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Ferramentas caninas

Não basta treinamento. Pesquisadores investem em equipamentos para cães especiais, como os que detectam doenças, localizam vítimas de desastres, drogas e explosivos

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postado em 21/07/2014 13:10 / atualizado em 21/07/2014 13:38

Roberta Machado

Cachorro auxilia na busca de sobreviventes do terremoto que atingiu o Haiti, em 2010: sensores vão facilitar ação (Tatyana Mekeyeva/Reuters - 15/1/10) 
Cachorro auxilia na busca de sobreviventes do terremoto que atingiu o Haiti, em 2010: sensores vão facilitar ação


Há cachorros que passam o dia fazendo muito mais do que ganhar carinho e apanhar bolas. São dezenas de milhares de animais de trabalho registrado, que receberam treinamento especial para auxiliar pessoas nas mais diversas funções, como guiar cegos, ajudar quem tem limitações motoras, servir de alerta em situações de emergência, encontrar drogas e até mesmo detectar câncer. O desafio para esses “profissionais peludos” é grande, não somente pela pressão do trabalho, mas também pela dificuldade que eles têm em executar tarefas com dispositivos e ferramentas desenvolvidos para mãos e dedos, não para patas e focinhos.

A relação entre os animais e a tecnologia é objeto de estudo de alguns grupos internacionais, que se colocaram no lugar dos bichos para entender suas limitações e ajudá-los a ser mais eficientes. Pesquisadores do Laboratório de Interação Animal-Computador da Open University (OU), no Reino Unido, foram a campo observar os animais em seu ambiente de trabalho. Os cientistas visitaram associações especializadas em treinar cães para diferentes funções, e viram como a tecnologia poderia facilitar o aprendizado e o trabalho realizado por eles.

“Passei um longo tempo observando cachorros que detectam câncer, no trabalho e fora dele. E observando a interação entre treinadores e cães”, conta Clara Mancini, chefe do Laboratório de Interação Animal-Computador. “Claro que precisamos aplicar métodos de avaliação e design que não usavam comunicação verbal. Isso basicamente significa começar com o desenvolvimento de variações simples de protótipos para permitir que o animal as experimente, enquanto observamos as suas respostas e obtemos o feedback dos treinadores, para que possamos fazer os ajustes necessários”, explica.

O trabalho mencionado pela pesquisadora foi conduzido na organização britânica Medical Detection Dogs, um grupo que treina cachorros para identificar cheiros associados a determinadas doenças, e que são imperceptíveis aos humanos. Esses bichos são usados, inclusive, para diagnosticar câncer de próstata com base em amostras de urina. Normalmente, os cães detectores de câncer são treinados para indicar a presença das células danificadas se mantendo próximos à amostra examinada. No caso de não notarem nenhum sinal da enfermidade, os animais se afastam. É o sinal de que não há problemas. Mas esse é um processo que precisa ser assimilado pelo animal, exigindo treinamento e atenção.

A equipe do laboratório coordenado por Mancini desenvolveu uma interface simples para facilitar essa tarefa: um suporte sensível à pressão aplicada pelo focinho do cachorro. Naturalmente, quando o bicho percebe a alteração na composição da urina, ele procura se aproximar do recipiente, empurrando-o. O apoio detecta essa pressão e envia a
informação a um computador.

O sistema interpreta a força aplicada pelo cão de acordo com a personalidade do animal. Cada um pode usar mais ou menos pressão quando encontra a amostra. O processo facilitou o treinamento dos caninos, tornando o teste mais rápido. “O trabalho de colaboração da Open University com a Medical Detection é incrivelmente importante. Ele permite que cães se comuniquem com o cliente ou com o treinador de forma muito mais efetiva”, avalia Rob Harris, da organização britânica.

Os cachorros de detecção médica também servem de assistentes de pessoas com problemas de saúde. Se o paciente desmaia, por exemplo, é papel do animal buscar ajuda. O alarme criado para cães fica instalado a uma altura de fácil acesso para o animal. Consiste em uma corda que pode ser facilmente retirada do lugar com uma mordida. Assim que o objeto é removido da base, o aparelho envia um sinal para uma equipe de resgate ou para os familiares do doente, avisando que há uma emergência.

Adaptação

Para exercer as atividades, os cães não precisam somente de equipamentos criados exclusivamente para eles. Os animais de assistência passam o dia interagindo com ferramentas já existentes, mas que foram feitas para humanos. Apertar um pequeno interruptor ou abrir uma maçaneta, por exemplo, são truques difíceis de aprender e que exigem várias tentativas até mesmo do cachorro mais experiente. Embora tenham talentos impressionantes, como o faro apurado, esses animais não contam com polegares e não caracterizam formas, nem mesmo veem cores como os humanos.

Cachorros têm dificuldade para distinguir o verde e o vermelho, muito usados em equipamentos de emergência. Também sofrem para discernir formas que são claramente distintas aos olhos humanos — para um cão, é mais fácil separar um objeto grande de um pequeno, por exemplo. Telas sensíveis ao toque e botões de clique também são um problema para esses animais, que preferem interagir com superfícies macias.

Clara Mancini e sua equipe observaram particularidades como essas de perto na instituição Dogs for the Disabled. A partir daí, criaram grandes botões feitos especialmente para os assistentes caninos. Os interruptores são feitos nas cores azul e amarela, mais visíveis para esses bichos. Os dispositivos são grandes e sensíveis o suficiente para ser acionados com o toque de uma pata ou de um focinho. “O importante é ter em mente o que é relevante para os cachorros e para os outros animais. E o que eles realmente querem”, ressalta a pesquisadora. “Talvez a tecnologia possa ser usada para ajudar os cães a transmitirem o que é importante para eles para que possam
ser melhores companheiros.”

Com o objetivo de facilitar a comunicação entre animais e donos, um grupo do Instituto de Tecnologia de Georgia (Georgia Tech) trabalha em um dispositivo vestível que interpreta sinais do cachorro em mensagens que podem ser compreendidas por humanos. Chamado Fido (sigla em inglês para “facilitando interações para cães com ocupações”), o equipamento consiste em um colete com sensores feitos para receber diferentes tipos de estímulos. Dependendo do que precisa dizer ao dono (sinais de alerta, pedidos ou avisos), o bicho puxa uma corda com os dentes, morde uma peça flexível ou toca um sensor com o focinho — tarefas simples para os animais de quatro patas.

“Baseamos os nossos sensores em ações que os cachorros fazem naturalmente. Um pequeno filhote vai puxar alguma coisa, e isso é algo que os cachorros podem fazer por toda a vida. Cães podem morder e segurar coisas. Podem tocar objetos com seus focinhos. Nós tiramos vantagem disso”, destaca Melody Jackson, professora da Georgia Tech, idealizadora do projeto e experiente treinadora de cachorros. A equipe ainda conta com a participação de Thad Starner, o líder do projeto Google Glass e pioneiro na tecnologia wearable. Os pesquisadores também contam com investimentos do próprio Google para aprimorar a tecnologia, já testada em cachorros, com bons resultados.

A mensagem pode ser transmitida por meio de uma voz eletrônica emitida pelo próprio colete ou por um sinal enviado ao dono em um fone de ouvido conectado ao aparelho. O Fido poderia ser usado por cães-guia e até mesmo por animais treinados para identificar explosivos e vítimas de acidentes. Também como forma de um animal alertar pessoas da aproximação de desastres naturais ou simplesmente para ensinar um cachorro a avisar o dono quando está na hora de passear.
 
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