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CIÊNCIA

Nanotubos de carbono saem do laboratório

Centro de pesquisa brasileiro é criado para tornar o produto, capaz de fortalecer materiais como o cimento, mais acessível à indústria. A iniciativa conta com o apoio de empresas como a Petrobras

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postado em 21/07/2014 13:39

Pedro Cerqueira

 


 
"A ideia nasceu ao enxergarmos que existia uma demanda no mercado para aplicar a tecnologia dos nanotubos desenvolvida dentro da universidade" (Marcos Pimenta, coordenador da iniciativa)


Perspectiva da sede onde funcionará o CTNanotubos: ponte entre a universidade e a indústria  (CTNanotubos/Divulgação) 
Perspectiva da sede onde funcionará o CTNanotubos: ponte entre a universidade e a indústria

 
Belo Horizonte — Transformar o conhecimento desenvolvido na universidade em aplicações úteis à indústria. É com esse intuito que nasce o Centro de Tecnologia em Nanotubos de Carbono (CTNanotubos), projeto de R$ 36 milhões patrocinado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), pela Petrobras e pela InterCement. “A ideia nasceu ao enxergarmos que existia uma demanda no mercado para aplicar a tecnologia dos nanotubos desenvolvida dentro da universidade”, explica Marcos Pimenta, professor do Departamento de Física da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador da iniciativa.

Por enquanto, o centro funciona em um espaço provisório cedido pela universidade e pelo Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-Tec), mas em breve migrará para o espaço definitivo, um edifício de quatro andares na capital mineira. O desafio da empreitada é levar a promissora tecnologia para uma escala maior e transmiti-la à indústria. “Da escala de laboratório para a escala industrial”, resume Bruno França Pádua Coelho, diretor executivo do Instituto para o Desenvolvimento de Empresas de Base Tecnológica (IEBT), que presta consultoria para o CTNanotubos.

Segundo Pimenta, trata-se de um trabalho que visa a otimizar processos para viabilizar determinada ideia, já que, na universidade, a principal preocupação, na maioria dos casos, é a demonstração de que ela funciona, não havendo tanta preocupação com a aplicação real. O resultado esperado é uma melhor eficiência do produto, com maior foco no resultado.

Um dos produtos que já estão sendo desenvolvidos é o nanocompósito de cimento. A mistura com fibras nanométricas, ou seja, com diâmetro 100 mil vezes menor que o de um fio de cabelo, torna o cimento muito mais resistente, impedindo a formação e a propagação de fissuras, além de reduzir o consumo de aço em elementos de concreto armado. As aplicações da tecnologia estão nas plataformas e nos poços de petróleo, assim como na indústria da construção civil em materiais diversos.

Resistente

Os nanotubos de carbono podem ser até 50 vezes mais resistentes que o aço, apesar de terem uma densidade seis vezes menor. Assim, eles podem ser misturados a outros materiais convencionais, como plásticos, cimento e cerâmicas, para fortalecê-los. É após a mistura que ganham a denominação de nanocompósitos. Outras propriedades desses materiais são uma maior resistência às variações de temperatura e a significativa melhora na condução de energia elétrica e térmica. Os nanotubos também são empregados em matrizes poliméricas, tema da pesquisa realizada há seis anos pela professora Glaura Silva, da UFMG, em parceria com a Petrobras.

Nesse ramo, os materiais em que a empresa petrolífera tem manifestado interesse são, em especial, a resina epóxi adesiva de alto desempenho, que pode ser usada na adesão de estruturas metálicas na indústria de petróleo e gás, e o poliuretano termorrígido, aplicado em enrijecedor de curvatura, também na indústria de petróleo e gás. Na eletrônica, os nanotubos de carbono podem ser usados para desenvolver dispositivos como sensores e circuitos integrados e, para o setor de energia, em baterias, supercapacitores e células solares, mas isso por enquanto está fora do escopo do CTNanotubos/UFMG.

Estão nos planos, ainda, criar uma entidade sem fins lucrativos para administrar o centro, que deve funcionar como uma plataforma para a transferência de tecnologias capaz de atrair até mesmo empresas internacionais. Assim, o projeto pode se sustentar por meio das receitas dos royalties pagos pelas companhias, assim como pela prestação de serviços de consultoria e por novos projetos de pesquisa e desenvolvimento. Outra possibilidade é a criação de uma empresa a partir do centro (spin offs) para comercializar em larga escala os produtos resultantes do que for criado.

Segundo Marcos Pimenta, o projeto é pioneiro no Brasil. “Começamos há quatro anos e tivemos que desenvolver um modelo de negócio. Falta uma legislação que permita, de forma mais fácil, essa transferência de tecnologia entre universidade e indústria”, explica o coordenador, contando como foi difícil chegar a um acordo sobre que fatia do bolo receberia cada parte envolvida no projeto, processo que durou dois anos.

Para saber mais
Preocupação com a segurança

Como a tecnologia dos nanocompósitos é relativamente nova, pouco se sabe sobre os efeitos desses materiais tão pequenos no meio ambiente. Pensando nisso, uma das coordenadorias do CTNanotubos será voltada à segurança, ao meio ambiente e à saúde, com a finalidade de entender possíveis efeitos adversos e também criar protocolos sobre a aplicação correta desses materiais. De acordo com Bruno França, diretor executivo do Instituto para o Desenvolvimento de Empresas de Base Tecnológica, atualmente não existe legislação específica para produção, estoque, manuseio ou descarte de nanotubos de carbono, porém qualquer empreendimento baseado nesses materiais deve levar em consideração esses aspectos no desenvolvimento de seus protocolos. Uma das funções dessa coordenadoria vai ser dar suporte, não apenas ao CTNanotubos, em Minas Gerais, mas a outros empreendedores dessa área, visando também a fornecer uma certificação da inocuidade da utilização dos produtos.
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