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Correio Braziliense

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Sem riscos durante a Copa

A grande circulação de pessoas no Mundial aumenta as chances de disseminação de micro-organismos causadores de doenças como a gripe suína e a poliomielite. Especialistas recomendam cuidados para evitar as contaminações

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postado em 27/05/2014 12:00

Luciane Evans

 
 

Belo Horizonte — Além do entusiasmo e das críticas severas, a Copa do Mundo no Brasil traz a reboque uma preocupação em tom de alerta para a saúde pública. Com a vinda de cerca de 500 mil estrangeiros para o país, doenças com pouca circulação em território nacional podem aparecer com mais intensidade, como o sarampo e as influenzas, principalmente a H1N1, a conhecida gripe suína. As enfermidades inexistentes aqui — o ebola, por exemplo — também demandam vigilância. Os especialistas, porém, recomendam cautela. Eles reconhecem o risco de contaminação, mas acreditam não haver motivos para pânico.

Serão 3,7 milhões de pessoas, entre turistas, brasileiros e estrangeiros, circulando pelas cidades sedes durante o Mundial. Segundo médicos, quanto maior a circulação de pessoas, maior a possibilidade da presença de vírus e de pessoas que não estão com os cuidados de saúde em dia. Um levantamento do Ambulatório do Viajante do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), por exemplo, indica que 48% dos adultos viajantes atendidos na unidade em Belo Horizonte não têm situação vacinal regularizada.

Coordenadora do ambulatório, Marise Fonseca destaca que, para aqueles que vão para as regiões Norte e Nordeste, é bom estar atento à febre amarela, à malária e à leishmaniose. Para a primeira, há vacina. “No caso das outras, é bom tomar cuidado com picadas de inseto. Nas proximidades da floresta amazônica, é recomendável proteger a pele, usar calçados próprios e roupas claras, já que as escuras atraem insetos”, diz. Marise ressalta que os efeitos negativos da exposição aos patógenos podem surgir, inclusive, depois da volta para casa. “Se for malária, mesmo depois de três meses, a pessoa pode ter febre. É bom estar atento e relatar ao médico a ida a lugares com potencial para a doença”, recomenda.

De acordo com o diretor do Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Cláudio Maierovitch, qualquer evento com aumento na movimentação das pessoas merece cuidados. Na Copa, segundo ele, a preocupação é para algumas doenças que  são frequentes nesta época do ano, como as gripes, para as quais há uma preparação rotineira e conjunta dos municípios e estados. Maierovitch destaca que os serviços de saúde e de vigilância em saúde estarão mais sensíveis para qualquer sinal de doenças inesperadas e diferentes das habituais, como o vírus do ebola e da poliomielite, para os quais os especialistas apontam risco muito baixo de aparecerem por aqui.

Perigoso sarampo
Há um alerta maior, porém, para o sarampo. Apesar de o Brasil contar com a vacinação contra o vírus, a enfermidade existe em boa parte do mundo, incluindo países da Ásia, da África e da Europa. Além disso, depois de 15 anos, o Brasil registrou a transmissão da doença infectocontagiosa dentro do território nacional. Em março de 2013, porém, um caso foi registrado em Pernambuco e mais de 300 ocorrências se confirmaram até o início deste ano. Antes, as infecções eram de pessoas que tinham contraído a doença no exterior e a manifestado em território nacional.

