Tecnológico, moderno e humano

Pianista e acordeonista, o arquiteto da tecnologia de pré-fabricados e dos edifícios hospitalares reverenciava o mestre Oscar Niemeyer e seguiu um caminho tão autoral quanto valioso socialmente

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postado em 22/05/2014 14:00 / atualizado em 22/05/2014 10:58

 (Iano Andrade/CB/D.A Press - 21/5/14 ) 

Embora fosse filho único de classe média baixa, havia um piano na sala da casa, herança da avó paterna. O pai era músico profissional, do tempo em que se tocava ao vivo a trilha sonora dos filmes do cinema mudo. Quando se casou, deixou a música por um emprego mais seguro, foi ser postalista dos Correios e Telégrafos - o profissional que separa as correspondências por região da cidade.

Do pai, Lelé herdou o gosto pela música. Tocava piano e acordeão em bailes - instrumento que o levou à boemia. Ao mesmo tempo, foi o recurso de que dispôs para cuidar de si e da mãe quando o pai morreu precocemente, aos 59 anos, de câncer do pulmão.

O homem discreto, solidário, afetuoso era um arquiteto tecnológico, mas de uma tecnologia comprometida com a funcionalidade e com a qualidade de vida dos usuários dos edifícios e dos equipamentos urbanos que projetava - a maioria deles, pacientes de hospitais. Uma das mais belas obras de Lelé é um centro de reabilitação do aparelho locomotor plantado à margem do Lago Norte.

Se Oscar Niemeyer gostava de repetir que a arquitetura deveria causar espanto, foi Lelé quem produziu - durante toda a vida profissional - uma arquitetura espantosa, por ser conectada com o tempo tecnológico e comprometida com a responsabilidade social. E ao mesmo tempo moderna. Chegou a projetar conjuntos para o programa Minha Casa, Minha Vida, mas suas ideias não casaram com as do atual governo petista. “A solução era diferente, nova. Para manter as populações todas nos bairros e não removê-las, como acontece”, declarou à repórter Clara Campoli, do Correio, em 2012.

Foi Brasília quem ensinou a João Filgueiras Lima o senso de compromisso social. Arquiteto recém-formado, desenhista no Instituto de Assistência e Previdência dos Bancários (IAPB), Lelé se apresentou ao chefão: "Que coragem, hein, rapaz!", comentou Niemeyer diante daquele que viria a ser um de seus mais valiosos colaboradores e um dos grandes e mais fiéis amigos. Quando Brasília reagiu ferozmente contra a construção da Praça da Soberania, na Esplanada dos Ministérios, Lelé escreveu um texto em defesa do amigo. Fiel, como o quê.

Outro encontro que dividiu as águas do destino de Lelé foi com o ortopedista Aloysio Campos da Paz. Vítima de grave acidente de carro, quando vinha do Rio para Brasília, em 1963, o arquiteto e a mulher, a também arquiteta Alda Rabello Cunha, foram internados no então Hospital Distrital (hoje Hospital de Base). Campos da Paz coordenava a unidade de ortopedia. O tratamento, o gosto pela música (o arquiteto no piano, o ortopedista no pistom) e o compromisso com o bem-estar do ser humano uniram esses dois homens para o resto da vida. Houve desentendimentos, que acabaram com trocas de flores (literalmente).

Em parceria com Oscar Niemeyer, Athos Bulcão e Darcy Ribeiro, Lelé projetou algumas das mais grandiosas, inteligentes, funcionais, sociais e belas obras de Brasília. Com Oscar, fez o Minhocão e o Quartel-General do Exército, por exemplo; com Athos Bulcão, as unidades da Rede Sarah; com Darcy, o Beijódromo.

A produção de Lelé não pode ser alinhada numa só lista de obras projetadas e executadas, como se faz com qualquer outro arquiteto, consagrado ou não. A fortuna crítica da obra de João da Gama Filgueiras Lima divide os projetos por afinidade tecnológica. Obras nas quais foram aplicados materiais pré-fabricados pesados em concreto armado; obras com pré-fabricados leves em argamassa armada; obras com industrialização em aço, plástico e argamassa armada. (Imagens de sua obra serão expostas na Bienal de Veneza deste ano, como parte do panorama da arquitetura moderna brasileira).

