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Correio Braziliense

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Utopia viva de Lelé

O mestre da arquitetura, que morreu na última quarta-feira, fez de Abadiânia um canteiro para experiências de transformar relações sociais por meio de obras inclusivas. Muitas construções resistem ao tempo, mas a política terminou com o sonho

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postado em 26/05/2014 09:00

Conceição Freitas

Uma das obras feitas pelo engenheiro-arquiteto, a escola rural de Varginha ficou pronta em 40 dias (Zuleika de Souza/CB/D.A Press) 
Uma das obras feitas pelo engenheiro-arquiteto, a escola rural de Varginha ficou pronta em 40 dias


Foi uma “intervenção romântica”, Lelé dizia sobre a experiência em Abadiânia. Também considerava a sua melhor experiência (em O que é ser arquiteto, de Cynara Menezes, Editora Record). O arquiteto João da Gama Filgueiras Lima montou uma fabriqueta na cidadezinha à margem da BR-060, a 130km de Brasília. Povoado de não mais que 5 mil habitantes que recebeu um morador comprometido com as causas sociais daquele tempo, o dominicano Frei Mateus Rocha.

Reitor da Universidade de Brasília (UnB) por quatro meses, e depois na gestão de Anísio Teixeira, o religioso foi afastado pelo regime militar. Decidiu se retirar para um sítio em Abadiânia. A forte amizade com Lelé, cultivada nos tempos de UnB, levou os dois a se encontrarem nas terras goianas em fins de semana de muita conversa, sonhos e lamentos pelo que ocorria no país.

Com a posse do prefeito Vander Almada, amigo de frei Mateus, juntaram-se as utopias do dominicano identificado com a Teologia da Libertação (os dominicanos foram a ordem religiosa sobre quem a ditadura investiu mais ferozmente) com o ímpeto do então comunista Lelé. Nascia a ideia de se criar um Plano Diretor de Abadiânia para formular projetos de desenvolvimento da região.

Antes de começarem as obras em Abadiânia, Lelé já havia deixado marcas na cidade. Também amigo de frei Mateus, o paulista João Benko tinha montado um rancho de palha à margem da BR-060 para a venda de mudas de plantas. Chamava-se Jerivá. Benko queria transformar o negócio em lanchonete e precisava alguém que desenhasse uma estrutura melhor. A ideia veio do frei: “Eu tenho um amigo. Ele vem aqui sempre”. Era Lelé.

O arquiteto quis saber que tipo de material de construção havia nas proximidades. Tijolo, informaram. “Então, vamos de tijolo.” As colunas que sustentavam o prédio eram de tijolinho aparente — tecnologia que os operários da cidade desconheciam. Lelé se dispôs a ensinar os peões de obras a subir as colunas e a fazer a armação do teto, de madeira, coberta com telha de amianto. Gerente do Jerivá, Antônio Fortunato, 52 anos, guarda Lelé entre suas melhores lembranças da adolescência. “Ele não diferenciava as pessoas. Ele mesmo montou as colunas e ensinou a gente a continuar a obra.” O garoto Fortunato teve outra inesquecível experiência do período: frei Mateus deu-lhe as primeiras calças compridas: “Fiquei radiante!”.

Ponte

Por telefone, de sua casa em Goiânia, o empresário João Benko, 69 anos, rememorou — em um relato entremeado de choro — a convivência curta, porém intensa com Lelé. Quatro anos depois do rápido contato no Jerivá, os dois voltaram se encontrar na construção da ponte sobre o Córrego Varginha. Era o instrumento que uniria as duas regiões importantes do muncípio. João Benko se juntou a Lelé e ao gerente das obras João Evangelista dos Santos, o João da Irene, hoje com 68 anos.

A essa altura, a fabriqueta de pré-moldados de Abadiânia já funcionava freneticamente. O pontilhão sobre o Varginha foi feito com a força dos braços de Lelé, João da Irene, João Benko e operários ajudantes. “Entrávamos no córrego de calção (ao telefone, Benko chora) para desviar as águas. A ponte foi feita só no cimento, pedra e brita (pré-moldados). E o mais importante era que Lelé não se apropriava do conhecimento: ele fazia questão de passar adiante para que as pessoas apreendessem.”

