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Correio Braziliense

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CIÊNCIA

A síndrome da fofura

Bichos domésticos têm características físicas ternas, bem diferentes dos ancestrais selvagens. As orelhas caídas e o eterno jeitão de filhote seriam consequência de erros no desenvolvimento de um grupo de células

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postado em 16/07/2014 14:00

Há mais de 140 anos, Charles Darwin percebeu algo peculiar sobre os mamíferos domésticos. Comparadas aos ancestrais selvagens, as espécies domesticadas são mais mansas e tendem a exibir uma série de outras características ternas, como orelhas mais caídas, tufinhos de pelo branco, faces juvenis e mandíbulas menores. Desde então, as justificativas para esses padrões não foram muito conclusivas. Agora, um conjunto de artigos publicados na revista Genetics tenta explicá-los a partir de uma hipótese inédita.

De acordo com os textos, a aparência fofa que faz com que humanos se derretam pelos animais domésticos surgiu graças a um grupo de células-tronco embrionárias chamadas de crista neural. Elas seriam responsáveis pela “síndrome da domesticação”, que fez com que cães, raposas, porcos, cavalos, ovelhas, coelhos e mesmo não mamíferos, como pássaros e peixes, deixassem de ser encarados como criaturas selvagens e passassem a arrancar suspiros do Homo sapiens.

“Como Darwin fez suas observações quando a ciência da genética estava apenas começando, a síndrome da domesticação é um dos problemas mais antigos desse campo. Então, foi tremendamente empolgante quando constatamos que a hipótese da crista neural é capaz de explicar todos esses traços anatômicos”, disse Adam Wilkins, da Universidade de Humboldt, em Berlin. Ele é um dos editores da Genetics e coautor do artigo.

Essas células são formadas perto do cordão espinhal em desenvolvimento no início da fase embrionária dos vertebrados. À medida que o embrião amadurece, as células migram para diferentes partes do corpo, onde darão origem a diversos tipos de tecidos, como as estruturas pigmentares e partes do crânio, da mandíbula, dos ossos e das orelhas, assim como as glândulas adrenais, que são o centro da resposta “lute ou fuja”. Esse mecanismo é deflagrado diante do perigo: em frações de segundo, o cérebro indica se, perto de uma ameaça, o animal vai enfrentá-la ou correr para longe dela.

Indiretamente, portanto, a crista neural também afeta o desenvolvimento do cérebro. Na hipótese proposta por Wilkins, os mamíferos domesticados, comparados aos ancestrais, exibem uma espécie de defeito no desenvolvimento ou na migração dessas células. “Quando os humanos começaram a cruzar esses animais para domesticação, eles podem, inadvertidamente, ter selecionado aqueles com deficits da crista neural, resultando em glândulas adrenais menores ou de amadurecimento lento. Então, esses animais se tornaram menos receosos de ter contato com os homens”, diz Wikins.

A crista neural, contudo, influencia mais que as glânduals adrenais. Entre outros efeitos, o deficit nessa população de células pode causar despigmentação em algumas partes da pele, má-formação da cartilagem da orelha, anomalias dentárias e mudanças no desenvolvimento mandibular — tudo isso são características da síndrome da domesticação. “A domesticação dos animais foi um passo crucial para o desenvolvimento das civilizações humanas. Sem esses animais, é difícil imaginar que as sociedades tivessem se moldado à maneira que conhecemos”, afirma o biólogo.

Animal extinto conviveu com humanos na América


Animal parecido com elefante era alimento de caçadores-coletores 
Animal parecido com elefante era alimento de caçadores-coletores

Todo mundo pensava que ele havia desaparecido antes mesmo que os primeiros humanos chegassem à América do Norte. Mas, agora, acredita-se que um animal semelhante ao elefante não só conviveu com os pioneiros dessa parte do continente como foi uma de suas principais presas. Pesquisadores da Universidade do Arizona encontraram, no México, artefatos da cultura pré-histórica Clovis misturados a ossos de dois exemplares de Gomphotheriidae, espécie extinta que viveu em toda a América e foi um dos ancestrais do elefante.

A descoberta sugere que os Clovis — primeiro grande grupo de caçadores-coletores a habitar a América do Norte — perseguia os Gomphotheriidae para incluí-los na dieta. Já se sabe que os integrantes dessa antiga cultura humana caçava os primos desses animais — mamutes e mastodontes. De acordo com a arqueóloga Vance Hollidey, coatura do estudo publicado na revista Pnas, embora os Gomphotheriidae fossem presas de povos das américas do Sul e Central, nunca se havia encontrado uma conexão entre esses animais e os humanos na porção norte do continente. “Essa é a primeira evidência arqueológica do Gomphotheriidae descoberta a na América e a única que conhecemos”, afirma a professora de antropologia e geologia da Universidade do Arizona.

Holliday e outros cientistas americanos e mexicanos começaram escavando os restos dos esqueletos de dois jovens paquidermes em 2007, depois de fazendeiros alertá-los sobre a existência de fósseis no norte de Sonora, no México. Até então, contudo, os pesquisadores não sabiam com que tipo de animal estavam lidando. “Primeiro, tendo como base apenas o tamanho dos ossos, pensamos que talvez fosse um bisonte — os bisontes extintos eram um pouco maiores do que os modernos”, diz Holliday. No ano seguinte, a equipe descobriu uma mandíbula com os dentes enterrada no local de escavações. “Foi o que nos contou a verdadeira história”, afirma.

Os Gomphotheriidae eram menores que mamutes — aproximadamente do mesmo tamanho dos elefantes modernos. Eles se espalharam de forma bem distribuída pela América do Norte, mas, até agora, acreditava-se que desapareceram dos registros fósseis do continente antes de os primeiros humanos chegarem até lá, entre 13 mil e 15 mil anos atrás, durante a última Era do Gelo. Os ossos descobertos pela equipe de Holliday têm 13,4 mil anos, fazendo dos exemplares fossilizados os últimos Gomphotheriidae conhecidos da América do Norte.

Mas os ossos não foram as únicas descobertas da equipe na remota localização de El Fin del Mundo, como os cientistas apelidaram o sítio arqueológico. À medida que os fósseis eram retirados, eles também escavaram numerosos artefatos Clovis, incluindo as típicas pontas de lança desse povo. O nome dessa cultura vem do tipo de ferramenta que eles produziam, encontrada perto da cidade de Clovis, no Novo México, na década de 1930.

A posição e a proximidade dos fragmentos de armas Clovis em relação aos ossos dos animais no sítio de escavação sugerem que os humanos mataram os paquidermes naquele local. Das sete lanças encontradas, quatro estavam em meio aos fósseis, e três transpassavam claramente um dos ossos. Para Holliday, está claro que os dois exemplares de Gomphotheriidae foram caçados pelos povos ancestrais da América do Norte. “Essa é a primeira evidência de que as pessoas estavam caçando os animais nessa parte do continente e acrescenta outro item ao menu Clovis”, diz Holliday.

 

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