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Correio Braziliense

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Ao mestre, todo o reconhecimento

Amigos, colegas de profissão e discípulos de Lelé ressaltam as qualidades pessoais e o talento do homem que ajudou a revolucionar a arquitetura brasileira

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postado em 22/05/2014 14:00 / atualizado em 22/05/2014 11:01

 ( Museu da Casa Brasileira/Divulgação) 


"O Brasil sofre uma profunda perda com a morte de João Filgueiras Lima, o Lelé, um dos nossos mais brilhantes arquitetos. Com sua rara criatividade e insuperável capacidade construtiva, Lelé provou que é possível fazer uma arquitetura social com inovação e qualidade. Ele foi ao mesmo tempo artista, cientista e humanista. Um grande brasileiro que merece nossa admiração e reconhecimento."
Dilma Rousseff, presidente da República

"O Lelé está na origem do curso de arquitetura e em toda a universidade. Vários colegas  o consideram o melhor arquiteto do Brasil. Outro ponto importante da personalidade do nosso professor emérito é a preocupação que tinha não apenas com a estética, mas com o usuário da obra que fazia."
Ivan Camargo, reitor da UnB

"Alguns anos atrás, o meu filho Gabriel me arrastou, num fim de semana, para uma aula do Lelé, na Escola da Cidade. A aula de 12 horas acabou se tornando para mim uma grande lição de arquitetura. Percebi que estava diante de um dos maiores gênios da história da arquitetura."
Márcio Kogan, arquiteto

"O Lelé sempre foi citado como um dos três arquitetos mais importantes de Brasília. No entanto, sua arquitetura atingiu importância internacional pelo esmero e pela criatividade inerentes à sua obra. Sua gentileza e modéstia a todos comovia."
Pedro Paulo de Melo Saraiva, arquiteto que participou do concurso do Plano Piloto

"Os 10 hospitais da Rede Sarah foram projetados por Lelé, concebidos em uma interação profunda com os profissionais de saúde que aqui trabalham, e ajudam a expressar os princípios filosóficos da Rede Sarah. Sempre foi um amigo e interlocutor intelectual nestes anos todos de rica interação. Deixa muita saudade."
Lúcia Willadino Braga, presidente da Rede Sarah

"Era um dos meus melhores amigos há mais de 30 anos. O Lelé é o melhor arquiteto do Brasil. Devido a vários fatores, não teve o reconhecimento que merece, nem aqui nem fora. Vai deixar saudade como amigo e como mestre de uma arquitetura pensada, tecnológica, com saber construir e plasticidade da obra. O Lelé é um dos poucos que tinha esse domínio."
Cláudia Estrela Porto, arquiteta e professora da UnB

"A Faculdade de Urbanismo e Arquitetura está mais pobre. Fui diretor da FAU por seis anos e, nesse período, prestamos duas homenagens importantes ao Lelé: a primeira, aos professores aposentados da FAU. A segunda, demos a ele o título de professor emérito da faculdade. Isso nos orgulha porque é importante reconhecer e agradecer em vida."
Andrey Schlee, diretor de Patrimônio Material do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)

"A humanidade costuma tomar os seus gênios, poetas, sábios e, durante a vida deles, criar todos os obstáculos para que o fruto dessa genialidade não aconteça de forma ampla. Quando eles morrem, essa mesma humanidade, em praça pública, vai homenageá-los com bustos e honrarias. Lelé era uma pessoa que estava além da época dele. Infelizmente, os lugares em que viveu, as culturas em que trabalhou, não tinham compreensão de toda a dimensão da obra dele para dar os passos que precisava para produzir. Lelé ainda tinha muito para dar. Isso não aconteceu porque foi vítima dos obstáculos. Ele poderia estar aqui se não tivesse tido as contrariedades e os dissabores produzidos no meio em que trabalhava, principalmente desde o fechamento do Centro de Tecnologia da Rede Sarah."
Roberto Pinho, antropólogo

"Era um arquiteto importante, que deixou grande parte da obra em Brasília e na Bahia. Nós éramos amigos, tivemos escritório juntos. É uma pessoa que deixa um buraco, um vazio e uma saudade grande."
Carlos Magalhães, arquiteto

