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Facebook tem ética questionada

Estudo psicológico conduzido pelo site sem conhecimento dos usuários é alvo de críticas. Editor da revista que publicou a pesquisa expressa preocupação com metodologia

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postado em 04/07/2014 14:00

Roberta Machado

 

 
O Facebook está na mira de usuários e de autoridades depois de revelar que manipulou o feed de notícias de quase 700 mil usuários como parte de um experimento psicológico. A controversa pesquisa foi realizada em janeiro de 2012, quando a empresa editou as páginas por uma semana com a intenção de medir o potencial de contágio emocional da rede social. Os resultados do trabalho foram publicados há um mês na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas), que também revelou preocupação com a falta de transparência do estudo. Nenhum internauta foi avisado de que seus perfis receberam informações diferenciadas durante a experiência, nem mesmo que seus posts seriam registrados e avaliados em uma análise científica.

Normalmente, o feed de notícias do Facebook decide quais posts exibir com base em um algoritmo, que leva em conta o número de comentários, o tipo de história e a pessoa ou empresa que publicou o conteúdo. Mas, para esse experimento, as atualizações mostradas para milhares de usuários passaram a obedecer a um sistema desenvolvido para selecionar notícias mais tristes ou felizes: a ideia era ver se os usuários passariam a postar conteúdos do mesmo tom que a página manipulada, o que indicaria que eles foram influenciados pelo clima emocional da rede social.

Inder M. Verma, editor-chefe da Pnas, divulgou ontem um editorial expressando preocupação com a forma como os pesquisadores lidaram com essa “área emergente da ciência social que precisa ser abordada com sensibilidade e vigilância, em respeito a questões de privacidade pessoal”. A nota defende que os editores da publicação tinham referências que permitiam a publicação do artigo, mesmo em uma situação que se diferenciava da maioria das pesquisas, por ser de autoria de uma empresa privada. “Ainda assim, é motivo de preocupação que a coleta de dados pelo Facebook possa ter envolvido práticas que não são completamente consistentes com os princípios de obtenção de consentimento informado”, ressalta Verma na declaração.

Como os dados do experimento foram oficialmente obtidos pelo Facebook como uma operação de âmbito interno, os autores do trabalho argumentaram que o trabalho não precisou passar pelo crivo do Programa de Proteção de Pesquisa Humana da Universidade de Cornell, cujos departamentos de comunicação e ciência da informação são citados como referência de um dos autores. Em um experimento comum, as diretrizes da instituição exigiriam que os participantes fossem informados do objetivo da pesquisa e tivessem a opção de não participar dela. Essa é uma regra que faz parte da política da Pnas, assim como do Departamento de Saúde e de Serviços Humanos dos Estados Unidos. A Universidade da Califórnia, que tem as mesmas obrigações com relação a pesquisas com humanos, também é citada como participante do estudo.

Repercussão
O assunto ganhou destaque durante a semana, e ressuscitou a discussão sobre o abuso das políticas do Facebook e sobre que outros fins estariam levando os dados publicados pelos usuários na rede. “Temos de entender que o Facebook é uma empresa de marketing muito bem-sucedida, que tem uma rede social para atingir lucros. Ela, obviamente, tem como objetivo sempre fazer pesquisas para apurar qual é o impacto de suas atividades sobre os usuários”, ressalta Alexandre Atheniense, advogado especializado em direito digital. Para ele, os internautas que não concordam com esse tipo de prática devem publicar o mínimo de informação pessoal possível na rede. “O que foi feito acontece todo dia. O Facebook sabe conduzir esses experimentos como ninguém e faz de maneira muito avançada, só que não revela.”

O gabinete do comissário de informações (ICO) do Reino Unido afirmou ao jornal britânico Financial Times que está investigando o site para apurar se leis de proteção a dados foram quebradas durante a pesquisa. O órgão responsável pela proteção de dados na Irlanda também estaria procurando o Facebook em busca de esclarecimentos. O experimento afetou 0,04% dos mais de 1 bilhão de usuários da rede social, o que significa que uma em cada 2,5 mil pessoas teve o feed de notícias manipulado sem saber. O método da pesquisa, que usou um programa que selecionava palavras-chave com tons negativos ou positivos, foi desenvolvido para usar somente páginas com publicações postadas na língua inglesa, mas a nacionalidade dos usuários afetados pelo trabalho não foi divulgada.

Autoridades brasileiras ainda não se manifestaram sobre o ocorrido, mas também teriam autoridade para pedir explicações ao Facebook sobre a controversa metodologia adotada no estudo psicológico, se fosse confirmado que brasileiros também foram afetados pela edição do feed de notícias. “O fato de estar nos termos de uso (aceitos pelos usuários quando se cadastram no site) não torna a prática legal. O Código de Direito do Consumidor diz que existem práticas abusivas que são consideradas nulas”, explica Luiz Fernando Moncau, pesquisador do Centro de Tecnologia e Sociedade da Faculdade de Direito da Fundação Getulio Vargas, do Rio de Janeiro. O Marco Civil da Internet também ressalta que a finalidade dos dados coletados deve ser claramente informada pelo site e que não pode ser usada para fins não justificados. “O site pode pegar dados e gerar conclusões sem afetar a experiência do usuário, sem afetá-lo em aspectos psicológicos.”

Permissão
O Facebook argumentou que nenhum post foi ocultado dos usuários, que tinham a opção de acessar as atividades dos amigos fora  da página editada pela empresa. Em entrevista na quarta-feira, Sheryl Sandberg, diretora de operações da companhia, ressaltou que a prática é comum nas empresas que testam seus produtos e se desculpou pela forma como o estudo foi divulgado. Mas ela admitiu que “os benefícios do artigo podem não ter justificado tudo isso”.

Autor do trabalho, o cientista de dados do Facebook Adam Kramer também se desculpou e afirmou que conduziu o estudo porque a empresa se preocupa com o impacto emocional do Facebook e com as pessoas que utilizam o produto. “Achamos que era importante apurar a preocupação comum de que ver os amigos postando conteúdo positivo leva as pessoas a se sentirem negativas ou excluídas”, justificou o pesquisador em nota.

O artigo publicado na Pnas ressalta que o trabalho é “consistente com a política de uso de dados do Facebook, com a qual todos os usuários concordam ao criar uma conta no Facebook, o que constitui consentimento informado para essa pesquisa. Nos termos publicados na versão brasileira do site, a empresa ressalta que pode usar informações dos internautas “para operações internas, que incluem correção de erros, análise de dados, testes, pesquisa, desenvolvimento e melhoria do serviço”. O texto não menciona, no entanto, o uso dos dados para a publicação de pesquisas, tampouco a possibilidade da manipulação do serviço prestado para esse fim.


Contágio

A conclusão do artigo confirma a teoria do contágio emocional e mostra que pessoas têm o humor influenciado pela internet, sem o contato direto com outro indivíduo. Quando os usuários eram expostos a menos posts positivos, eles tinham a tendência de também postar mais notícias tristes na rede e reduzir a quantidade de atualizações felizes. Já a redução de posts negativos levou os internautas a divulgarem mais respostas alegres na rede.


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