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Olho eletrônico nas estradas brasileiras

Pesquisador da PUC-RJ cria um dos mais eficazes sistemas de reconhecimento automático de placas de carros

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postado em 18/06/2014 14:00 / atualizado em 18/06/2014 10:43

Isabela de Oliveira /

Se há corpos em movimento, existe chance de colisão. E, como se não bastassem as leis da física, a imprudência contribui ainda mais para a insegurança no trânsito. Para manter motoristas na linha, a tecnologia é cada vez mais acionada. Radares, barreiras eletrônicas, bafômetros... A lista de equipamentos já é grande e não para de crescer ou ser aprimorada, como mostra um recente projeto desenvolvido por pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ).

Em uma dissertação de mestrado, Eduardo Pimentel de Alvarenga, 32 anos, aprimorou os sistemas de reconhecimento automático de placas, uma tecnologia já usada em diversos países, incluindo o Brasil. Esses mecanismos são softwares capazes de, sozinhos, ler e interpretar as identificações de veículos. São muito úteis, por exemplo, para controle de tráfego, estacionamento e monitoramento de faixas exclusivas (veja infografia). Porém, alguns modelos ainda deixam a desejar, apresentando um número excessivo de erros.

O programa criado por Alvarenga se mostrou capaz de reduzir bastante a imprecisão de identificação. O índice de acerto é de 98,6% semelhante ao do Template Matching, software italiano que está entre os mais precisos do mercado. O invento brasileiro, contudo, tem ainda a vantagem de ser mais leve do que os demais, funcionando em praticamente qualquer máquina, desde os potentes computadores dos centros de monitoramento de trânsito até um smartphone utilizado por um fiscal de rua.

Diversas aplicações
“Os que existem hoje são feitos com redes neurais, e por isso são razoavelmente pesados. Isso dificulta a execução em ambientes com menor poder de processamento”, diz o autor. Há ainda outro diferencial: o novo modelo é capaz de “aprender” com os próprios equívocos. “Quando o sistema detecta um erro de interpretação, ele próprio aprende que não deve repeti-lo na próxima tarefa. Então, quanto mais ele é usado, mais apurado ele fica”, diz o especialista, que utilizou combinação gráfica e inteligência artificial para desenvolver o trabalho.

O produto já foi vendido para uma empresa que faz o processamento de dados de alguns departamentos de Trânsito, a Montreal Informática. “Ele é o único software nacional que temos hoje, e teve apoio de capital 100% brasileiro”, diz o empresário Luiz Antonio Santos, reforçando que esse tipo de projeto fortalece o desenvolvimento científico no país. O projeto gerou ainda o convite para Alvarenga trabalhar em uma empresa do ramo na Áustria. “Se o empregador dele permitir, vamos dar continuidade ao que ele fez. Tudo isso com a intenção de inserir no mercado brasileiro em breve”, aposta Santos.

O software poderá ser usado não apenas pelos departamentos de Trânsito estaduais, mas também por empresas, como as que gerenciam estacionamentos. “O sistema pode saber que carro entrou e saiu do pátio, informando se a pessoa está cadastrada ou não e identificando irregularidades”, diz Alvarenga.

Ainda falta segurança


A pesquisa realizada no Rio de Janeiro não é um caso isolado na realidade brasileira. Hoje, no país, há diversos grupos trabalhando com tecnologias voltadas para a administração do tráfego de veículos e o respeito à legislação. Recentemente, alunos da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um bafômetro que detecta não apenas o consumo de álcool, mas também o de cocaína e maconha. O equipamento é uma adaptação de instrumentos que medem umidade e poluentes na atmosfera. Um sensor feito com quartzo e ouro emite uma frequência constante, que, se oscila, indica a existência das drogas.

Segundo Márcia Pontes, educadora de trânsito em Santa Catarina, o Brasil segue a tendência de evolução tecnológica vista em países mais ricos. Uma das medidas mais inovadoras, segundo ela, é o Sistema Nacional de Identificação Automática de Veículos (Siniav), disposto em resolução de 2012. A implementação do projeto já começou no estado de Rondônia e, até junho do ano que vem, todos os veículos terrestres, com exceção dos bélicos, deverão ser equipados com um chip que fornecerá às autoridades um dossiê do carro, caminhão ou motocicleta. Informações pessoais do proprietário, entretanto, serão mantidas em sigilo.

Na avaliação da especialista, ainda faltam no Brasil investimentos na segurança. “Temos universidades que apostam em projetos avançados em tecnologia. Porém, a maioria é voltada para a economia e a sustentabilidade, mas pouco se fala de projetos que permitam poupar vidas”, cometa Márcia, também coordenadora do Projeto Maio Amarelo, que integra o poder público e a sociedade civil em ações relacionadas à boa qualidade viária.

Disparidades
Outro desafio nacional é a disparidade entre os estados. De acordo com um estudo publicado no fim do mês passado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), menos de 20% das grandes cidades brasileiras utilizam tecnologias para o controle de trânsito, inclusive as mais simples, como inserir horários de circulação do transporte público. Apenas 10% possuem sistemas inteligentes para fiscalizar infrações.

A diferença é grande. Por exemplo, o Distrito Federal terá, em breve, mais de mil radares, câmeras e barreiras eletrônicas — existem 982 e mais 100 devem ser instalados neste ano. Diferentemente, Blumenau (SC) não possui nenhum sistema eletrônico do tipo. Para Márcia, a desigualdade é reflexo de uma política de baixos investimentos no país. “O Brasil possui acesso às tecnologias, inclusive as mais caras de ponta, mas os municípios investem muito pouco nisso”, diz. “Há uma cultura da infração, e o acidente nada mais é do que uma que deu errado. Se a infração dá certo, a pessoa se gaba”, lamenta. (IO)

 

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