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Na trilha do DNA

Estudos continuam apontando a influência genética sobre as escolhas humanas, como a da profissão e do parceiro romântico. Os especialistas, contudo, lembram que fatores sociais e psicológicos também são cruciais nessas decisões

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postado em 26/05/2014 08:00

Isabela de Oliveira /

Volte o ponteiro do relógio e tente se lembrar das perguntas que seus pais e professores lhe faziam na infância. A lista será grande, mas a clássica “o que você vai ser quando crescer?” certamente estará no repertório. Essa parece uma questão impossível de ser respondida com certeza, pertencente às incertezas do destino. No entanto, uma linha de pesquisas busca demonstrar que o roteiro da vida pode ser lido com antecedência, ou pelo menos deduzido, por estar impresso no genoma.

O tema é controverso e rende acalorados debates acadêmicos, há seis décadas, desde que
a estrutura do DNA foi elucidada. Há cientistas, contudo, que apontam constantemente evidências de que a influência da herança genética permeia quase todos os grandes eventos da vida, inclusive relacionamentos afetivos e escolhas profissionais. Essa explicação biológica, entretanto, não significa que o futuro tenha sido selado na concepção. Até onde a ciência sabe, essa influência sozinha não explica a complexidade do comportamento humano.

Uma das tentativas mais recentes foi publicada na conceituada revista Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas). O estudo conduzido por Benjamin Domingue, pesquisador da Universidade do Colorado e veterano no assunto, indica que até mesmo a paixão é determinada, em parte, por influências genéticas. “Especificamente, esse domínio possui um terço da força que o nível educacional exerce no sucesso dos relacionamentos amorosos”, considera o autor.

O trabalho envolveu genética, psicologia e estatística. Essas ferramentas permitiram a comparação do genoma de 825 casais norte-americanos. O resultado foi inesperado: os casados possuem DNA mais parecido do que dois indivíduos aleatórios. Domingue concluiu que os casais se atraem, de certa forma, pela genética. “Mas o ambiente em que estão inseridos ainda é mais forte. Não temos explicações para esse fenômeno, mas eu acredito que as pessoas são propensas a escolher seus parceiros com base em genótipos, como a altura, por exemplo”, especula. Ou seja, talvez pessoas altas sejam atraídas para possíveis cônjuges que possuam essa mesma característica.

Entretanto, especialistas que não participaram do estudo acreditam que as coisas não acontecem bem assim. “O trabalho foi feito com um grupo restrito de pessoas brancas, não hispânicas, e assim é claro que eles vão ser geneticamente semelhantes”, aponta Lara Velasco, coordenadora do Setor de Biologia Molecular do Laboratório Sabin. “Se esse estudo fosse feito no Brasil, como esses resultados seriam? Somos miscigenados. Nesse sentido, acredito que os dados podem ser tendenciosos”. Velasco, contudo, acredita que a pesquisa pode ser o ponto de partida para mais análises dessa natureza. “Mesmo assim, eu acredito que a genética não é determinante. Ela pode influenciar com 30%, mas como o próprio estudo mostrou, outros fatores pesam mais”, acrescenta a especialista.

Trabalho

Outros estudos vão além ao afirmar que certos talentos e vocação para profissões podem ser geneticamente herdados. Publicada este mês na revista Personality and Individual Differences, uma pesquisa sul-coreana liderada por Yoon-Mi Hur, da Universidade de Mokpo, investigou as aptidões para arte e ciência de 338 irmãos gêmeos adultos. Setenta e nove deles eram monozigóticos (idênticos) e 90 dizigóticos (fraternais) do mesmo sexo. Os fatores ambientais eram iguais para idênticos ou não, e a única variante era a genética. Hur descobriu que a sensibilidade artística e científica era mais comum entre os irmãos que compartilhavam 100% do DNA.

“Encontramos uma correlação fenotípica com as capacidades artísticas e científicas, e a maior parte dessa semelhança (70%) ocorreu quando havia genes iguais”, conta o pesquisador. “As experiências individuais que não são compartilhadas pelos gêmeos contribuíram com os 30% restantes. Pode ser que os idênticos tendam a ser ambos sensíveis para arte e ciência, mas também pode ser que um seja e influencie todo o ambiente, incentivando o irmão”, pondera o autor.

