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Mais da metade dos partos são cesáreos

Levantamento da Fiocruz revela que 52% das mulheres brasileiras passam pela cirurgia na chegada dos filhos. No DF, 61,3% dos nascimentos em 2013 foram cirúrgicos

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postado em 01/06/2014 15:30

Julia Chaib

Michelle Watkins faz parte dos 5% das mulheres que deram à luz sem nenhum tipo de intervenção (Carlos Moura/CB/D.A Press) 
Michelle Watkins faz parte dos 5% das mulheres que deram à luz sem nenhum tipo de intervenção

Distante do índice considerado aceitável pela Organização Mundial de Saúde (OMS) — 15% —, mais da metade das mulheres brasileiras (52%) fazem parto cesáreo. Nos hospitais privados, a proporção é ainda maior: 88%, sendo que somente 36% delas optaram pela cesariana desde o início da gestação. Os dados foram divulgados ontem em pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que mostrou que apenas 5% das gestantes fizeram um parto sem qualquer intervenção, diferentemente da Inglaterra, por exemplo, onde esse percentual é 40%. No Distrito Federal, segundo a Secretaria de Saúde, de 41.010 nascimentos na rede pública em 2013, 61,3% foram cirúrgicos.

No levantamento, foram ouvidas mulheres de 266 hospitais públicos entre fevereiro de 2011 e outubro de 2012. Uma das coordenadoras da pesquisa, Silvana Granado considera a constatação muito negativa. “Infelizmente, o pré-natal não está tendo o papel de mostrar às mulheres que elas devem dominar o trabalho de parto. Sem contar que o normal é um gasto de tempo para o profissional, enquanto a cesariana é rápida, por ser agendada. O normal é trabalhado com medo no pré-natal.”

De acordo com Silvana, passa-se a ideia às gestantes de que é possível controlar riscos nas cesáreas. No entanto, o procedimento não deixa de ter as complicações de qualquer cirurgia. “Os nenéns são tirados antes do trabalho de parto. Há pesquisas que mostram que isso pode causar asma, diabetes e consequências no aprendizado. Isso tem a ver com a questão de ele ter nascido fora da hora. Na mulher, há o risco de hemorragia”, alerta. Para a especialista, mesmo quando acontece o parto normal, são feitas tantas intervenções farmacológicas que podem causar dor e assustar a mãe.

Para o ginecologista e obstetra Bruno Ramalho de Carvalho, o excesso de cesarianas vem de um processo cultural e de uma dificuldade de atendimento por parte dos médicos, que optam pelo agendamento para conciliar consultas. “Muitas mulheres que não têm a via de parto definida acabam optando pela cesariana. Existe uma falta de informação que faz parecer que a cesariana seja mais segura. E, de uma certa forma, pode haver um certo comodismo para a paciente marcar a hora do parto.” Bruno acrescenta que a discussão sobre o tema está sendo fomentada e é necessário repensar a obstetrícia. “A cesariana pode ser a opção de parto desde que existam esclarecimentos.”

Indução

A professora Ana Carolina Ramos Cabral, 34 anos, se encaixa no perfil de mulheres que não desejavam a intervenção cirúrgica, mas acabou por fazer cesariana. Mãe de três filhos, em todas as situações ela quis parto normal. Para cada nascimento, no entanto, houve um entrave para concretizar seu desejo, ou porque o médico disse que o filho estava em sofrimento fetal ou afirmou que ela não suportaria a via natural. Ana acredita, por sua experiência nos três episódios, que foi induzida a fazer a cirurgia nas duas primeiras gestações. “Eu fui impedida de fazer o parto normal sem nem tentar”, lamenta.

Já o caso da professora infantil Michelle Mascarenhas Watkins, 34 anos, o desejo pelo nascimento natural de seu filho foi concretizado. Há nove dias, Michelle deu à luz Noah em um hospital particular de Brasília sem tomar anestesia ou medicamentos para acelerar as contrações. Ela optou pelo nascimento do filho dessa forma desde quando descobriu que estava grávida. “Há uma certa violência durante a cesariana porque o neném é tirado do universo que ele conhecia de forma bruta, por mãos que não são da mãe, mas da médica. Uma interferência que me parece brutal e desnecessária”, diz.

Portaria sobre aborto é revogada

O Ministério da Saúde revogou ontem a Portaria 415, publicada na semana passada, que incluiu o aborto legal na tabela de procedimentos do Sistema Único de Saúde (SUS). Por meio da assessoria, a pasta afirmou que a revogação foi porque o governo federal não acertou detalhes com os estados e municípios. Além disso, o valor do procedimento estaria incorreto. Logo depois de a portaria ser publicada, bancadas religiosas do Congresso anunciaram ações para barrar a norma, embora ela trate de abortos permitidos pela legislação (risco de morte materna, gestação decorrente de estupro e anencefalia) e já feitos no SUS.

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