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Chegada prematura

O nascimento de bebês antes do tempo mínimo de 37 semanas está relacionado a doenças como hipertensão e diabetes e pode causar complicações neurológicas e visuais

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postado em 16/07/2014 14:00

Paula Takahashi


Mariana Rosa aconchega a filha, Alice, hoje com 10 meses: a bebê nasceu com 7 meses e ficou quase cinco meses na unidade de terapia intensiva  
Mariana Rosa aconchega a filha, Alice, hoje com 10 meses: a bebê nasceu com 7 meses e ficou quase cinco meses na unidade de terapia intensiva

Belo Horizonte — “Na contramão do mundo, aprendi a contar o sucesso em pequenas medidas: centímetros, gramas e mililitros.” O relato comovente de Mariana Rosa, 37 anos, mãe da pequena Alice, hoje com 10 meses, descreve as conquistas diárias de um bebê que nasceu com 29 semanas — o equivalente a sete meses de gestação — 31cm e 900g. Assim como Alice, milhares de crianças vêm ao mundo antes de completar o período gestacional mínimo de 37 semana. Elas representam 11,3% de todos os partos realizados no Brasil, índice 60% maior que o registrado na Inglaterra e no País de Gales, por exemplo. Segundo dados mais recentes do Ministério da Saúde, em 2012, 245 mil crianças nasceram antes do esperado, número que já foi de 109 mil em 2000.

As causas do parto pré-termo ou prematuro estão relacionadas principalmente a doenças maternas, como hipertensão, diabetes, infecção uterina e urinária, descolamento prematuro da placenta, entre outras. Mas a situação também pode ser motivada por patologias congênitas do bebê, como as respiratórias e cardíacas, e até por gestação múltipla, quando a mulher gera mais de um bebê. “Por isso, é de suma importância fazer um pré-natal adequado, com consultas de rotina, já que existem vários métodos para diagnosticar, tratar e prevenir complicações. Desde que o bebê não corra risco intrauterino, o que se faz é tentar postergar ao máximo o nascimento”, explica a coordenadora da Unidade de Terapia Intensiva Neonatal e Pediátrica (UTIP) do Hospital Mater Dei de Belo Horizonte, Wania Calil Nicoliello. O Ministério da Saúde indica que sejam realizadas, no mínimo, sete consultas ao longo da gestação.

As cesarianas agendadas também estariam entre as causas da prematuridade. “Isso porque o ultrassom que indica a idade gestacional tem uma margem de erro de 15 dias para mais ou para menos. Com isso, 38 semanas podem ser, na verdade, 36”, explica a pediatra Fabíola Coelho, do Hospital Sofia Felman. Levantamento inédito realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) indicou que 35% dos partos ocorrem com 37 a 38 semanas gestacionais. Embora não sejam considerados prematuros, são bebês que poderiam ganhar mais peso e maturidade se tivessem a chance de chegar a 39 semanas. “A epidemia de nascidos com 37 ou 38 semanas no Brasil é, em parte, explicada pelo número elevado de cesarianas agendadas antes do início do trabalho de parto, especialmente no setor privado”, alerta o estudo.

Sequelas
Ao nascer pré-termo, mesmo que próximo ao período mínimo de 37 semanas, o bebê pode apresentar desconforto respiratório e até intestinal, por exemplo a intolerância a uma dieta. “Assim como o pulmão, que não tem surfactantes suficientes para funcionar adequadamente, o coração, o cérebro e o intestino também não estão preparados para funcionar antes da hora”, observa Fabíola Coelho. Por isso, há um empenho do Ministério da Saúde, em parceria com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), a fim de valorizar o parto normal e até a proposta de revisão dos currículos acadêmicos e dos programas de residência com o Ministério da Educação.

Bebês nascidos entre a 32ª e a 36ª semana de gestação se enquadram na prematuridade moderada. De 28 a 31 semanas, a condição é classificada como acentuada e abaixo de 28, extrema. “Os recém-nascidos extremos e com peso inferior a 1kg são os que têm maiores chances de complicações”, explica Wania Calil. As patologias pulmonares são as primeiras a se manifestar nos recém-nascidos pré-termo. “Isso porque o desenvolvimento pulmonar não está completo entre 34 e 37 semanas, ocorrendo nessa época um aumento da produção de surfactante, que contribui para o amadurecimento pulmonar”, esclarece a médica.

