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Diferença milenar

Um dos maiores problemas no mundo hoje, a desigualdade social acompanha a humanidade há cerca de 14 mil anos. A revista Science lança edição especial em que especialistas debatem o tema

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postado em 23/05/2014 13:10 / atualizado em 23/05/2014 13:11

Vilhena Soares

A desigualdade é uma marca do mundo atual. Em um planeta com 7 bilhões de pessoas, 1,5 bilhão delas vivem com menos de US$ 1 por dia, o que as coloca abaixo da linha da pobreza, segundo critério estabelecido pelo Banco Mundial. A comparação pode ser feita também entre países. Em 10 nações africanas, o Produto Interno Bruto (PIB) por cada cidadão é menos que 10% do PIB per capita dos Estados Unidos. Dados que denunciam a disparidade não faltam. Saúde infantil, acesso a serviços como saneamento básico, expectativa de vida… Em alguns lugares, sobra; em outros, falta. Qual a origem da diferença nas condições de vida entre os seres humanos? Ela está diminuindo? Que fatores ajudam a mantê-la?

Uma das mais renomadas revistas científicas do mundo, a Science traz em sua edição de hoje uma série de artigos e estudos que buscam responder essas questões. E as conclusões não são muito animadoras. A distância entre ricos e pobres tem aumentado na maioria dos lugares (leia mais ao lado), e pesquisas apontam também que o problema acompanha a humanidade há pelo menos 14,5 mil anos.

Em uma das seções da edição especial da revista, é destacado o trabalho de antropólogos e arqueólogos que, literalmente, desenterram provas de que há muito tempo a divisão de bens entre os homens não é justa. Durante muito tempo, acreditou-se que o problema era resultado da introdução da agricultura, há 10,5 mil anos. A divisão desigual de terras teria levado a formas mais ou menos confortáveis de vida. No entanto, escavações mostram indícios de disparidades já entre os natufianos, povo caçador-coletor que viveu entre 11 mil e 15 mil anos atrás na região onde hoje ficam a Palestina e o sul da Síria.

As evidências estavam em covas que datam entre 12.800 e 14.500 anos. Enquanto algumas delas abrigavam pessoas que haviam sido enterradas com joias e ornamentos, outras não apresentavam esse tipo de enfeite. “Temos alguns sepultamentos muito ricos também em outros sítios arqueológicos que indicam um importante controle sobre o trabalho e a riqueza por parte de algumas famílias daquela época”, explica Brian Hayden, arqueólogo da Simon Fraser University e pesquisador do tema.
 
Controle
Para Anna Prentiss, professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Montana, essa antiga desigualdade pode ser explicada pela prática de caça e pela coleta realizada pelos natufianos. “A distinção entre coletores e agricultores vai ficando mais clara para nós. Na prática de buscar plantas e caçar espécies de animais também pode ter havido o acúmulo de bens. É preciso pensar mais sobre a questão, olhando para o controle da produção de alimentos, e não simplesmente tratar (o surgimento da desigualdade) como uma mudança da coleta para a agricultura”, avalia.

A especialista acredita que essas distinções pode ter gerado grandes problemas para as sociedades ao longo da história. “Em muitos casos, agiu-se rapidamente para eliminar a desigualdade, mas muitas vezes houve uma quebra significativa das estruturas de poder, o que pode ter contribuído para o colapso de civilizações como os maias”, acrescenta.

Na opinião de Brian Hayden, a distinção das sociedades em “classes” distintas, mesmo sendo antiga, pode ser podada, porém seria muito difícil extingui-la. “A desigualdade é parte da estrutura de sociedades complexas, e eu acho impossível eliminá-la completamente. Contudo, os excessos podem ser controlados”, acredita. (Colaborou Humberto Rezende)

Para saber mais

Utopia alcançada

A maior ferramenta de combate à desigualdade não foi pensada em prédios governamentais nem nas sedes das grandes empresas de tecnologia. Na verdade, foi gerada em pleno Deserto do Kalahari, no sul da África, onde grupos nômades, que vivem de forma semelhante aos ancestrais caçadores-coletores, conseguiram eliminar totalmente os privilégios entre os membros.

Segundo especialistas que estudaram esses povos, como os ju’hoansi e os kung, o feito é fruto de rígidas regras sociais, que garantem a divisão de bens e reprimem atitudes de ostentação. Um caçador, por exemplo, nunca deve se gabar. Diz sempre que pegou uma pequena quantidade de comida, mesmo que seja muita. “Você precisa se diminuir”, conta, em entrevista à Science, Christopher Boehm, antropólogo cultural da Universidade do Sul da Califórnia. Outra prática comum é a troca de flechas entre os caçadores antes de uma incursão. Depois, cabe ao dono do instrumento, e não a quem realizou a caça, decidir como o alimento conseguido será dividido.

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