Segundo Marise Fonseca, da UFMG, os últimos casos de sarampo no Brasil foram “importados” da França, da Espanha, do Japão e da África do Sul. “Há adultos que não se vacinaram e não tiveram o mal, por isso, é interessante se vacinar”, recomenda. A preocupação de Carolina Lázari, infectologista do Fleury Medicina e Saúde, é que a pessoa contaminada com sarampo passa cinco dias sem manifestar o principal sintoma da doença, que são as manchas pelo corpo. “Sendo assim, é possível viajar sem saber que se está infectada”, comenta.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), pelo menos 500 mil crianças morrem todos os anos no mundo por causa do sarampo e suas complicações. “Isso aumenta a nossa preocupação. Há localidades brasileiras em que a cobertura de vacinação é mais baixa”, comenta Cláudio Maierovitch, lembrando que, além disso, muitos pais, por motivos ideológicos, deixaram de vacinar os filhos. “Tempos atrás, houve um surto de sarampo em uma escola em São Paulo onde muitos pais tinham essa filosofia”, critica ele, acrescentando que a recomendação é a vacinação até os 49 anos de idade. “Seria necessária a imunização para o brasileiro que vai sair daqui para um país onde o mal é endêmico. No caso da Copa, é bom que as crianças estejam protegidas”, ressalta Maierovitch.
 
Aglomerações
Carolina Lázari lembra ainda que o evento esportivo vai ocorrer durante a estação mais fria para o Brasil, quando as pessoas tendem a ficar ainda mais próximas. Por esse motivo, ela chama a atenção para as doenças respiratórias, como a gripe suína, que, em 2009, matou mais de 2 mil brasileiros. “Houve a pandemia naquele ano e, no seguinte, a preocupação com a vacinação. Porém, com a diminuição de casos, as pessoas relaxaram e, no ano passado, a gripe voltou a fazer vítimas, como pode ocorrer este ano”, analisa. “A maioria das pessoas que virá do hemisfério norte, porém, está imunizada e o inverno delas já passou. O problema pode ser com os vizinhos da América Latina que não estão protegidos contra a gripe.”

As vacinas contra a influenza, devido à contínua mutação do vírus causador da doença, têm prazo de validade menor que um ano. “Voltamos à recomendação de sempre: lavar as mãos, usar álcool em gel e, principalmente, evitar ambientes com muitas pessoas. Além disso, procurar se vacinar.” A orientação para as pessoas que vão trabalhar nos jogos e terão contato direto com estrangeiros é de que se vacinem pelo menos 15 dias antes do primeiro evento.


Atenção redobrada
Veja os cuidados recomendados por médicos para evitar contrair as doenças com mais chances de disseminação durante o Mundial
 
Sarampo
O que é: uma doença infecciosa aguda, de natureza viral, grave, transmissível e extremamente contagiosa, muito comum na infância. A viremia, causada pela infecção, provoca vasculite generalizada, responsável pelo aparecimento das diversas manifestações clínicas
Proteção: vacina é a única medida preventiva e a mais segura. A primeira dose deve ser aplicada aos 12 meses de vida, e o reforço entre quatro e seis anos. A vacina é aplicada até os 49 anos.
 
Influenza
O que é: também conhecida como gripe, é transmitida por meio do contato com secreções das vias respiratórias, eliminadas pela pessoa contaminada ao falar, tossir ou espirrar ou pelas mãos e objetos contaminados em contato com mucosas (boca, olhos, nariz)
Proteção: desde 22 de abril, a campanha nacional de vacinação contra a gripe está em vigor. Há imunização também disponível na rede privada

Poliomielite
O que é: doença viral que pode afetar os nervos e levar à paralisia parcial ou total. É causada pela infecção pelo poliovírus. O micro-organismo se espalha por contato direto, de pessoa a pessoa, por contato com muco, catarro ou fezes infectadas
Proteção: a doença existe em 10 países, sendo que em três — Paquistão, Camarões e Síria — o risco de propagação é maior. No Brasil, a pólio está eliminada desde 1994. Há mais de 40 anos, o Ministério da Saúde faz campanhas anuais de vacinação contra a doença
 
Ebola
O que é: uma das doenças mais mortais que existem. O vírus pode ser contraído tanto de humanos como de animais. É transmitido por meio do contato com sangue, secreções ou outros fluídos corporais. Em algumas áreas da África, a infecção foi documentada por meio do contato com chimpanzés, gorilas, morcegos, macacos, antílopes selvagens e porcos-espinhos contaminados encontrados mortos ou doentes na floresta tropical.
Proteção: ainda não há tratamento nem vacina
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