Pelo fato de esses bebês ficarem muito tempo submetidos à ventilação mecânica e em uso prolongado de oxigênio, há risco de desenvolverem a retinopatia da prematuridade, o que pode levar a sequelas visuais de graus variáveis. “As situações mais temidas são as hemorragias intracranianas, que, de acordo com o grau de intensidade, podem levar a alterações neurológicas. Quanto mais prematuro o bebê, maior a fragilidade vascular cerebral, o que eleva as chances de hemorragia intraventricular e parenquimatosa” , acrescenta Wânia.

Muitas das complicações podem ser reversíveis, o que vai depender da gravidade com que acometem o bebê. Em casos extremos, o recém-nascido pode ficar até seis meses internado na UTI neonatal, período necessário para que o quadro se estabilize, a dependência de oxigênio seja superada, ele esteja em ganho progressivo de peso e aprenda a sugar.


Depoimento

Vida por um fio
“Ela nasceu em 17 de agosto de 2013, dois dias antes do meu aniversário, com 900g, 31cm e 29 semanas. Foram 145 dias de internação na UTI Neonatal, mais de 60 dias entubada, entre idas e vindas, cinco infecções, sendo duas delas septicemias graves, sete transfusões de sangue, uma cirurgia de retina, uma hemorragia pulmonar, hemorragia cerebral e uma parada cardiorrespiratória que durou 26 minutos. A vida dela esteve por um fio. Um fio que procurei sustentar de toda maneira que me foi possível. Pelo som da minha voz, pelo toque das minhas mãos, que, por muito tempo, foram capazes de envolver quase completamente o seu corpo. Pelo olhar atento e aflito a toda a aparelhagem que a envolvia, numa vigília sem descanso. Na contramão do mundo, aprendi a contar o sucesso em pequenas medidas: centímetros, gramas e mililitros. No universo das miudezas, destacou-se a grandiosa vontade de viver da minha filha. Aprendemos que um bebê prematuro requer um amor maduro. Passada a luta pela sobrevivência, lutamos agora pela sua qualidade de vida, uma vez que ela desenvolveu uma paralisia cerebral que afeta sua visão e sua coordenação motora. Ela também tem síndrome de Westk, uma espécie de epilepsia da infância. Mas, com tão pouco tempo de vida, já mostrou que é capaz de muito. E também me fez capaz de muito mais como mãe. Por tudo isso, sou profundamente grata pela experiência da maternidade exatamente da maneira que se apresentou a mim: um testemunho da capacidade de transformação da vida pela força do amor.”
Mariana Rosa, 37 anos, mãe de Alice, nascida com cerca de 7 meses

Reabilitação com vários especialistas


Ser liberado para ir para casa parece selar o fim de um longo período de recuperação e luta pela vida. Mas especialistas e os próprios pais de prematuros reconhecem que se trata apenas do início de um processo incessante para garantir a qualidade de vida dessas crianças. Mãe de uma menina prematura de 29 semanas, a fisioterapeuta especializada em reabilitação de bebês nascidos pré-termo Roberta Sasdelli alerta sobre a importância do acompanhamento de uma equipe multidisciplinar nos primeiros meses de vida do bebê.

“Esse grupo de profissionais deve contar com fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, neurologista, pediatra e oftalmologista”, lista. Segundo ela, nos primeiros dias de vida, o recém-nascido não está livre de lesões, mesmo que leves, e até de apresentar futuramente distúrbios de aprendizado, na cognição e mesmo o autismo. “Quanto mais cedo houver a intervenção, melhor, já que o cérebro ainda tem uma plasticidade que permite que ele possa ser remodelado por meio de estímulos. Quanto menor essa criança, melhor será a resposta”, observa.

Portanto, mesmo que não haja nenhum diagnóstico de lesão ao fim do período de internação, é preciso seguir com uma rotina de consultas frequentes. “Muitos pais já saem do CTI com a orientação de buscar esse apoio multidisciplinar. Durante o primeiro ano de vida, é possível recuperar muita coisa”, garante a pediatra Cláudia Fonseca Moura.

Com um acompanhamento próximo e especializado, Roberta conta que a filha, hoje com 12 anos, não apresenta nenhuma sequela da prematuridade. “Quanto mais cedo a mãe intervir, maiores as chances de reabilitação”, reforça. (PT
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