O Lelé da arquitetura feita com materiais pré-fabricados também nasceu em Brasília. “Nós tínhamos de fazer alojamentos para os operários que estavam chegando do Brasil inteiro. Tínhamos de fazer casa para os engenheiros, para os administradores. E tudo de madeira. Aí entrou o pré-fabricado porque, se fôssemos fazer aquilo de forma artesanal, não acabaríamos nunca”, contou ele à repórter Cynara Menezes no livro O que é ser arquiteto (coleção Memórias Profissionais, da editora Record, 2004).

Na década de 1980, Lelé fechou o escritório particular em Brasília e se arriscou numa empreitada tão arriscada quanto utópica. Construiu em Abadiânia (GO), a 134km do Plano Piloto, uma miniusina de pré-moldados leves em argamassa armada a fim de erguer escolas rurais e pontes para estradas vicinais. Como pano de fundo, formava operários para a tecnologia a serviço das populações carentes e da viabilidade urbana. “Por incrível que pareça, acho que meu maior sucesso profissional foi nessa cidadezinha de Goiás, porque houve um envolvimento total das pessoas.” A experiência de Abadiânia só foi possível por conta do entusiasmo do então reitor da UnB, frei Mateus Rocha

A iniciativa trouxe para o sertão de Goiás o então governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola. O resultado: Lelé se mudou para a cidade onde nasceu e fundou uma usina de pré-fabricados em argamassa armada, a Fábrica de Escolas e Equipamentos Urbanos (Faec) do Rio de Janeiro. A produção era destinada a obras em comunidades carentes, desde escolas até postos de saúde e saneamento básico.

Menos de cinco anos depois, o então vice-governador do Rio, Darcy Ribeiro, convidou Lelé para construir perto de 5 mil obras destinadas ao atendimento integral às crianças de periferia. Eram o Ciacs, os Centros Integrados de Atenção à Criança, que deveriam ser implementados em todo território nacional.

Lelé gostava de contar que teve de fazer um exame de próstata, no começo dos anos 2000. Chegou à médica e foi convidado a se instalar numa maca tecnológica. Acomodado, o paciente não precisava mudar de lugar. A maca se deslocava para que a médica pudesse fazer o exame sem constrangimentos. Ela comentou com o arquiteto a funcionalidade do equipamento, ao que ele acrescentou: “Fui eu quem projetou”. Os dois gargalharam.

A dedicação à arquitetura de hospitais também começou em Brasília, não no Sarah, como se poderia imaginar, mas no Hospital Regional de Taguatinga, construído em 1968. Mas, a essa altura, Lelé já tinha contato com Aloysio Campos da Paz e sua febril dedicação à Rede Sarah. Febre dupla, como conta Lelé: “Nos dias em que fiquei internado, ficávamos até altas horas da madrugada revendo o centro de ortopedia do hospital que na época estava vendo instalado. A partir daí, fiz muitos desenhos de fraturas, de próteses, de tração, essas coisas, todas a pedido do Aloysio”, disse em entrevista a Ana Gabriella Lima Guimarães, em 2003, em Salvador.

No fim dos anos 1990, Campos da Paz deu um depoimento incisivo sobre a contribuição do arquiteto para a inequívoca eficiência da Rede Sarah: “Os hospitais de Lelé, ao contrário de espaços constrangedores de sofrimento, tornaram-se locais amenos, generosos, ricos em volumes e cores: a própria expressão e sentido da palavra reabilitação. Quando um velho titular de ortopedia e reabilitação da mais antiga e tradicional universidade inglesa visitou os belos espaços horizontais do Sarah Salvador, virou-se para mim e murmurou com os olhos marejados: sempre sonhamos com isso! Hoje, você me trouxe ao próximo século”.

