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CIÊNCIA

A refinada capacidade de localização das abelhas

Estudo sugere que esses insetos são capazes de produzir mapas mentais do ambiente, o que os ajuda a retornar para a colmeia. Até então, acreditava-se que apenas os mamíferos, por terem cérebros maiores, tinham essa habilidade

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postado em 11/06/2014 14:00 / atualizado em 11/06/2014 10:25

Vilhena Soares

Abelhas em colmeia: mesmo quando perdem a referência do Sol, elas acham o caminho de volta para casa (Stephane Mahe/Reuters - 24/4/2013 ) 
Abelhas em colmeia: mesmo quando perdem a referência do Sol, elas acham o caminho de volta para casa

Mesmo com um cérebro que nem se compara, em termos de tamanho, ao dos mamíferos, as abelhas são mestras em achar o caminho de volta para casa. Embora se afastem vários metros da colmeia, os bichinhos retornam certeiros após um dia de trabalho pulando de flor em flor. A principal hipótese que os cientistas tinham para explicar a habilidade era a de que esses pequenos voadores se orientavam pelo Sol. No entanto, um recente estudo sugere que essa não é a única referência usada no retorno para casa. Ao que tudo indica, esses animais são capazes de formar mapas mentais do ambiente, memorizando cenários e objetos que servem de guia, tal qual fazem os mamíferos e seus grandes cérebros.

Para descobrir esse refinamento na orientação das abelhas, o grupo de pesquisadores retirou delas a capacidade de ter a luz do dia como referência. Os especialistas fizeram isso capturando algumas e as anestesiando por seis horas. Depois, quando elas acordavam, eram soltas em um outro local nos arredores da colmeia. Pequenos sensores presos aos insetos possibilitavam que todo o trajeto fosse monitorado por meio de um radar harmônico. “Esse dispositivo nos permite acompanhar o voo de uma única abelha a uma distância de 1km. Assim, fomos capazes de estudar o comportamento dos bichos dentro das dimensões da sua navegação natural”, conta Randolf Menzel, professor do Instituto de Neurobiologia da Universidade Livre de Berlim e um dos autores do estudo.

Como não sabiam que tinham ficado seis horas desacordadas, as operárias se comportavam inicialmente como se fosse o começo do dia. Enganadas pelo Sol, começavam a seguir na direção contrária. Porém, logo elas percebiam que era preciso mudar o curso e voavam de volta para a colmeia, usando alguma outra referência. Para os autores do trabalho, publicado na semana passada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas), essa referência é um mapa cognitivo que os insetos conseguem formar da região próxima da colmeia.

Segundo Menzel, o experimento mostra uma capacidade incrível das abelhas de criar mapas do ambiente. Alguns autores chegaram a cogitar que os bichos utilizem algumas referências geográficas próximas da colmeia para se localizarem. Essa memória foi chamada de instantânea (snapshot, em inglês). No entanto, a pesquisa mostra uma capacidade de ler o ambiente de forma muita mais ampla. “A ideia por trás da memória snapshot é que os insetos podem estabelecer memórias de imagem e usá-las para voltar à colmeia quando estão a 10m ou 20m dela. Contudo, estudamos a navegação deles por centenas de metros, e não há como dizer que as abelhas podem ter se referido somente a essa lembrança snapshot”, destaca o cientista.

Teoria reforçada
Na avaliação de Pedro Ribeiro, pós-doutorando do Departamento de Fisiologia da Universidade de São Paulo (USP), o trabalho demonstra a teoria dos mapas mentais, antes apenas uma predição sem comprovação. “Ao mostrar que as abelhas conseguiram percorrer o trecho sem a orientação do Sol e em distâncias nas quais as referências não ajudariam tanto, eles indicam que a orientação desses animais pode se basear em mapas cognitivos, já conhecidos em mamíferos”, afirma o especialista, que não participou do estudo.

Ribeiro explica que a hipótese dos mapas mentais não era forte porque a estrutura morfológica dos insetos é muito diferente da dos mamíferos. “As abelhas não possuem estruturas cerebrais, como o hipocampo, presente nos mamíferos, para que essa habilidade fosse cogitada sem estudos mais aprofundados. Agora, vemos que, mesmo assim, é possível elas utilizarem essa solução para sua melhor localização”, destaca.

Ele também acredita que trabalhos futuros, que explorem mais a fundo os mecanismos de localização dos insetos, ajudem a esclarecer hipóteses ainda não comprovadas. “Temos muitos trabalhos nessa área, principalmente voltados para formigas, uma espécie mais explorada. Estudos desse tipo podem esclarecer as orientações dos chamados animais sociais e a presença de mapas cognitivos neles”, acredita.
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Genoma completo do salmão é sequenciado


O salmão-atlântico: dados devem ajudar a tornar a pesca mais sustentável (Paul Nicklen/Reuters - 13/2/2004) 
O salmão-atlântico: dados devem ajudar a tornar a pesca mais sustentável

Após cinco anos de trabalho, a Cooperação Internacional para Sequenciar o Genoma do Salmâo-Atlântico (ICSASG, na sigla em inglês) anunciou ontem o mapeamento completo do código genético do peixe. A iniciativa, apoiada pelos governos do Chile, do Canadá e da Noruega, cujas economias são bastante beneficiadas pela pesca do peixe, disponibilizou os dados na internet para qualquer cientista interessado.

A ideia é usar as informações para pesquisas que ajudem em ações de conservação e exploração sustentável da espécie. A pesca e a criação em cativeiro do salmão-atlântico geram cerca de US$ 870 milhões apenas para a província canadense da Colúmbia Britânica. Por isso, além da questão ambiental, há grande interesse econômico na preservação do animal.

Recentemente, alguns vírus e patógenos têm atacado cardumes, colocando em risco a espécie e ameaçando o comércio. “O conhecimento de todo o genoma torna possível ver como os genes interagem entre si e examinar o gene exato que rege uma determinada característica, como a resistência contra certa doença”, afirmou, em comunicado à imprensa, Steinar Bergseth, presidente da Comissão de Coordenação Internacional para o ICSASG.

“A melhor compreensão da espécie e de seu genoma é um passo fundamental para a melhoria do crescimento e da gestão da pesca e da aquicultura mundial”, acrescentou Alan Inverno, presidente e CEO da Genome BC, entidade integrante do projeto. “Além disso, o nível de colaboração internacional visto nesse projeto é uma prova da importância de uma coordenação global para enfrentar desafios grandes demais para qualquer país resolver individualmente.”

Na opinião de Marcela Angulo, chefe do Departamento de Capacidades Tecnológicas na Agência de Desenvolvimento Econômico do Chile, além de um manejo sustentável do peixe, os produtores terão condições de oferecer mais segurança aos consumidores. “Esses resultados abrem uma grande variedade de possibilidades de investigação aplicada e de produtos e serviços para a indústria do salmão no Chile”, avalia a especialista no comunicado.

Segundo Petter Arnesen, diretor de criação do Marine Harvest, Noruega, os consumidores de hoje exigem alimentos saudáveis, produzidos de forma sustentável e eficiente. “O conhecimento da sequência certamente nos dará uma ferramenta muito aguardada para conseguir isso”, completa.
 
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