A ponte não existe mais. Foi substituída por outra. Antes, a estrutura suportava até 30 toneladas e, com o Lago Corumbá, ao qual dá acesso, precisou ser substituída por outra, mais resistente. “Lelé fazia obras muito baratas e isso incomodava muito”, comenta João Benko.

Foi nesse período que o arquiteto teve um infarto. “Ele dormiu lá em casa e passou a noite andando pra cá e pra lá. Voltou pra Brasília e tempos depois me disse que naquela noite ele estava tendo um infarto.” Mas o coração não aquietou o arquiteto.

A fabriqueta de pré-moldados ocupava certa de 30 operários, conta João da Irene. “Se você chegasse lá a qualquer hora e olhasse para aqueles homens, não saberia dizer quem era peão e quem era arquiteto. Lelé era carpinteiro, era armador, fazia de tudo. E, muitas vezes, íamos dormir lá pelas duas da manhã. A mulher (Irene) fazia um mexido de arroz e ovo e ele comia sem reclamar.”

A fabriqueta teve tempo de construir algumas escolas em madeira, uma escola rural em Varginha — em argamassa armada —, hoje desativada e modificada, e um galpão para a feira de Abadiânia, também abandonada. A estrutura ainda se mantém intacta, mas agora serve de moradia para sem-teto.

A fabriqueta, a escola e o galpão da feira foram montados em cerca de 40 dias cada. Na fabriqueta, os operários preparavam as peças a partir de formas de aço cedidas pela Gravia, empresa de Brasília. Uma armação de tela de aço e ferro, untada com óleo, ia para dentro da fôrma de aço que recebia a mistura de duas partes de areia por uma de cimento. Ficava mergulhada em água durante 24 horas. Depois, era retirada, já inteiriça, e colocada em um tanque para um banho de uma semana. “Se não fosse assim, a peça trincava, porque era muito forte”, explica João da Irene, o único guardião da memória de toda a experiência da fabriqueta em Abadiânia.
Acabou assim como começou


João da Irene, parceiro do mestre, em frente à ponte atual, mudada para aguentar mais peso (Zuleika de Souza/CB/D.A Press) 
João da Irene, parceiro do mestre, em frente à ponte atual, mudada para aguentar mais peso


Outra importante testemunha da “intervenção romântica”, o então prefeito Vander Almada, 71 anos, morreu duas quartas-feiras antes de Lelé, em 7 de maio, vítima de falência múltipla dos órgãos. Vander foi prefeito de Abadiânia por dois mandatos. No fim dos anos 1990, Lêda Almada, a viúva, assumiu a prefeitura. O casal teve três filhas. A mais nova delas, Luana, deu ao filho o nome de Mateus, em homenagem ao frei dominicano.

O religioso morreu em acidente de trânsito, na BR-060, próximo a Goiânia, em 1985. Quando idealizou a Univesidade de Brasília, Darcy Ribeiro chamou o amigo Frei Mateus para organizar o Instituto de Teologia da UnB (que não chegou a funcionar e cujo prédio, de Oscar Niemeyer, é ocupado pela Secretaria de Educação do DF).

Numa das últimas vezes em que falou a arquitetos, no projeto Arq. Futuro (São Paulo/2011), Lelé realçou a experiência de Abadiânia, embora tão modesta e interrompida pelo fim do mandato do prefeito Vander Almada. O projeto, que teve o apoio da Universidade Federal de Goiás, pretendia construir postos de saúde e formar operários na tecnologia do pré-fabricado.

Quando construía o galpão da feira, Lelé recebeu a visita do então governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, que tinha sido convencido pelo vice, Darcy Ribeiro, a visitar uma utópica experiência de construção rápida de escolas e demais equipamentos urbanos no sertão de Goiás. Quem estava lá naquele dia lembra-se de que ventava demais. Brizola veio e levou Lelé.

Com o fim do mandato de Almada, o novo prefeito desprezou a experiência e vendeu as fôrmas para a cidade de Goiás Velho. Na antiga capital de Goiás, João da Irene montou uma escola e um galpão de agropecuária. Depois, ergueu uma grande escola de Ceilândia, cujo nome e endereço ele não se lembra. E esteve em Itapavi (SP) para montar mais uma escola.

Depois, a experiência utópica de Abadiânia foi guardada na gaveta do esquecimento. 
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