Lelé teve três filhas, Luciana, Adriana e Sônia, nascidas em Brasília, três netos e a ex-mulher, Alda. Luciana nasceu com paralisia cerebral, o que motivou o arquiteto a tomar o rumo da reabilitação dos movimentos. Adriana é arquiteta; Sônia, jornalista. O corpo de Lelé não será sepultado no Rio de Janeiro, onde nasceu, ou em Salvador, onde morou nas últimas duas décadas, mas em Brasília, onde brotou o arquiteto tecnológico, socialmente responsável e, sobretudo, de uma inesquecível sensibilidade para com o bem-estar humano, sem abdicar do encanto e da beleza.

"Por incrível que pareça, acho que meu maior sucesso profissional foi nessa cidadezinha de Goiás (Abadiânia), porque houve um envolvimento total das pessoas”
Lelé

"Os hospitais de Lelé, ao contrário de espaços constrangedores de sofrimento, tornaram-se locais amenos, generosos, ricos em volumes e cores: a própria expressão e sentido da palavra reabilitação"
Aloysio Campos da Paz, idealizador da Rede Sarah

FÁBRICA LELÉ
  • Hospitais
  • Fábricas (não simplesmente o edifício, mas conduziu a produção de pré-fabricados, de argamassa, aço e estrutura metálica)
  • Habitações coletivas
  • Casas
  • Edifícios de escritórios
  • Apartamentos
  • Igrejas
  • Clubes
  • Escolas
  • Creches
  • Indústrias
  • Auditórios
  • Estações de transporte urbano
  • Passarelas
  • Edifícios administrativos
  • Pontes
  • Abrigos de ônibus
  • Sistemas de contenção e drenagem
  • Cama-maca e outros equipamentos hospitalares
  • Bancos de praça
  • Restauração de centro histórico (Pelourinho)
  • Obras do arquiteto


    O Beijódromo da UnB: o sonho de Darcy Ribeiro concretizado pelo amigo Lelé (Zuleika de Souza/CB/D.A Press - 5/5/14 ) 
    O Beijódromo da UnB: o sonho de Darcy Ribeiro concretizado pelo amigo Lelé
    1958/1960  

  • Blocos da 109 Sul — (Com Aldary Toledo e Luigi Pratesi)

1960
  • Residência da Embaixada da África do Sul — Brasília

1961
  • Casas da 713 Sul
  • Ceplan/UnB — (Desenvolvimento de projeto de Oscar Niemeyer)

1962
  • Colina Velha — UnB
  • Protótipo habitacional — UnB — (Desenvolvimento de projeto de Oscar Niemeyer)

1963/1971
  • Minhocão — (Desenvolvimento de projeto de Oscar Niemeyer)

1962
  • Pavilhão de Serviços Gerais da UnB — (execução de projeto de Oscar Niemeyer)

1963
  • Instituto de Teologia Católica (atual Secretaria de Cultura do DF, 607 Norte) — (Desenvolvimento de projeto de Oscar Niemeyer)

1965
  • Residência para ministro de Estado — Brasília
  • Sede da Disbrave — Brasília

1967/1968
  • Quartel General do Exército (Desenvolvimento de projeto de Oscar Niemeyer)

1968
  • Hospital Regional de Taguatinga

1969
  • Residência Aloysio Campos da Paz, em Brasília

1971
  • Oficinas gráfica do Correio Braziliense — Brasília

1972
  • Sede da Planalto de Automóveis/Ford — Brasília

1973
  • Residência Rogério Ulisses — Brasília
  • Secretarias do Centro Administrativo da Bahia
  • Sede da Codipe/Mercedes-Benz — Brasília

1974
  • Residência José da Silva Netto — Brasília
  • Sede do DNPVN (Extinto Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis) — Brasília
  • Academia de Tênis — Brasília
  • Centro de Exposições de Salvador
  • Edifício da Codipe — Brasília
 
1975
  • Residência Nivaldo Borges — Brasília
  • Igreja do Centro Administrativo de Salvador —

1976
  • Hospital do Aparelho Locomotor de Brasília (Rede Sarah) — (A primeira fase da construção é projeto de Glauco Campello, iniciada em 1960)

