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A difícil luta contra o álcool

Além das dificuldades no tratamento e na prevenção, vários males psicológicos e físicos acompanham os dependentes da bebida. Nesse caso, familiares e amigos são essenciais no combate ao vício, ainda um desafio para os especialistas

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postado em 27/05/2014 12:00 / atualizado em 27/05/2014 10:35

Adriana Bernardes

O uso, o abuso ou a dependência do álcool estão associados a cerca de 60 tipos de doenças e lesões. Vão desde cirrose hepática, câncer de boca e de mama e aborto espontâneo a quedas, afogamentos e homicídios. Abandonar o vício é um desafio para dependentes e familiares. Somente de 10% a 30% dos que buscam ajuda conseguem ficar sóbrios. O tempo de recuperação varia bastante. Enquanto uns conseguem ficar sóbrios na primeira tentativa, outros sofrem com as constantes recaídas e precisam recorrer à reabilitação.

Especialistas explicam que não existe cura para a dependência química, apenas tratamento. A gerente do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas III (Caps-Ad III) da Rodoviária do Plano Piloto, Maria Garrido, revela que a abordagem mais eficaz é a biopsicossocial, que leva em conta o indivíduo como um todo — família, trabalho, atividades de interesse e meio social no qual está inserido. “A crença de que a internação resolve é uma ilusão. O primeiro passo é o paciente reconhecer que está adoecido e procurar ajuda. Começa, aí, um longo caminho a percorrer”, explica.

Nos Caps, o atendimento é multidisciplinar. O doente é avaliado por clínicos, psicólogos e psiquiatras, que identificam a necessidade de uso de medicação para tratar as consequências pelos exageros da bebida. “Às vezes, a pessoa chega desidratada ou com pressão alta, por exemplo. O primeiro passo é a desintoxicação, feita em um hospital quando o caso é mais grave ou nos Caps-Ad III para intoxicações leves. Após esse processo, a pessoa passa a ser acompanhada por uma equipe interdisciplinar”, detalha a especialista.

Na edição de ontem, o Correio mostrou que, no Distrito Federal, das 100,5 mil pessoas atendidas nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) no ano passado, 80,4 mil (80%) têm problemas exclusivamente com a bebida. Além disso, fatores genéticos explicam quase metade das vulnerabilidades que levam ao consumo abusivo. Segundo Arthur Guerra de Andrade, psiquiatra, especialista em dependência química e presidente executivo do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), os filhos de alcoolistas têm quatro vezes mais risco de desenvolver o alcoolismo mesmo se forem criados por famílias sem dependentes (leia Três perguntas para).

Gratidão
Uma das principais dificuldades é o viciado se reconhecer doente. “Sempre a gente escuta o discurso 'eu paro quando eu quiser'. Mas uma das dependências bastante difíceis de serem tratadas é justamente essa. É um processo lento”, afirma Maria Garrido. Com Pedro (nome fictício) foi assim. Ele bebeu durante quase quatro décadas. Nesse tempo, perdeu a mulher, vítima de um ataque cardíaco, e o filho mais velho, também alcoólatra e usuário de drogas. O rapaz morreu com 30 anos.

Pedro conta que, após a morte da companheira, há 15 anos, perdeu completamente o controle. Depois, morreu o filho mais velho. Bebia até durante o expediente e, nos últimos anos, vivia embriagado. “Já acordava e tomava uma para acordar. Aí, passava o dia inteiro assim. Andava com uma garrafa debaixo do braço. Há dois anos, a minha família me internou. Na época, fiquei com muita raiva deles. Só pensava besteira, hoje, sou grato. É maravilhoso estar sóbrio. Agora, estou vivendo a vida”, comemora.

Aposentado, Pedro não nega que ainda sente vontade de beber. Mas diz que tira forças para se manter sóbrio por meio do filho de 25 anos. “Pensei bem e percebi que agora somos só nós dois nessa vida. Estava dando mau exemplo a ele”, finaliza.

Três perguntas para

Arthur Guerra de Andrade, psiquiatra, especialista em dependência química e presidente executivo do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa)

O que é o consumo abusivo de álcool?
O abuso de álcool é caracterizado por problemas repetidos decorrentes do uso em pelo menos uma das quatro áreas relacionadas ao viver: esferas social, interpessoal e legal e problemas ocupacionais. Ou ainda pela persistência do uso em situações perigosas (como beber e dirigir). Isso está definido pela 4ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Contudo, não pouco frequente, o termo “uso abusivo” é utilizado para indicar um uso pesado e mais problemático, que não necessariamente está associado a transtornos do álcool.

Como a família deve agir?
Muitas pessoas que apresentam problemas com o álcool acabam negando ou minimizando o problema e só se dão conta disso quando a dependência está instalada. A família é peça-chave tanto na prevenção do uso nocivo do álcool quanto em casos em que o problema está instalado. Inclusive não são poucas as vezes em que o tratamento começa pela família, principalmente porque o usuário de álcool não aceita seu problema, não reconhece que o uso de bebidas alcoólicas traz consequências negativas ou está desmotivado para buscar ajuda. Um acompanhamento específico e dirigido para os familiares é essencial para que possam compreender a doença e seus desdobramentos e, posteriormente, receber orientação adequada sobre a melhor forma de ajudar o ente querido e a si mesmo.

Como fazer isso?
Há algumas orientações gerais. Mas, enquanto algumas pessoas poderão se beneficiar delas, em outras, podem não surtir nenhum efeito. Por isso, o ideal é que se busque ajuda com um profissional da saúde especializado para obter melhores orientações. O fundamental é fazer uma aproximação afetuosa e amiga, com respeito pela pessoa, sem acusá-la ou culpá-la por seu comportamento relacionado ao uso do álcool. Uma abordagem acusatória leva a pessoa a reforçar as defesas e a negar que esteja enfrentando problemas.

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QNM 17. AE Central
Ceilândia

CAPs-Ad
Quadra 312, Bloco H, Casa 12
Santa Maria

CAPs-Ad
Rodoviária do Plano Piloto
(Edifício do Touring)
Plano Piloto

CAPs-Ad
Quadra 378, Área Especial,
Del Lago
Itapoã

CAPs-Adi (infanto-juvenil)
QNF 24, AE
Taguatinga

CAPs-Ad
QS 107, Conjunto 8, Lotes 3 e 4
Samambaia

CAPs-Adi (infanto-juvenil)
714/715 Norte, Bloco C,
lojas 1, 2 e 3
Asa Norte

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