"Ele foi um arquiteto que preservou a necessidade da invenção para melhorar a vida das pessoas. Essa é uma necessidade da arquitetura que, muitas vezes, é esquecida. Construiu obras na cidade grande e também na favela, com economia de meios, buscando sempre recursos naturais. Era uma pessoa contente, simples e amena. A confiança na obra permitia a simplicidade no trato com as pessoas."
Sérgio Magalhães, presidente do IAB

"A emoção é maior pela pessoa do que pelo arquiteto, que era o maior do Brasil até poucas horas atrás. Era simples, afetuoso, brincalhão. Unia a técnica inovadora a uma linguagem formal, original, em que a estética decorria da técnica. Ocupou-se de projetos grandiosos e também de favelas, com o novo conceito de argamassa armada, sem aço. Era um homem preocupado, que levava a sério a responsabilidade social. Pensava que a arquitetura deveria ser boa igualmente para ricos e pobres, tanto para palácios, quanto para favelas. Humanístico como poucos."
José Carlos Coutinho, arquiteto

"O falecimento de João da Gama Filgueiras Lima, o Lelé, se deu no Sarah Salvador, onde Lelé estava sendo cuidado nos últimos dias de vida. Lelé participou do planejamento e da elaboração do projeto que deu origem à Rede Sarah; projetou e supervisionou a construção de todos os hospitais da rede, a partir do Sarah Centro em Brasília. Criou os espaços que permitiram a implantação de uma cultura em medicina de reabilitação, que, por meio de gerações, vem beneficiando milhares de brasileiros. Alguns são honrados com monumentos depois da vida. O Lelé ergueu os seus monumentos em vida e eles são a maior testemunha de seu gênio."
Aloysio Campos da Paz, idealizador da Rede Sarah (Nota)

"João Filgueiras Lima, nosso querido Lelé, conjugou características incomuns na prática profissional, sintetizando em espaço artístico a responsabilidade técnica e social, a indissociabilidade entre concepção e construção, apontando para um futuro possível de autonomia, simplicidade e avanço tecnológico. Deixa a profissão órfã, mas não de luto, pois aponta para um horizonte aberto cheio de possíveis caminhos a trilhar. Envolveu-se pouco com o ensino acadêmico. Mas não importou muito, Lelé é uma escola."
Thiago Andrade, Instituto dos Arquitetos do Brasil-DF (IAB-DF) (Nota)

"Agora, que ele se foi, o elogio — merecido — é unânime. Mas o que me choca, olhando a longa e rica estrada percorrida pelo Lelé arquiteto, é o quanto o Brasil desperdiçou a contribuição enorme que ele ofereceu (por último, uma proposta para o programa Minha Casa Minha Vida, que a presidente aprovou com entusiasmo quando lhe foi apresentado pelo arquiteto, e não deu em nada — Lelé não conseguiu nem mesmo uma nesga de terra em Salvador para montar um módulo...). Isso sem falar que das praças de Salvador, tão bem arrumadas por ele, nenhuma sobreviveu. Ou seja, todo mundo elogia o Lelé, mas... Daí, independentemente da Rede Sarah, presto minha homenagem às passarelas de Salvador, que, estas, passaram definitivamente — tomara! — a fazer parte da paisagem urbana da cidade. E espero que os moços mergulhem no estudo da sua obra, absorvam seu recado e propiciem a frutificação das sementes que ele plantou."
Maria Elisa Costa, arquiteta e filha do urbanista Lúcio Costa

"O Lelé era uma figura rara, tanto como pessoa quanto como arquiteto. Ele deixa uma obra imensa, em vários lugares do Brasil. Era um arquiteto fantástico. Era meu amigo e queria muito ter estado com ele nos últimos momentos (chorando)."
Luís Humberto, fotógrafo e professor aposentado da UnB

"A FAU perdeu um professor emérito. Esse professor foi uma verdadeira luz. Participou da vida acadêmica aqui da universidade, mesmo aposentado. Sempre com muita sensibilidade e respeito ao ser humano."
José Sanchez, diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (FAU/UnB)

"O Lelé era uma pessoa admirável, boníssima, íntegra. Um arquiteto excepcional. Desde jovem, ele revolucionou a construção. Foi uma grande perda."
José Galbinski, diretor do Centro Universitário de Brasília (Uniceub)

