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Cálcio com equilíbrio

A suplementação do mineral, questionada em 2008, tem eficiência aprovada em novas pesquisas. A recomendação da classe médica é receitá-lo com prudência

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postado em 26/05/2014 13:00

Lilian Monteiro

Punta del Este (Uruguai) e Belo Horizonte — O combate à osteoporose, doença silenciosa tão perigosa quanto a hipertensão e que pode progredir durante anos sem sintomas, diminuindo a força dos ossos até que ocorra a fratura, exige níveis de cálcio no organismo. É urgente, porém, definir qual a quantidade do mineral que provoca esse benefício. A discussão foi provocada por Mark Bolland há quatro anos e foi tema do Congresso da Liga Panamericana de Associações de Reumatologia (Panlar), em Punta del Este.

Bolland, pesquisador da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, indicou em 2008 o risco de a ingestão de cálcio levar a doenças cardiovasculares (infarto do miocárdio) e vascular cerebral. Desde então, dúvida e insegurança pairam sobre médicos e pacientes. Pesquisas recentes, no entanto, mostram resultados contrários, como a pesquisa Caifos, publicada em março no Journal of Boneand Mineral Research.

“Nela, os médicos analisaram 700 mulheres que tomaram cálcio e outras 700 com placebo. As taxas de mortalidade por doença cardiovascular foram similares. Não houve aumento de depósito de cálcio na ultrassonografia da carótida nem aumento da incidência de infarto do miocárdio”, explica Sebastião Cezar Radominski, presidente da Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteometabolismo (Abrasso) e chefe do Serviço de Reumatologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná.

Outro estudo destacado pelo especialista foi o de Framingham, publicado em 2012 no American Journal of Nutrition.  A pesquisa também tem como resultado o não aumento da mortalidade em quem consome o suplemento de cálcio na quantidade de até 1.200mg diárias. “Hoje em dia, estamos com problemas na hora de receitá-lo. Pacientes não querem tomar, alguns cardiologistas dizem para não usá-lo. No entanto, os estudos (de Bolland) não foram desenhados para avaliar o desfecho cardiovascular e, além disso, o número de pacientes era pequeno. Criou-se medo do suplemento”, defendeu Randominski durante a palestra no Panlar.

Na visão de Márcio Passini Gonçalves de Souza, ortopedista do grupo de doenças osteometabólicas do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FC/FMUSP), o estudo de Bolland coloca em discussão a suplementação medicamentosa de cálcio e não o fornecimento do mineral pela dieta, mas há dificuldade em considerar que eles podem ter efeitos distintos. “Pessoalmente, não consigo distinguir um ‘cálcio bom’ (da dieta) e um ‘cálcio ruim’ (da suplementação). O elemento químico cálcio é único e indistinguível. Deveríamos supor que, na dieta, o cálcio é acompanhado de outras substâncias que favoreceriam sua função e que, nos suplementos, poderia ser acompanhado de substâncias que prejudicariam? Não há evidências”, critica.

O ortopedista reforça que o cálcio é sempre o mesmo elemento químico. Poderia haver na alimentação substâncias que favoreçam a ação adequada do mineral no organismo humano, e nos suplementos alimentares substâncias que prejudiquem essa ação. “Mas isso, por enquanto, é suposição repetida de autor para autor, sem confirmação científica séria”, pondera. “O trabalho de Bolland pecou pela imprecisão científica. No entanto, foi publicado numa revista científica muito séria. O contraditório sempre deve ser explorado. Havendo fumaça, sempre pode haver fogo. Deve ser discutido, explorado e comprovado”, alega. O que já se sabe, segundo ele, é que a suplementação de cálcio pode aumentar transitoriamente os níveis do mineral no sangue. “Isso poderia provocar arritmias em pessoas sujeitas à arritmia cardíaca. Esse problema pode ocorrer devido à maior biodisponibilidade de cálcio nos suplementos”, esclarece.

