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CIÊNCIA

Apenas o pensamento como companhia

Ficar sem fazer nada por apenas 15 minutos é insuportável para a maioria das pessoas. Há quem prefira tomar pequenos choques elétricos a cumprir essa simples tarefa, mostra pesquisa realizada nos Estados Unidos

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postado em 04/07/2014 14:00 / atualizado em 04/07/2014 11:26

Isabela de Oliveira /

No percurso até o trabalho, o rádio parece um companheiro indispensável. Ligar a televisão ao chegar em casa é um ritual quase automático para muita gente após um dia cansativo. Ler um livro ou navegar na internet pelo smartphone ocupa o tempo de quem espera o sono chegar. E tudo isso não parece ser por acaso. Ficar à toa é insuportável para grande parte das pessoas. De acordo com um estudo publicado na edição de hoje da revista Science, o ser humano prefere fazer qualquer coisa, até mesmo passar por uma situação desagradável, a ficar sozinho com os próprios pensamentos. Isso pode acontecer, segundo os autores, porque é difícil orientar e manter os pensamentos em uma direção agradável.

A pesquisa liderada por Timothy Wilson, pesquisador da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, é uma das tentativas mais recentes de entender uma atividade neurológica exclusiva do ser humano e que ainda é cercada de mistérios: a rede neural em modo padrão. Ela é caracterizada por oscilações neurológicas que ocorrem sempre que alguém se empenha em tarefas internas, como sonhar acordado. A capacidade de se envolver consigo mesmo, diz Wilson, é uma parte essencial, talvez até mesmo uma definição, do Homo sapiens.

Basicamente, essa habilidade permite que o indivíduo se separe do ambiente e viaje para seu interior, imaginando mundos que nunca existiram. Na pesquisa, Wilson aborda duas questões que têm chamado a atenção dos cientistas: as pessoas escolhem entrar em modo padrão? E, quando estão nesse modo, vivem uma experiência agradável? Para responder essas questões, o cientista e sua equipe realizaram experimentos para observar a reação de universitários em uma sala sem adornos nem opções de entretenimento (smartphones, livros ou televisão) em períodos de seis a 15 minutos.

Os pesquisadores pediram que os alunos participantes escolhessem um assunto e refletissem sobre ele. As únicas regras é que eles permanecessem sentados e, principalmente, acordados. Após o “período de reflexão”, os voluntários responderam a um questionário que avaliava, entre outras coisas, quão agradável a experiência havia sido e a dificuldade que tinham sentido para se concentrar. A maioria (57,5%) relatou problemas de concentração, e 89% disseram ter pensamentos irregulares e sem conexão com o tema escolhido.

Aversão
Quase 50% dos participantes disseram não ter aproveitado a experiência. Em uma das fases da pesquisa (veja quadro acima), alguns deles — em especial os do sexo masculino — preferiram experimentar pequenos choques elétricos a concluir a tarefa, mesmo que, no início do experimento, tivessem afirmado preferir pagar US$ 5 a passar pela sensação desagradável. “A diferença de gênero é, provavelmente, resultado da tendência dos homens em procurar situações mais emocionantes. Mas é surpreendente que simplesmente estar sozinho com os próprios pensamentos por 15 minutos seja aparentemente tão aversivo a ponto de ter levado muitos dos participantes a autoadministrarem um choque elétrico que eles haviam dito anteriormente que iriam pagar para evitar”, observa Wilson.

O pesquisador chegou a imaginar que a reação poderia ter ocorrido pelo impacto negativo do ambiente desconhecido no psicológico dos alunos. Para acabar com a suspeita, os universitários repetiram a experiência em casa e muitos encontraram dificuldades de seguir as instruções. Trinta e dois por cento admitiram ter trapaceado e recorrido ao smartphone para navegar na internet e ouvir música. A média de satisfação foi menor ainda do que a obtida no experimento em laboratório.

Para avaliar se a dificuldade de apenas pensar é diferente ou maior para universitários, os pesquisadores repetiram os testes com voluntários de uma área rural com idades que variavam de 18 a 77 anos. Os resultados encontrados foram semelhantes aos observados com os estudantes. “Isso significa que esse comportamento não tem relação com idade, escolaridade, renda ou frequência do uso de redes sociais e smartphones”, conclui Wilson.

Meditação
Por que a própria companhia é tão desagradável? Os autores levantam algumas explicações. Uma é que, quando deixadas sozinhas com seus pensamentos, as pessoas se concentram em suas falhas, ruminando ciclos de ideias negativas. Pode ser também que elas tenham encontrado dificuldade em desempenhar o papel de “roteirista” do tema que escolheram. Para Wilson, é possível que os problemas fossem menores se os participantes pudessem elaborar os pensamentos com antecedência.

“Pode ser por isso que muitas pessoas procurem obter mais controle de seus pensamentos com meditação e outras técnicas. Sem esses treinamentos, elas preferem fazer qualquer coisa a pensar, mesmo que seja algo desagradável. Uma mente pouco sofisticada não gosta de ficar sozinha consigo mesma”, completa o autor.

O psicólogo Eduardo Simonini, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Viçosa (UFV), observa que a pesquisa comete o erro de conceber o pensamento como uma atividade interiorizada e alheia às interferências do mundo externo. “Vivemos em tempos individualistas e narcisistas e, ao contrário do que o artigo sugere, o que encontramos são pessoas voltadas para suas próprias urgências, necessidades, pensamentos, sonhos e perspectivas. O artigo tenta exatamente valorizar essa experiência do ‘eu’ privado em detrimento do ‘eu’ em movimento conectivo. Parece que consideram esse ‘eu’ conectivo uma experiência de dispersão que se aproximaria mais de um transtorno de deficit de atenção com hiperatividade (TDAH), no qual a pessoa prefere se torturar no movimento a sofrer estando parado consigo próprio”, critica o especialista mineiro.


Duas perguntas para
Eduardo Simonini,
psicólogo e coordenador do programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Viçosa

O que é o pensamento, como ele se forma?
O pensamento não deve ser entendido como um fato exclusivamente neurológico e interior, mas um fato social e relacional. Ninguém pensa sozinho e isolado em si mesmo, mas pensa com sua comunidade, com sua religião, com sua sexualidade, com a tecnologia. Mesmo quando está só, um sujeito não se produz em um “pensamento puro” e desconectado do universo externo. Dessa forma, pedir que uma pessoa se isole para exclusivamente pensar por 20 minutos em uma sala sem estímulos, é quebrar as conexões, é produzir tédio.

Qual é o papel das novas tecnologias e meios de interação, como redes sociais, nesse cenário?
O artigo sugere um incômodo com as tecnologias, como se elas distanciassem os humanos de si mesmos. A impressão que o artigo passa é que, na impossibilidade de construir uma experiência prazerosa na companhia de nossos próprios pensamentos, nós fugiríamos de nós mesmos com livros, músicas, computadores, televisões e rádios. Contudo, as tecnologias são ferramentas potentes para construir e destruir maneiras de pensar e de se relacionar. Em certos aspectos, elas nos ajudam a pensar sobre nós mesmos e sobre a sociedade, nos forçando a estar com nós mesmos de outras maneiras. Elas também podem ser uma maneira de fuga, a exemplo do que ocorre com os hikikomori, que é o nome que se dá, no Japão, àqueles que se isolam dentro de um quarto, retirando-se completamente da sociedade.

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