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CIÊNCIA

Bichos de estimação tratados com células-tronco

Técnica criada por brasileiro se mostra eficaz na regeneração de diferentes órgãos e tecidos de animais. O método pode beneficiar cães e gatos com doenças renais e movimentos prejudicados, entre outros problemas

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postado em 09/07/2014 14:00

Junia Oliveira

Lula é um cão da raça beagle que, durante muito tempo, lutou contra uma insuficiência renal. Idoso e com baixo peso, ele parecia condenado a morrer após um sofrimento diário. Contudo, um tratamento com células-tronco salvou a vida do animal. Passados seis meses da terapia, ele está feliz, ativo e com aspecto mais jovial. A abordagem inédita e desenvolvida no Brasil pode beneficiar bichos com doença nos rins, aplasia medular, lesões tendíneas e ligamentares, sequelas neurológicas de cinomose, fraturas e não união óssea, lesão de coluna, osteoartrites e osteoartrose.

A tecnologia usa um concentrado com 100% de células-tronco e foi criada pela Celltrovet, uma empresa que surgiu na Universidade de São Paulo (USP) e, depois de ficar encubada por quatro anos, iniciou a comercialização. A iniciativa atua nas áreas de terapia com células-tronco, medicina regenerativa e engenharia tecidual para pequenos e grandes animais. No laboratório, as estruturas são isoladas do tecido adiposo retirado de animais saudáveis com até 6 meses de idade. Diversos testes estabelecidos pela comunidade científica, como de diferenciação e proliferação celular, são feitos para comprovar a qualidade do material, que é armazenado.

O presidente da empresa, Enrico Jardim Clemente Santos, explica que, como o sistema imunológico do receptor não reconhece as células-tronco, é possível aplicar o concentrado com o material de um determinado animal em outro. “Isso evita que um cão muito debilitado seja submetido a uma anestesia para a retirada do tecido adiposo, eliminando, assim, o risco de ele morrer por causa dessa injeção”, diz. O procedimento de isolamento das células é propriedade industrial da empresa e é único. A companhia, sediada em São Paulo, é a primeira da América Latina a trabalhar com células-tronco em animais de pequeno porte, de acordo com Santos.

O tecido adiposo é recolhido no momento da castração ou de alguma outra cirurgia, com uma incisão de menos de 5cm. Simultaneamente, é coletado o sangue do animal para fazer diversos testes moleculares a fim de constatar que ele não está doente. Se detectado qualquer patógeno, o material é imediatamente descartado. O tecido é processado somente depois da comprovação de qualidade. “É pedida a autorização ao dono, que normalmente concorda e ainda fica feliz pelo fato de o animalzinho dele poder ajudar outros.”

Enrico Santos alerta que o concentrado só é disponibilizado ao veterinário mediante protocolos clínicos que garantem a necessidade do tratamento. As amostras são armazenadas em vários tubos de 1,5cm — cada um deles tem 2 milhões de células. Nas garrafinhas de cultivo, elas crescem numa quantidade infinita. “Até hoje, temos células de 2005 que são usadas e anualmente testadas”, diz. Enrico, que trabalha com esse tipo de técnica desde 1995, resolveu testar seus conhecimentos no assunto ligados à veterinária depois de ver, em 2005, quando terminava o doutorado na USP, um site de uma empresa norte-americana que usava a metodologia em cavalos.

Exemplos
Já foram tratados mais de 300 animais com uma taxa de sucesso superior a 80%. Assim como Lula, Mel, uma buldogue de 7 meses e com cinomose, doença degenerativa que acomete principalmente o sistema nervoso, também se recuperou depois do tratamento. Os veterinários já haviam indicado a eutanásia, e o dono, então, recorreu ao tratamento de células-tronco como última opção. Hoje, a cachorrinha corre e brinca em casa.

Outro exemplo é Hanna, uma gatinha de 5 anos que sofria de doença renal crônica e aplasia medular (quando a medula para de produzir todos os tipos de células — brancas, vermelhas e plaquetas) e também tinha os dias contados. Atualmente, Hanna é uma gata saudável que brinca diariamente. Fabio, outro gato, de 14 anos, também foi acometido pela doença renal crônica e pela insuficiência pulmonar, mas hoje é saudável e nunca mais precisou fazer fluidoterapia para normalizar seus índices de ureia e creatinina, nem tão pouco usar bombinha para melhorar seu quadro respiratório.

A tecnologia, porém, ainda não está muito disseminada entre os veterinários. “Nossos resultados na medicina-veterinária mostram que funciona. Por enquanto, trabalhamos com veterinários empreendedores, que acreditam na proposta. É um trabalho de formiguinha apresentar essa alternativa”, diz Enrico Santos. Ele ressalta que o tratamento é um conjunto de soluções. “As células-tronco não são milagrosas. Não se deve deixar de lado a fisioterapia ou a acupuntura, quando indicadas. A aplicação do concentrado otimiza e torna mais eficiente os outros tratamentos, ajudando veterinários e donos de animais com um serviço de maior qualidade e possibilidade de cura.”
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