1977
  • Edifícios Camargo Corrêa e Morro Vermelho — Brasília
  • Edifício Dataprev — Brasília
  • Residência Mário Kertész — Salvador
  • Clínica Daher — Brasília
  • Centro de Aperfeiçoamento do Dasp — Brasília

1978
  • Centro de Pesquisas Agropecuárias do Cerrado — Brasília
  • Abrigos e terminais de ônibus — Salvador

1978/1981
  • Fábrica da Renurb (Companhia de Renovação Urbana) — Salvador — 1978/1981

1979
  • Postos de polícia — Salvador
  • Estação de transbordo da Lapa — Salvador — 1979
  • Central de Delegacias — Salvador
  • Igreja dos Alagados — Salvador

1981
  • Sede da Eletrobras — Rio de Janeiro

1982/1984
  • Fábrica de Abadiânia — Goiás — (pontilhões, escolas rurais etc.)

1984
  • Sede da Associação Portuguesa — Brasília

1984/1986
  • Fábrica de escolas do Rio de Janeiro — (escolas, creches, casas comunitárias, postos de saúde, abrigos, saneamento básico etc.)

1986
  • Sede da Prefeitura de Salvador

1987
  • Laboratório de Termobiologia/UnB, com a colaboração de Luiz Fernando Gouveia Laboriau

1987/1988
  • Passarelas para pedestres — Salvador

1988
  • Hospital do Aparelho Locomotor de Curitiba (Rede Sarah)
  • Estação de transbordo do Iguatemi — Salvador
  • Hospital do Aparelho Locomotor de São Luís (Rede Sarah)
  • Passarelas para pedestres — Florianópolis

1989
  • Passarelas para pedestres — Belo Horizonte  
  • Hospital do Aparelho Locomotor de Salvador (Rede Sarah)

1984/1989
  • Fábrica de equipamentos urbanos do Rio de Janeiro — (mobiliário urbano, abrigos, escolas etc.)

1990
  • Fábrica para produção de Centros Integrados de Apoio à Criança (Ciacs) em todo o país

1985 a 1990
  • Fábrica de equipamentos urbanos de Brasília —  (escolas, abrigos, passarelas etc.)

1991
  • Hospital do Aparelho Locomotor de Fortaleza (Rede Sarah)

1992
  • Passarelas para pedestres — Rio de Janeiro

1993
  • Hospital do Aparelho Locomotor de Belo Horizonte (Rede Sarah)

1994
  • Centro Comunitário de São Luís da APS  
  • Residência João Santana
  • Centro de Apoio ao Grande Incapacitado Físico de Brasília (Rede Sarah)

1995
  • Hospital do Aparelho Locomotor de Recife (Rede Sarah)
  • Almoxarifado de Brasília da APS
  • Sede do Tribunal de Contas da União no Estado da Bahia

1996
  • Sede do TCU do Rio Grande do Norte
  • Hospital do Aparelho Locomotor de Natal (Rede Sarah)
  • Posto Fiscal Rodoviário do Estado do Maranhão

1997
  • Sede do TCU de Sergipe  
  • Sede do TCU de Minas Gerais
  • Tribunal Regional Eleitoral da Bahia
  • Sede do TCU de Alagoas
  • Sede do TCU de Mato Grosso
  • Sede do TCU do Piauí
  • Escola de Aperfeiçoamento do TCU em Brasília
  • Prefeituras em municípios do Maranhão e Amapá

1998
  • Sede do TCU do Espírito Santo

2000
  • Unidade Avançada do Aparelho Locomotor de Macapá (Rede Sarah)
  • Centro de Reabilitação do Rio de Janeiro (Rede Sarah)
  • Hospital do Aparelho Locomotor do Rio de Janeiro (Rede Sarah)

2001
  • Projeto Vale dos Rios — Ribeirão Preto  

1986/2002
  • Fábrica de equipamentos comunitários de Salvador — (escolas, creches, prédios públicos, passarelas etc.)

2002
  • Fábrica de Equipamentos Comunitários de Ribeirão Preto

2008
  • Residência de Roberto Pinho — Brasília

2010
  • Beijódromo — Brasília 

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