Há genes que dizem: "Deixe para amanhã"

Estudo feito com gêmeos sugere que a procrastinação tem base genética e está relacionada com traços de impulsividade

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postado em 22/05/2014 13:30 / atualizado em 22/05/2014 10:48

Isabela de Oliveira /


 (Anderson Araújo/CB/D.A Press) 

Procrastinação: atraso voluntário, porém irracional, de uma atividade; marcar para outro dia; adiar ou, vulgarmente dizendo, enrolar. Os dicionários têm muitas definições para o costume de “empurrar com a barriga”, mas só quem sofre com a mania de deixar para daqui a pouco sabe os prejuízos que o hábito pode causar. As razões que levam uma pessoa a agir dessa maneira ainda são desconhecidas, e muitas teorias tentam explicar o comportamento. Um estudo recente encontrou evidências de que ele pode estar marcado no DNA das pessoas, além de estar ligado à impulsividade.

Ele partiu de estudos conduzidos desde o início da década de 1990 que encontraram uma correlação positiva entre o adiamento de tarefas e traços impulsivos. Apesar de, para o senso comum, as duas características parecerem opostas, o autor conta que 20 anos de análises produziram evidências substanciais de que elas costumam ocorrer juntas.

Para investigar o tema, Daniel Gustavson, da Universidade de Colorado Boulder (EUA), aplicou questionários em 181 pares de gêmeos monozigóticos, ou idênticos, e 166 dizigósticos, ou fraternais. Os quase 700 participantes responderam a perguntas relacionadas às influências da impulsividade e da procrastinação em suas vidas, além da capacidade de planejar suas ações. Os resultados mostraram uma coincidência muito maior entre os gêmeos idênticos, que compartilham 100% do material genético do que no outro grupo, no qual o compartilhamento do genoma é de 50%.

Em outras palavras, nos irmãos monozigóticos, quando um deles costuma procrastinar, a chance de ou outro também ter um traço semelhante é muito maior do que entre os dizgóticos. Isso, segundo, o pesquisador, indica um importante papel genético nessa característica, já que fatores ambientais parecem pesar sobre os dois grupos de maneira muito parecida, uma vez que gêmeos, sendo idênticos ou não, recebem uma educação muito semelhante desde o início da vida.

Além disso, outro dado chamou a atenção de Gustavson: nos questionários, também ficou clara a associação entre procrastinação e impulsividade. “Nossos resultados sugerem a hipótese de que há uma sobreposição das influências genéticas compartilhadas entre procrastinação e impulsividade com a habilidade de manter objetivos. Encontramos influências ambientais, sim, mas elas não foram compartilhadas com esses três traços”, diz o autor.

O geneticista Gustavo Guida, do Laboratório Pasteur, concorda que características tão subjetivas como a procrastinação possam ser passadas de geração em geração. “Comportamentos que prejudicam a pessoa de alguma maneira, como problemas psiquiátricos, por exemplo, têm um grande componente genético. Então faz um certo sentido existir essa herança para alguns comportamentos também”, considera Guida, que não participou do estudo.

Evolução
Daniel Gustavson acredita que uma maneira de explicar os resultados é olhar para a evolução humana. Segundo ele, a impulsividade é uma característica evolutiva presente nos caçadores-coletores, povos antigos que não podiam se dar ao luxo de planejar o futuro, porque a sobrevivência dependia de decisões tomadas no presente. Pensar demais, no caso deles, significava perder o foco das necessidades urgentes, como a próxima refeição.

O mundo moderno, entretanto, é estruturado em uma base diferente, que exige o cumprimento de metas de longo prazo. No entanto, as tendências impulsivas que foram firmemente enraizadas durante a evolução continuaram alimentando o instinto de agir apenas no momento crucial e não com antecedência, elabora o pesquisador. Daí a convergência entre impulsividade e procrastinação. Esta, na verdade, seria um subproduto daquela.

Felizmente, isso não quer dizer que quem possui a tendência está condenado a procrastinar eternamente. “Vale lembrar que os genes se expressam ou não de acordo com o ambiente em que estão. Então, não necessariamente uma pessoa que possui essa característica vai desenvolvê-la ou carregá-la para o resto da vida. Além disso, não foi realizado um trabalho que identificasse genes determinantes, e a pesquisa se restringiu a uma observação epidemiológica”, ressalta Gustavo Guida.

É preciso também separar comportamentos realmente prejudiciais dos adiamentos a que todos estão sujeitos em determinados momentos. Não é raro, por exemplo, que a procrastinação se manifeste mais na adolescência, quando o comportamento parece cumprir algumas necessidades dessa fase do desenvolvimento humano. Grande parte do estudantes, em especial os universitários, são conhecidos por hábitos procrastinatórios clássicos, como atravessar madrugadas fazendo o trabalho que deve ser entregue na manhã seguinte.

Ainda que boa parcela das pessoas tenha passado por essa fase seguindo o mesmo ritmo, a maioria desenvolve, na vida adulta, um senso maior de responsabilidade. Gustavson considera que o ponto alto do estudo é enxergar as pistas de porquê isso acontece. “Essa nova descoberta não só ajuda a desenvolver modelos mais mecanicistas da procrastinação, mas também aponta novas maneiras de reduzi-la, por exemplo, aumentando a quantidade de atividade e mantendo objetivos na presença de potenciais tentações”, diz o autor.

Perfeccionismo
Outro traço que pode ser correlacionado com a mania de adiar as tarefas é o perfeccionismo, segundo o estudo de Daniel Gustavson. A observação vai ao encontro de outros trabalhos. Segundo uma pesquisa da Universidade de Carleton, na Alemanha, por exemplo, alunos que registraram altos níveis de procrastinação parecem sofrer com uma grande expectativa e ansiedade pelo próprio desempenho, o que acaba requerindo um nível de concentração que nunca é atingido.

Palavra de especialista

Por uma análise complexa

“O estudo em questão, indiscutivelmente, traz valiosas evidências científicas pontuais. Entretanto, ao que parece, esse mundo contemporâneo complexo, de sujeitos multifacetados, exige das ciências respostas mais complexas, abrangentes, integrais e multirreferenciadas que, sobretudo, entendam e abordem esses sujeitos em sua totalidade. E não os reduzam pontualmente a simples conjuntos de comportamentos que, quando considerados indesejáveis ou não adequadamente responsivos ao que deles se espera, sejam reprogramados de forma a atender as expectativas dominantes.”
Rovena Lopes Paranhos, mestre em psicologia social e professora da Faculdade Arthur Sá Earp Neto, em Petrópolis (RJ)

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