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Quando as frutasfazem mal

A intolerância à frutose pode aparecer depois dos 40 anos, causa distúrbios intestinais e até o aumento do peso. O diagnóstico do problema pode ser feito por um exame de sopro

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postado em 16/06/2014 14:00

Luciane Evans

Depois de 20 anos em busca de explicações para o mal-estar que sentia, Ricardo Leão descobriu que não pode comer frutas 
Depois de 20 anos em busca de explicações para o mal-estar que sentia, Ricardo Leão descobriu que não pode comer frutas


Belo Horizonte — Sempre apontadas como grandes aliadas da alimentação saudável, as frutas começam a ter os efeitos revisados por especialistas e, em alguns casos, já surgem como vilãs do bem-estar. Isso porque podem gerar problemas para o intestino e atrapalhar, inclusive, processos de emagrecimento. A raiz do problema está na intolerância do organismo de algumas pessoas à frutose, mal que nem sempre é detectado com facilidade. Mesmo seguindo uma dieta considerada equilibrada, o paciente passa a conviver com dores abdominais, diarreias e outros sintomas característicos da intolerância alimentar e nem sequer suspeita que os desconfortos são causados pelas frutas.

O dentista Ricardo Leão, 58 anos, levou duas décadas para encontrar esse diagnóstico. Sempre atento com a própria alimentação, ele consumia frutas e legumes certo de que estava fazendo o melhor para a saúde. Mas, há 20 anos, passou a sentir cólicas e a ter diarreias. “Fiz exames para intolerância ao glúten e à lactose, passei por colonoscopia e até tive um diagnóstico para síndrome do intestino irritado. Mas isso era subjetivo demais e nada resolvia. Foi quando uma homeopata desconfiou da frutose”, relata. A frutose é um monossacarídeo (açúcar simples) usado pelo corpo para produzir energia. Está presente em muitos alimentos, mas as frutas e o mel são as principais fontes.

Segundo explica a gastroenterologista especialista em doenças funcionais Vera Lúcia Ângelo Andrade, há no organismo um receptor para a frutose que se chama Glut-5, responsável em fazer com que o intestino absorva o açúcar que recebe. “É como se fosse uma porta de entrada para ele. Porém, com o passar dos anos, esse receptor pode ser perdido e não funcionar 100%”, explica. A frutose é absorvida pelo intestino e transportada pelo Glut-5 até cair na circulação sanguínea e seguir para ser metabolizada no fígado.

Se o Glut-5 não funciona, o açúcar permanece no órgão intestinal e é atacado por bactérias. “Temos cerca de um quilo e meio de bactérias em nosso intestino. Quando a frutose não é processada, essa flora bacteriana se alimenta dela e libera hidrogênio, que vai sendo absolvido pelo organismo, chegando ao pulmão.” Por isso, uma das maneiras de diagnosticar a intolerância é por meio do sopro. “Geralmente, damos frutose ao paciente. Em seguida, ele sopra o cano do aparelho e detectamos a quantidade de hidrogênio nos pulmões”, explica Vera.

Foi assim que Ricardo descobriu que tinha o problema. “Nunca imaginei que as frutas me fariam mal. Elas foram proibidas na minha dieta e, atualmente, só posso consumir limão. Como tive dificuldades de encontrar um nutricionista que trabalhasse esse assunto, foi preciso sair de Belo Horizonte e me tratar em São Paulo com médicos da Universidade de São Paulo (USP). Lá, eles retiraram toda a fruta da minha alimentação e, hoje, estou bem melhor, cheguei a perder 12kg”, conta.

As frutas com mais frutose são a maçã, a pera e o caqui (veja quadro). Esse tipo de açúcar também é encontrado em alimentos industrializados. “A frutose é 30% mais doce do que o açúcar normal. Por isso, é usada pela indústria em muitos produtos”, explica Vera. Segundo a médica, as pessoas que mais correm riscos com a intolerância são as vegetarianas e as veganas, pois “acabam retirando das dietas alimentos muito importantes e consumindo mais frutas”. “Além disso, elas usam o sorbitol (adoçante), o que aumenta ainda mais a frutose no organismo.”

A gastroenterologista tem percebido, por estudos feitos fora do Brasil e também pela experiência em consultório, que a intolerância à frutose se dá geralmente próximo aos 40 anos, quando o Glut-5 começa “a envelhecer”. “Adolescentes não comem frutas, a gente começa a comê-las depois dos 30. Essa pode ser uma explicação para essa incidência”, sugere. A única apontada pelos especialistas como permitida para uma alimentação saudável é o abacate, antes considerado um vilão para o colesterol.

Nutricionista e doutor em medicina bioquímica pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles (EUA), Lupércio Cançado Farah costuma definir a frutose como doce vilã e diz que a substância também está presente em legumes. “Esse açúcar, quando não absorvido, provoca uma inflamação nas células e aumenta a produção de radicais livres, o que pode causar câncer”, alerta. Farah também reforça que a dificuldade no emagrecimento pode, inclusive, estar relacionada ao consumo maior de frutas. “Sabe quando você malha e aquela barriga não desaparece ? Pode ser que haja aí uma intolerância à frutose”, avisa.

Frutosemia
Outro problema ligado ao consumo de frutas é uma doença rara que também provoca intolerância à frutose. Trata-se da frutosemia, uma enfermidade hereditária que geralmente ocorre nos primeiros anos de vida. Foi assim com Davi Melo, filho da pediatra baiana Andréa Melo. “Até os três meses e meio, ele só se alimentava de leite materno. Quando dei o primeiro suco, que foi de melancia, ele passou mal: vomitou e ficou muito molinho”, lembra. Andréa tentou suco de carambola e o filho teve uma crise convulsiva, provavelmente por hipoglicemia. “Na época, nem imaginávamos que seria por causa da ingestão de frutas. Ele apresentava vômitos, dor abdominal, diarreia, assaduras e havia estacionado o crescimento”, conta.

Davi desenvolveu um aumento do fígado. Uma bateria de exames, incluindo uma biopsia hepática, indicou acúmulo de gordura no órgão e alterações de enzimas e triglicerídeos. A frutosemia foi revelada por meio do exame genético. No caso da doença, a enzima que metaboliza a frutose no fígado, a aldolase B, está ausente ou diminuída. O tratamento é dietético e consiste em uma dieta sem frutose, sacarose e sorbitol por toda a vida.

Seguir essa alimentação tão restrita, diz a pediatra, esbarra na dificuldade de encontrar informações nos produtos sobre a quantidade de frutose nos alimentos. “Isso é de grande importância para calcular a quantidade mínima que o paciente pode ingerir em alimentos como arroz e macarrão”, explica. São poucos alimentos — leite, queijo, ovos e carnes, por exemplo — completamente livres de frutose. “A maioria das referências usadas é de outros países, e fatores como clima e solo podem interferir na quantidade de frutose encontrada nos alimentos”, acrescenta Andréa.



“Esse açúcar, quando não absorvido, provoca uma inflamação nas células e aumenta a produção de radicais livres, o que pode causar câncer”
Lupércio Cançado Farah , nutricionista

 

 

 

 

 

 

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