internacional Steam, a grande inspiração para o pessoal da SplitPlay. Com um catálogo de mais de 3 mil jogos e 75 milhões de usuários, a página da Valve se tornou referência na compra e venda de games para computador. Mas, como pode ser fácil se perder nesse mar internacional de divertimento, tornou-se necessário estabelecer um território nacional para os navegadores brasileiros.

“Não existia um lugar único para encontrar jogos brasileiros. Eles ficavam espalhados para tudo quanto é canto. Muita gente fazia jogo em inglês visando ao mercado exterior”, conta Rodrigo Coelho, que criou a plataforma com amigos da PUC-Rio. O site entrou no ar no início deste mês e deve receber alguns ajustes e novos títulos em breve. Em apenas uma semana de existência, a página registrou 1.800 usuários e continua crescendo num ritmo de 200 membros por dia. “Participar disso é muito legal. Ficamos bastante felizes de conseguir colocar jogos brasileiros na mão dos brasileiros, fazer o pessoal conhecer o que a gente tem aqui”, anima-se o jovem CEO da empresa.

Cena de Aritana e a pena de harpia: vencedor do voto popular na última edição do BIG Festival (Duaik/Divulgação) 
Cena de Aritana e a pena de harpia: vencedor do voto popular na última edição do BIG Festival

Oportunidade
A princípio, a turma de alunos dos cursos de design para mídias digitais e de engenharia da computação tinha a intenção de criar o próprio jogo, como outros desenvolvedores indies. Mas, ao realizar uma pesquisa para planejar o trabalho, os colegas notaram que o mercado não acolhia tão bem os pequenos estúdios. Foi então que eles decidiram transformar o problema em oportunidade e criar um canal de distribuição para os games brasileiros. A iniciativa foi acelerada depois de receber reconhecimento no Start-Up Chile e nos eventos brasileiros Seed e Startup Rio.

No catálogo entram todos os tipos de aventura, do RPG e formatos mais conceituais ao velho modelo plataforma. Basta que o produto tenha um nível amadurecido e seja produzido em território nacional. Entre os títulos de destaque, estão Dreaming Sarah, uma mistura de aventura com a resolução de puzzles, e o Chroma Squad, feito pelos brasilienses do Behold Studios, com visual de game antigo e temática inspirada nos seriados japoneses tipo sentai. No início de julho, o site deve iniciar a expansão para outros países da América Latina, ajudando a exportar o produto nacional para as regiões vizinhas.

De acordo com dados do Ibope, 23% da população brasileira se consideram jogadores assíduos. O Brasil ocupa a quarta posição entre os consumidores de games no mundo, tendo movimentado quase R$ 850 milhões em 2012. Os produtores indies querem uma fatia desse mercado e acreditam que podem contribuir com a popularização das aventuras eletrônicas com a ajuda de títulos feitos com personagens familiares que falam a língua nacional. “O jogo acaba sendo único lá fora. Um título lançado no Japão que fala sobre índios do Brasil é tão fora da realidade deles que esse acaba sendo o ponto forte”, acredita o desenvolvedor Pérsis Duaik, um dos criadores do game Aritana e a pena de harpia.

Esse é o primeiro jogo da Duaik, a empresa iniciada pelos irmãos Pérsis e Ricardo. A dupla escolheu a data de estreia do SplitPlay para lançar o título com exclusividade no marketplace nacional e já viu seu trabalho ser destacado como o preferido pelo voto popular no Brazil’s Independent Games Festival, o BIG Festival. “Todo mundo ficou interessado em como um jogo de índio foi cair nas graças do pessoal”, brinca Pérsis. Graças ao reconhecimento, a equipe conversa com grandes como a Sony e considera a possibilidade de disponibilizar o game na plataforma PlayStation e no Steam.

Estímulo
O site nacional também deve servir como um incentivo para novos profissionais, aumentando não somente a visibilidade da produção local, mas também o próprio volume de títulos nascidos no país. “Acho que ocorreu uma espécie de apagão na década de 1990. Em 1980, começamos muito bem com o desenvolvimento de jogos e consumimos títulos como Amazônia e Angra, com mais de 1 milhão de cópias vendidas só no país. Mas, nos anos 1990, isso se perdeu”, conta Erick Passos, fundador da Sertão Games e um dos criadores do jogo de estratégia Cangaço.

Alguns desenvolvedores chegaram a oferecer seus títulos a preços mais baixos no SplitPlay, como uma forma de incentivar o público a usar a nova plataforma para adquirir os games. “O mercado de console é totalmente inacessível para o desenvolvedor e é fechado até para o consumidor. O cara acha legal, mas não tem dinheiro para ter”, ressalta Erick, acrescentando que 70% dos compradores de jogos no Brasil preferem títulos em português e feitos para computador. Enquanto um jogo original para consoles custa em média entre R$ 60 e R$ 200, os títulos da SplitPlay variam de R$ 2 a R$ 45. A plataforma também deve promover produtos menos conhecidos do seu catálogo por meio de um sistema personalizado de promoções. No futuro, a página também pretende conceder pontos e produtos aos visitantes com base no seu desempenho nos jogos.

O site pretende ser uma plataforma de comunicação direta entre produtores e consumidores, dando inclusive acesso antecipado a games que ainda estão em fase de desenvolvimento. Erick é um dos criadores que anteciparam o lançamento do game para aproveitar a estreia do SplitPlay. Ele está usando o feedback dos consumidores para fazer pequenas correções no game e melhorar o programa. Os compradores terão acesso a todas as atualizações dos produtos adquiridos pelo site. Nos próximos meses, a Sertão pretende incluir no site versões de Cangaço também em inglês e espanhol.
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