Um exemplo que pode revelar ambas influências é o da atriz Luisa Arraes, filha do cineasta Guel Arraes e da atriz Virgínia Cavendish. “É difícil entender qual influência pesa mais, principalmente quando conhecemos essa vida (do teatro) desde pequenos. Eu sempre estava brincando nas peças e até fazia participações. Aos 6 anos, tomei a iniciativa de pedir algumas falas em uma peça do meu pai, e consegui após muita insistência. Eu dormia nos camarins. Não sei o que influencia mais, só sei que atuando eu me encontro”, diz Luisa, atualmente em cartaz com o espetáculo infantil Pedro Malazarte e a arara gigante, no Rio de Janeiro.

Expressão
Para Ana Maria Stingel, professora doutora do Departamento de Psicologia da Pontifícia Universidade do Rio de Janeiro (PUC-RJ), embora exista uma herança genética, ela dependerá do ambiente para se expressar. Stingel cita a história do neurocientista norte-americano James Fallon, professor de psiquiatria e comportamento humano da Universidade da Califórnia. Ele pesquisava assassinos em série à procura de uma relação entre os padrões anatômicos dos cérebros dos detentos e comportamento violento.

Ao analisar tomografias dos serial killers, Fallon encontrou uma que mostrava baixa atividade em certas áreas dos lobos frontal e temporal associadas à empatia, moralidade e autocontrole. Ele surpreendeu-se ao perceber que o cérebro que aparecia nas imagens era o dele próprio. Após examinar o próprio DNA, o neurocientista concluiu que realmente possuía genes alelos associados à ausência de empatia e ao comportamento violento, mostrando que ele era mais “parecido” com um psicopata do que imaginava. “Talvez ele tivesse o perfil, mas o meio social não expressou essas características. Outro bom exemplo é o das crianças com síndrome de Down, condição caracterizada por falhas genéticas. Apesar das dificuldades, se elas forem incentivadas, podem virar adultos que estudam e trabalham. A genética não é uma determinante sine qua non.”

Público ou privado
Uma meta-análise produzida na University of Jyväskylä, na Finlândia, publicada em agosto de 2013 no periódico Labour Economics, investigou 20.015 gêmeos para descobrir se a genética exerce influência na escolha pelo setor público ou privado. Os resultados obtidos por Terhi Maczulskij revelaram que fatores genéticos influenciaram 34% mulheres e 40% dos homens a optarem pelo serviço público. “Um mecanismo que pode influenciar a relação entre genes e meio ambiente é o nível educacional. É possível que pais que receberam boa educação e que valorizem ambientes estáveis criem seus filhos em um meio que estimula a inteligência e qualidade de vida. Embora possa preferir a estabilidade do serviço público, essa criança também poderá desejar trabalhar em um ambiente saudável que esteja inserido no setor privado”, propõe Maczulskij no estudo.

Duas perguntas para

Rodrigo Augusto Prando, sociólogo e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Sentir interesse por uma pessoa,
apaixonar-se, é um comportamento subjetivo?

Não é tanto quanto se imagina. Somos seres compostos por fatores biológicos, psicológicos e sociais. Algumas pesquisas já mostraram que o interesse por uma pessoa é influenciado pelo cheiro, pelos feromônios, que podem despertar a lembrança dos pais. Esse é o lado biológico. O interesse pode ter influência psicológica, e é só a gente lembrar as propostas de Freud. A sociologia entende que os ambientes que frequentamos nos aproximam de pessoas do mesmo grupo social. Essa coisa a menina pobre se envolver com o herdeiro de uma fortuna é estatisticamente irrrelevante e pouco provável.

Cada vez mais pesquisas sugerem que o comportamento humano
é determinado, pelo menos em parte, pela genética. Há algum risco nisso?

É uma questão relevante que nos faz entrar em discussões difíceis. Se for constatado que um estuprador carrega genes particulares que teoricamente induzem esse comportamento, poderá ser julgado pelo crime ou diagnosticado como uma pessoa doente? Se transformarmos todas as sensações humanas em aspectos biológicos, perdemos o conceito de responsabilidade sobre os próprios atos. Na minha opinião, esse é o perigo.
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