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Lágrimas essenciais

A síndrome do olho seco é marcada por irritação, coceira intensa e baixo nível de lubrificação. O problema fica mais recorrente durante o inverno e entre usuários frequentes de computador

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postado em 08/07/2014 14:00 / atualizado em 08/07/2014 10:51

Lilian Monteiro

Segundo Márcia Guimarães, o problema é comum depois dos 65 anos 
Segundo Márcia Guimarães, o problema é comum depois dos 65 anos

Belo Horizonte — O inverno está aí e a maioria se preocupa com as doenças respiratórias, bem comuns nesta época do ano. Baixa umidade do ar, concentração de poluentes e clima seco levam a quadros de gripe, resfriado, amigdalite etc. Atentas a essas enfermidades, as pessoas esquecem dos olhos, que também sofrem com a temperatura em queda. Entre os inúmeros problemas e preocupações que afetam a visão, está a síndrome do olho seco — patologia causada por diferentes formas de desequilíbrio na fisiologia e nas defesas externas oculares, produzindo um filme lacrimal instável quando o órgão está aberto.

“Há uma mudança na alteração da superfície ocular e o paciente começa a ter desconforto”, explica Márcia Reis Guimarães, chefe do Departamento da Qualidade de Visão e Visão de Cores do Hospital de Olhos Dr. Ricardo Guimarães, em Belo Horizonte. Ela explica que os casos de síndrome do olho seco estão aumentando devido ao uso de computadores, pois as pessoas piscam menos por estarem mais concentradas e mantendo uma fixação prolongada. Em média, nós piscamos 15 vezes por minuto. Diante do equipamento, o número cai para cinco.

No olho normal, um filme lacrimal dura cerca de sete segundos. Depois disso, começa a haver a evaporação, formando ilhas de quebra na lágrima que devem ser recobertas pela renovação do filme lacrimal. “O olho resseca, pisca e busca a lágrima para recobri-lo e refazer esse filme. Se não houver um piscar adequado, a lágrima, responsável pela manutenção do filme lacrimal, não se espalha pela superfície ocular e o olho fica seco”, explica Guimarães.

Antes do cotidiano tão tecnológico, a síndrome acometia 40% dos homens e 60% das mulheres. A incidência tem crescido basicamente na população masculina. A oftalmologista conta que de 15% a 18% da população mundial tem o problema, sendo que a menor incidência (de 10% a 12%) está nos países nórdicos pelo alto consumo de peixe — o ômega 3 funciona como fator preventivo.

Terceira idade
A síndrome é mais frequente na população que tem mais de 50 anos, tendo o auge na velhice, entre os 65 e 75 anos. Além da idade, a doença tem relação com a poluição ambiental crescente e a ingestão de medicamentos que interferem na produção e na qualidade da lágrima, como é o caso da isotretinoína, prescrita para casos de acne severa em adolescentes. “O efeito colateral desse remédio é o olho seco, observado também com o uso de alguns antidepressivos e mesmo em casos de pós-operatório da cirurgia refrativa, que causam alteração temporária na qualidade do filme lacrimal”, complementa Guimarães.

Mulheres depois da menopausa, por questão hormonal (principalmente pela queda do estrógeno), são mais suscetíveis a desenvolverem o problema. A lista não para por aí. A médica alerta ainda sobre a conjuntivite crônica alérgica: 36% dos pacientes poderão apresentar olho seco. Casos de doenças reumáticas, artrite reumatoide, tireoidite e tabagismo também acarretam alterações na glândula lacrimal. “A blefarite (inflamação das pálpebras) pode causar olho seco por causa da alteração das glândulas que participam da formação do filme lacrimal”, informa.
Problema interfere na qualidade de vida
 
Pessoas diagnosticadas com a síndrome do olho seco sofrem. Imagina lidar diariamente com coceira, olho vermelho, sensação de areia ou corpo estranho nos olhos, lacrimejamento excessivo e intolerância a lente de contato. “É muito desconfortável. Como o filme lacrimal não é de boa qualidade, a lágrima não é sadia. A pessoa começa a piscar mais, há mais muco e secreção no olho”, detalha Márcia Reis Guimarães, chefe do Departamento da Qualidade de Visão e Visão de Cores do Hospital de Olhos Dr. Ricardo Guimarães, em Belo Horizonte.

Segundo a médica, o olho humano tem 300 vezes mais sensibilidade do que a pele. Por isso, o problema dói e incomoda tanto. “Num ambiente com ar-condicionado, então, ao longo do dia, o quadro só piora”, observa. A síndrome altera outros aspectos da qualidade de vida. “Nada menos que 32% das pessoas vão ter dificuldade de dirigir à noite, a visão fica embaçada para leitura e 18% não conseguem ver tevê por muito tempo causada pela fotofobia. O quadro só piora ao longo do dia”.

O tratamento, destaca Márcia Guimarães, começa depois de uma avaliação da quantidade e da qualidade do filme lacrimal. Testes, como o rosa bengala e o Schirmer, indicam se o olho tem alguma alteração e a quantidade de secreção da lágrima. Já o break-up time foca no tempo que o filme fica intacto antes de começar a evaporar (de seis a oito segundos) ou se quebra perdendo a integridade superficial. “O hábito do paciente tem de ser observado. É possível compensar o desconforto com melhora da alimentação, com mais ômega 3, por exemplo, e a reposição da lágrima com lubrificantes oculares (mais aquoso no início e denso na fase aguda).” Cuidar da umidade do ambiente, usar óculos escuros mais fechados nas laterais e com lentes de qualidade e, se preciso, preservar as lágrimas existentes, colocando um oclusor no ponto lacrimal para que ela não seja drenada tão rapidamente, também são medidas que surtem efeito.

A lágrima é fundamental para os olhos, sendo produzida e drenada o tempo todo. É sugada para dentro do ponto lacrimal e escoa para o fundo da garganta (laringe). “Se chorar demais, ela escorre, mas é renovada o dia inteiro. A lágrima tem várias características que a tornam bactericida. Até brinco com meus pacientes que, se estiver com um machucado e não puder fazer nada, vale chorar em cima dele, já que lágrima têm enzimas, imunoglobulinas e antissépticos”, acrescenta a oftalmologista. (LM)
 
 
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