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Os impactos da estagflação no Brasil

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postado em 18/06/2014 17:23

Agência UnB

As crescentes reivindicações da população brasileira por mudanças, conforme revelam as pesquisas eleitorais, tem uma correlação clara com os inúmeros insucessos do governo Dilma nos campos da gestão pública e da economia. Essas intervenções, além de não alcançarem os seus objetivos iniciais, contribuíram sobremaneira para piorar o ambiente de negócios do país. A insistência do governo em incentivar o consumo como principal motor do crescimento esgotou-se. Registre-se que essas falhas conduziram o país para um preocupante processo de estagflação.

"Estagflação" é um fenômeno no qual a economia passa a ter um crescimento muito baixo, agravado pela inflação alta, e persistente. Este é o caso do Brasil na atualidade, cuja economia está crescendo abaixo de seu potencial, combinando inflação elevada e um crescimento econômico pífio. Registre-se que a economia brasileira vem patinando em média 1,9% nos últimos três anos, e que deverá ficar próxima de 1% no corrente ano. Esse quadro é agravado pela inflação (IPCA) que vem se mantendo próxima do teto da meta de inflação de 6,5% ao ano.

Diante desse cenário, é preocupante ouvir a enfática defesa do ex-presidente Lula, em favor da concessão de mais estímulos ao consumo. Os números da economia comprovam que o modelo econômico executado pelos governos Lula e Dilma, apoiado em especial no consumo, se esgotou. Somente para as instituições financeiras as famílias brasileiras estão devendo R$1,3 trilhão, o que corresponde a 1/4 do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Estima-se que de cada R$10 da renda das famílias, cerda R$ 4,5 dessa renda já está comprometida para pagar dívidas.

O discurso do ex-presidente ao propor a expansão do crédito ao consumo contradiz outra recente recomendação feita por ele, para o governo endurecer o combate à inflação. São medidas que não se coadunam, pois estimular o consumo é uma das causas para explicar a retomada da elevação da inflação no país. É sabido que a falta de ações efetivas do governo e do setor privado para aumentar a produtividade do país é o principal entrave para a geração de um novo ciclo de crescimento da economia brasileira.  Destacam-se entre os fatores, a escassez de recursos humanos qualificados, deficiências de infraestrutura, baixo nível de investimento, e um ambiente institucional subdesenvolvido.

Fica evidente, assim, que a defesa eloquente do ex-presidente para o governo estimular o consumo, por meio de mais endividamento dos consumidores, é uma forma de tentar dar um falso alento a economia. Busca-se, dessa forma, evitar o aumento do nível de descontentamento popular com o atual governo, e que isso se traduza em perda de votos da candidata de seu partido. São recomendações inadequadas, que se sabe de antemão, irão apenas contribuir para agravar ainda mais o cenário econômico do país.  Atitudes e recomendações como essa reforçam a percepção dos analistas políticos de que os atuais detentores do poder tem como objetivo se manterem no poder, a qualquer custo.

Por sua vez, as pesquisas de opinião, e os ecos vindos das ruas, mostram que a população brasileira amadureceu politicamente, e que não está mais disposta a tolerar desmandos de seus governantes e políticos. Constata-se que existe uma percepção clara por parte da sociedade que a situação econômica, política e social do Brasil resultam da má gestão pública, da adoção de um modelo econômico equivocado, apoiado no estímulo ao consumo, autoritarismo, arrogância, desperdícios e corrupção. Apesar dessas evidências, de que a sociedade deseja mudanças profundas na gestão pública, e mais ética na política, os atuais governantes e políticos aliados se recusam a perceber essa realidade.

É valido ressaltar, por fim, que embora nenhum dos candidatos de oposição trate abertamente das medidas que irão adotar para reorganizar o Estado, buscando melhorar o desempenho da gestão pública, que se encontra travada, e das medidas que irão tomar para tirar o país do processo da estagflação, é sabido que decisões amargas deverão ser adotadas, e que exigirão enormes sacrifícios do governo, do setor privado, em especial, da população brasileira.

José Matias-Pereira. É economista e advogado.  Doutor em ciência política pela Universidade Complutense de Madri, Espanha, e Pós-doutor em administração pela Universidade de São Paulo. Professor de administração pública e pesquisador associado do programa de pós-graduação em contabilidade da Universidade de Brasília.
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