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CIÊNCIA

Em busca de pés corroídos

Pesquisa desenvolvida em Minas Gerais ajudará a identificar as torres de transmissão de energia elétrica com as bases danificadas, o que deve representar economia às companhias e melhor prevenção da interrupção do abastecimento

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postado em 16/06/2014 14:00

Paula Carolina /DIRED

 

 



Belo Horizonte — Desenvolver uma metodologia capaz de diagnosticar, com maior eficiência, o nível de corrosão nos pés das torres de transmissão de energia foi o objetivo da pesquisadora Rosa Maria Rabelo Junqueira, do Centro de Inovação e Tecnologia Senai/Fiemg (CITSF) câmpus Cetec, em Belo Horizonte. A pesquisa, concluída e apresentada no fim de maio, foi feita para a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) e fornecerá uma espécie de diagnóstico das torres instaladas no estado. Contudo, a forma de análise pode ser aplicada por outros distribuidores de energia país afora. Depois de aprovado, o projeto contou com recursos da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Como os pés dessas torres ficam enterrados, não é possível enxergar se há corrosão, daí a necessidade de uma análise com recursos químicos de estudo do solo e do tipo de estrutura enterrada e do desenvolvimento de métodos capazes de apontar a presença do problema. Concluída a nova metodologia, o benefício será não só o de facilitar a manutenção, como de economizar, uma vez que o método atual, não muito preciso, muitas vezes exige a escavação — cara e, muitas vezes, desnecessária — de torres.

“A proposta busca melhorar o serviço de manutenção da companhia mineira. Até o momento, para saber se os pés das torres estão sofrendo corrosão, é usada uma medida de potencial, que muitas vezes exige escavar a torre, e depois percebe-se que não está corroída. Ou o contrário, não é apontada a corrosão, os pés vão ficando fragilizados e a torre cai”, explica a pesquisadora. Ela lembra que as bases ficam entre 1,5m e 2m abaixo da terra, e muitas vezes as estruturas são instaladas em locais de difícil acesso. “Além disso, para escavar são necessários trator e escavadeira. A mão de obra é difícil. Só para se ter uma ideia, como parte da pesquisa, tivemos que escavar uma torre, e o custo de escavação de uma única foi de R$ 40 mil”, observa.

Em campo
A pesquisa foi iniciada em 2011. Como objeto de estudo foram selecionadas, pela própria Cemig, duas linhas de transmissão em locais diferentes: uma que liga Neves a Três Marias e outra entre Jaguara e São Simão. Foram analisadas quatro torres com suspeita de corrosão e idade entre 35 e 40 anos. O primeiro passo foi levantar informações sobre o solo. “Fomos à literatura pesquisar e, com base no que encontramos, montamos um laboratório. Depois, pegamos amostras dos solos das duas regiões e passamos a estudá-las. Extraímos os íons agressivos ao solo e começamos a preparar as amostras”, explica Junqueira.

Paralelamente, era preciso estudar o tipo de material enterrado. Os pés são feitos de aço galvanizado, e a Cemig doou à equipe de pesquisa três amostras distintas, provenientes de manutenção em torres sem corrosão, parcialmente corroídas e bastante corroídas. Parte dos extratos foi para análise em laboratório e parte foi enterrada em área preparada para medições no próprio câmpus do CITSF. “Acompanhamos o processo de corrosão em laboratório para que, quando fôssemos a campo, pudéssemos entender a reação”, diz Junqueira. As amostras foram enterradas e monitoradas por 14 meses.

Sinais
A pesquisa propôs a aplicação de técnicas eletroquímicas para aumentar o número de parâmetros indicativos de corrosão nas estruturas enterradas. Quatro métodos foram empregados: potencial de circuito aberto, restrição à polarização linear, impedância eletroquímica e ruído eletroquímico. O primeiro procura avaliar, pelo nível de zinco presente no aço galvanizado, se houve perda de revestimento do material. “O aço galvanizado é revestido com zinco. Se o material começa a perder zinco, está ruim. Por esse método, procuramos saber se houve perda de zinco ou não”, explica a coordenadora do trabalho. O segundo método dá uma ideia da taxa de corrosão, ou seja, o tanto de corrosão que o material pode sofrer e por quanto tempo resiste.

Já a impedância eletroquímica mostra a resistência à polarização. “Você tem a possibilidade de saber o que acontece na interface (na primeira camada) do material com o solo. E então pode fazer um modelo matemático ou químico do que está acontecendo”, explica. E, finalmente, pelo ruído eletroquímico, se mede a resistência à corrosão do material também em função do tipo de corrosão. “Falam que é a impressão digital do material. Por exemplo, se a corrosão é localizada, forma um buraco pequeno, que pode corroer até romper a estrutura. A corrosão localizada oferece mais risco. A generalizada é menos perigosa”, completa.

O próximo passo é validar a pesquisa com a coleta de mais amostras e em diversas outras regiões. Rosa Maria Junqueira lembra que a equipe não teve a oportunidade de analisar torres altamente corroídas, já que as apontadas pela Cemig para o estudo não estavam tão danificadas como se imaginava. Caso seja interesse que se continue o projeto, ela acredita que o trabalho de geoprocessamento já feito pela Cemig, com um mapeamento inclusive climático de todas as linhas de transmissão do estado, deve ajudar nesse próximo trabalho. A Cemig afirma que tem sim a intenção de dar continuidade ao projeto, inclusive considerando a necessidade de novos testes. No entanto, busca agora um parceiro comercial para a viabilização.


“Até o momento, para saber se os pés das torres estão sofrendo corrosão, é usada uma medida de potencial, que muitas vezes exige escavar a torre, e depois percebe-se que não está corroída”
Rosa Maria Rabelo Junqueira, pesquisadora do Centro de Inovação e Tecnologia Senai/Fiemg

 

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