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Não é fácil se passar por mulher

Quando homens adotam personagens femininos em videogames, adotam postura no jogo que revela uma visão estereotipada sobre o sexo oposto, sugere pesquisa canadense

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postado em 06/06/2014 14:55

Vilhena Soares

Homem ou mulher, alto ou baixo, malhado ou gordinho. As opções que um jogador tem na hora de criar um avatar em videogames são inúmeras, o que permite aos fãs da diversão eletrônica assumirem múltiplas “personalidades”. Porém, todo esse cardápio de aparências não consegue esconder quem está por trás do joystick. Segundo uma pesquisa, os gamers que escolhem personagens do sexo oposto na hora da brincadeira podem ser “desmascarados” pelo comportamento ao jogar.

A análise foi feita com 375 participantes do jogo World of warcraft, aventura ambientada em um mundo repleto de figuras humanas e fantasiosas, como elfos, dragões e demônios. Os cientistas constataram que 23% dos participantes masculinos escolheram avatares femininos, e apenas 7% das mulheres optaram por uma representação do sexo oposto. O comportamento dos voluntários foi avaliado por ações como decisões durante a partida e as trocas de mensagens, comuns no desenrolar do jogo. “Queríamos ver se era possível prever a identidade real dos jogadores com base em suas ações on-line”, explica Mia Consalvo, professora no Departamento de Comunicação da Universidade de Concordia (Canadá) e coautora do trabalho, publicado na revista especializada Information, Communication and Society.

Segundo ela, os jogadores do sexo masculino que usavam avatares femininos usavam frases mais emocionais e abusavam dos emoticons. Além disso, a escolha do personagem tendia a imagens de corpos mais atraentes. Os movimentos executados também mostraram diferenças. Os homens que manipulavam as figuras femininas se mexiam mais para trás, recuando das tarefas. Isso indica, de acordo com Consalvo, uma visão estereotipada que os homens têm das mulheres, que seriam sensuais e mais emotivas. Já o comportamento das mulheres que escolhiam avatares masculinos não se mostrou tão diferente.

Apesar da indumentária utilizada pelos personagens, o gênero “trocado” não consegue mascarar o real sexo dos gamers. Consalvo explica que o uso excessivo de traços que seriam considerados femininos serve como termômetro para que o “impostor” seja identificado. “Os homens podem não necessariamente tentar mascarar seu sexo off-line quando usam um avatar feminino, mas nosso estudo mostra que eles reforçam noções idealizadas de aparência e da comunicação feminina, e isso contribui para a identificação”, destaca a pesquisadora.

Imagem antiga
Laura Torquato, psicóloga formada pela Universidade de Brasília (UnB), concorda que a representação de personalidades em jogos on-line, com gêneros trocados, pode mostrar uma interpretação errada dos homens quanto às mulheres. “Os resultados desse estudo mostram que, ao exagerar em traços considerados femininos, os homens veem as mulheres sob um estereótipo antigo e bastante exagerado. O que não vemos acontecer com as mulheres que usavam as imagens masculinas”, destaca.

Para Bruno Feijó, professor do Departamento de Informática da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), a busca por um personagem de gênero diferente pode ser justificada como uma oportunidade de explorar novas experiências, mesmo que virtuais. “Acredito que as opções oferecidas são muito atraentes porque você pode viver outras vidas e experimentar coisas diferentes. É possível ser um herói ou uma heroína; são opções que, no mundo real, você muito dificilmente conseguiria”, destaca. Feijó também acredita que o anonimato não é total nos jogos, mesmo com tantas ferramentas oferecidas. “É possível identificar as pessoas. Querendo ou não, elas deixam uma assinatura digital, que, ao ser estudada com cuidado, pode ser descoberta”, afirma.

Os autores do trabalho levantam ainda a hipótese de que a escolha de uma figura feminina pelos homens possa ser uma busca de obter vantagens no jogo. “Apesar de alguns jogadores do sexo masculino terem relatado, em outros estudos, que utilizavam avatares femininos por acreditarem que assim receberiam mais ajuda de outros participantes, vimos pesquisas sobre jogadoras que relatam não ter ajuda só porque tinham um avatar feminino. Pode existir uma certa ilusão desses usuários com essa imagem de ‘facilidade’ que eles acreditam ter”, destaca a cientista.
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