"O Brasil perdeu hoje um grande arquiteto e um grande brasileiro. João da Gama Filgueiras Lima, o Lelé, parceiro de mestres como Oscar Niemeyer e Darcy Ribeiro, deixou um legado não só na arquitetura, mas a todos que desejam dar à sua profissão um olhar inovador e voltado aos que mais necessitam. Nossos mais sinceros sentimentos à família e aos amigos. Valeu, Lelé. Foi uma vida bem vivida."
Marta Suplicy, ministra da Cultura

Cronologia


 (Arquivo Pessoal/Reprodução) 
  • 1932 — João da Gama Filgueiras Lima nasce no Rio de Janeiro em 10 de janeiro.
  • 1956 — Forma-se em arquitetura na Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro.
  • 1957 — Muda-se do Rio para Brasília. Vem participar da construção dos primeiros blocos de apartamentos da cidade, na 108 Sul, como arquiteto do IAPB (Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Bancários).
  • 1960 — Casa-se com a arquiteta Alda Rabello Cunha.
  • 1962 — A convite de Darcy Ribeiro, torna-se secretário executivo do Centro de Planejamento (Ceplan) da UnB, centro de tecnologia de construção industrializada e professor da universidade.
  • 1963 — Em viagem pela Europa e pelo Leste Europeu, conhece técnicas de pré-fabricação. Vai à China, Rússia, Alemanha, Polônia e à antiga Tchecoslováquia.
  • 1964 — Lelé e Alda, sua mulher, sofrem grave acidente de carro. Durante internação hospitalar, Lelé conhece Aloysio Campos da Paz.
  • 1965 — Demite-se da UnB com outros 223 professores e funcionários em protesto contra a demissão de outros professores pela ditadura militar.

     (Museu da Casa Brasileira/Reprodução) 


  • 1969 — Lelé visita hospitais e fábrica de móveis hospitalares na Finlândia. Fica impressionado com a tecnologia e o ambiente hospitalar humanizado.
  • 1970 — Monta seu primeiro escritório de arquitetura em Brasília.
  • 1976 — Com o ortopedista Aloysio Campos da Paz e o economista e engenheiro Eduardo Kertész elabora documento que funda o Sistema de Saúde na Área do Aparelho Locomotor, a futura Rede Sarah.
  • 1979 — Começa a desenvolver projetos urbanos em Salvador.
  • 1982 — Desenvolve a fábrica de escolas rurais e equipamentos urbanos pré-fabricados em Abadiânia.
  • 1985 — Com o então prefeito de Salvador, Mário Kertész, e Roberto Pinho, cria a Fábrica de Equipamentos Comunitários (Faec), em Salvador. A Faec funciona entre 1986 e 1988.
     

  • 1988 — Com Lina BoBardi, projeta a reforma do centro histórico de Salvador.
  • 1989 — Anistiado, volta à UnB.
  • 1992 — Implantado o Centro de Tecnologia da Rede Sarah (CTRS) que passa a fabricar desde os elementos dos edifícios até móveis, luminárias e um sistema de ventilação natural capaz de reduzir em cerca de 4ºC a temperatura interna.
  • 1998 — Recebe o prêmio da Bienal Ibero-americana de Arquitetura e Engenharia pelo projeto do hospital da Rede Sarah em Salvador.
  • 1999 — Sofre um infarto e recebe quatro pontes de safena e uma mamária.
  • 2000 — Com Paulo Mendes da Rocha, representa a arquitetura brasileira na Bienal de Veneza.
  • 2001 — Recebe o Grande Prêmio Latino-Americano de Arquitetura da 9ª Bienal Internacional de Arquitetura.
  • 2002 — Recebe o prêmio da Bienal Ibero-Americana de Arquitetura e Engenharia, pelo conjunto da obra.
  • 2005 — Recebe o título de professor emérito da UnB
  • 2013 — Ganha o prêmio Jabuti pelo livro Arquitetura: uma experiência na área da saúde, de João Filgueiras Lima, Lelé, Romano Guerra Editora
  • 2014 — É homenageado pela Bienal de Veneza

 

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