Preferência ao natural

A ingestão de cálcio sempre foi incluída no sistema terapêutico e entra no rol das chamadas medidas não medicamentosas, como parar de fumar e praticar atividades físicas. O Instituto de Medicina de Washington recomenda, para mulheres a partir dos 51 anos, 1.200mg de cálcio diários para uma boa saúde óssea e geral. “Nem todos os pacientes conseguem todo o cálcio necessário por meio da alimentação. Alguns, inclusive, lidam com a intolerância à lactose. Há casos em que é inevitável ingerir os dois por meio da dieta e do suplemento. Por isso, hoje, antes de receitarmos o cálcio, reforçamos que a ingestão natural precisa ser um hábito alimentar”, detalha o reumatologista Sebastião Cezar Radominski, chefe do Serviço de Reumatologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR).

Um copo de leite tem 300mg (mesmo o desnatado) de cálcio, um iogurte light ou diet, 400mg. “Então, se a pessoa toma dois iogurtes e um copo de leite diariamente, ela não tem de ingerir suplemento. Se gosta de queijo, duas fatias têm 300mg”, complementa. De acordo com o reumatologista, o importante é receitar o medicamento com equilíbrio. “Vemos como o paciente está em termos de vitamina D e cálcio. Se ele ingere 600mg de cálcio pela dieta, passo um comprimido de 500mg para chegar lá (nos 1.200mg). Antes, a prática era dois compridos de 500mg para todo mundo, independentemente da dieta. Hoje, não. Primeiro, estimulamos o paciente a consumir cálcio natural. Se ele não atingir, tem de complementar.”

O mineral não é importante apenas para evitar a osteoporose, mas é necessário para todo o organismo. “Para o coração bater, é preciso cálcio; para a fígado fazer a metabolização, vai cálcio. Vários órgãos usam o mineral”, diz Radominski. Ele enfatiza que as mudanças de orientação médica são muito comuns. “A medicina é uma ciência de verdades passageiras. A partir de um estudo, outros médicos fazem outras pesquisas e novos resultados surgem. No caso do suplemento do cálcio, novos trabalhos mostraram que o índice cardiovascular foi o mesmo, contrariando Bolland.”

* A repórter viajou a convite da AR: Juntos por Esta Causa e da Panlar – Liga Panamericana das Associações de Reumatologia

Trabalhos polêmicos
O estudo de Mark Bolland publicado em 2008 foi “Eventos cardiovasculares em mulheres idosas saudáveis recebendo suplementação de cálcio: estudo randomizado controlado”. Em 2010, ele publicou uma metanálise sobre os “efeitos da suplementação de cálcio no risco de infarto do miocárdio e eventos cardiovasculares”. Como foi muito criticado por não levar em consideração a suplementação de vitamina D, publicou em 2011 nova metanálise sobre “suplementos de cálcio, com e sem vitamina D e risco de eventos cardiovasculares: reanálise e metanálise, de acesso limitado, aos dados do Women’s Health Initiative”. Nesses estudos, os autores encontraram aumento da incidência de distúrbios coronarianos (infarte) e cérebro-vasculares (derrame) em mulheres do estudo WHI.

Nova molécula
No Congresso da Liga Panamericana das Associações de Reumatologia foram debatidos também os efeitos de uma nova molécula, a esclerostina. Quando inibida, ela permite a reconstrução do osso. “Alguns pesquisadores identificaram um anticorpo que inibe a esclerostina, que é o freio do osteoblasto (célula que produz osso). É mais uma perspectiva de ela se tornar um novo remédio formador de osso. Esse remédio está em estudo em fase três, de pré-aprovação. Terminada essa etapa, será submetido à publicação e, depois, à aprovação das agências reguladoras, como a Food and Drugs Administration, nos Estados Unidos; e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no Brasil”, diz Sebastião Cezar Radominski. Oitocentos pacientes brasileiros participam desse teste, previsto para durar dois anos.

"Para o coração bater, é preciso cálcio; para a fígado fazer a metabolização, vai cálcio. Vários órgãos usam o mineral”


Sebastião Cezar Radominski,
reumatologista

 

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