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Escolas adotam livro sobre golpe militar

1964 - O golpe que marcou a ferro uma geração aborda a história do período com liguagem para o público jovem

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postado em 22/05/2014 15:27 / atualizado em 22/05/2014 15:29

O livro 1964 – O golpe que marcou a ferro uma geração (Editora Nova Alexandria, 262 páginas, R$ 37), do jornalista e escritor Barnabé Medeiros Filho, traz um painel do Brasil nos 20 anos que separam a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961, e a explosão de bombas no Pavilhão de Exposições do Riocentro, em 1981. O primeiro evento daria início ao período de instabilidade política que levou ao golpe de 1964. O segundo marca o desmanche final da ditadura, após uma frustrada tentativa dos órgãos de repressão de reverter o processo de democratização.

A obra já foi adotada em 15 escolas de ensino médio e relembra a história da época. O autor escreve em primeira pessoa e conta passagens de sua vida que se mesclam com a história do Brasil, apresentando acontecimentos importantes do período e possíveis razões que levaram a esses fatos. A narrativa é ágil e tem a intenção de atingir o público jovem.

Sobre o autor
O jornalista Barnabé Medeiros Filho foi ativista estudantil e militante de esquerda nos anos 1960 e 1970. Entre 1972 e 1973, esteve um ano e meio preso, período em que passou pelo DO-CODI, DOPS (explicar o que é) Presídio Tiradentes e Casa de Detenção do Carandiru.

TRECHO DO LIVRO

"Parte dos meus companheiros havia chegado à Casa de Detenção do Carandiru um ano antes de mim. Até onde sei, eram todos eles militantes de organizações militaristas, um pessoal 'da pesada' , na classificação dos carcereiros. E era mesmo. Pelo menos do ponto de vista da exigência de respeito à nossa dignidade por parte das autoridades carcerárias, às vezes até com arrogância.

Fernão Guedes, um coronel da Polícia Militar com fama de linha dura, dirigia o presídio. Era rigoroso na disciplina e em nome dela vi presos comuns sendo espancados ou encerrados por 30 dias em celas solitárias, estreitas e escuras. Mas nos tratava bem, com respeito e diálogo, sei lá se por não querer seu presídio envolvido em denúncias no exterior, ou apenas por preconceito de classe social. A maioria de nós, tal como o coronel, era de classe média, com certa cultura e bem relacionados lá fora, enquanto os presos comuns, em sua esmagadora maioria, eram 'uns pobres diabos', gente a quem se precisava 'impor respeito na base da porrada', como ouvi de um carcereiro.

Certo dia, estavam dois presos políticos sentados ao sol, no pátio do Pavilhão 5, quando chegou o coronel Guedes. Os presos comuns que estavam por ali se levantaram todos, como era norma interna: os presos deviam ficar de pé ante o diretor. Os dois políticos continuaram sentados. Foram chamados à administração para se explicar.

– Nós não vamos nos levantar para representante da ditadura – responderam desafiadores.

Pegaram 15 dias de solitária.

Essa história aconteceu antes da minha chegada e foi uma das primeiras coisas que os veteranos do Carandiru me contaram, acrescentando seu epílogo. Como os presos políticos, em desagravo aos companheiros punidos, ameaçassem continuar sentados na presença do diretor, foi estabelecido um acordo de paz. Sempre que o coronel fosse a algum lugar onde houvesse presos políticos e comuns, nós seríamos avisados de sua chegada com alguma antecedência e poderíamos ficar de pé, disfarçadamente, para recebê-lo conforme a regra, sem o gesto subserviente de levantar-se à sua chegada. Tratei de ficar atento, que eu não era besta de cometer nenhum dos dois delitos: receber o diretor sentado, ou levantar-me diante do 'representante da ditadura'."

Leia outros trechos do livro no site.
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